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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Palavras do Infinito-Francisco Cândido Xavier

 

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Francisco Cândido Xavier

Humberto de Campos

Palavras do Infinito

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Conteúdo resumido

Humberto de Campos, jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e fino humorista, volta do além por intermédio do lápis do médium Francisco Candido Xavier, mais vivo do que nunca e proclamando a todos a realidade da vida imortal. “A passagem de Richet”, “Carta a minha mãe” e “A Casa de Ismael”, são alguns dos capítulos elaborados por Humberto de Campos, além de outras comunicações de autoria de Nilo Peçanha, Eça de Queiroz, Hermes Fontes, Crus e Souza, Antero de Quental, Carmen Cinira, Emmanuel etc. Palavras do Infinito é um cântico a beleza enviado para deleite de todos aqueles que buscam conhecer novos horizontes espirituais.

LEITOR AMIGO

A reedição do livro Palavras do Infinito encontra natural explicação no rápido escoamento que tiveram os cinco mil exemplares da publicação anterior, cujos pedidos, vindos de toda parte, denotaram o interesse dos que lêem pelas coisas da espiritualidade.

Muito a animou também, concorrendo para a nova tiragem, a boa vontade do digno confrade Francisco Cândido Xavier, a cuja mediunidade e solicitude se devem estas encantadoras comunicações, enviando-nos mais crônicas, mensagens e alguns versos inéditos que tanto ilustram e exortam esta segunda edição.(*)

(*) Este prefácio foi redigido para 2º edição impressa em 1936.

Humberto de Campos, graças à infinita bondade do Criador, continua a escrever para os “que ficaram”, fazendo-o aliás com a irrecusável autoridade de repórter verdadeiro e sobretudo insuspeito para tratar de assuntos do Além, pois, tivesse ele sido, na Terra, espírita praticante, não faltariam opositores fanáticos que viessem refutar os luminosos conselhos que manda às almas encarceradas sobre a “face nevoenta” do planeta com o objetivo de edificá-las para a vida eterna no apostolado do trabalho e da dor.

O humilde psicógrafo Francisco Cândido Xavier com tais produções vem, mais uma vez, firmar os foros justíssimos que goza de médium assombroso, legítimo expoente da fenomenologia espírita, vaso escolhido do Senhor para a grandiosa missão de provar, sob aspecto estritamente intelectual, a sobrevivência do ser e a imortalidade da alma humana.

E essa prova incontrastável aqui está. Contra ela pode levantar-se o “argumento dubitativo”, mas a hipótese única que a explica é a do Evangelho, pela Ressurreição de Jesus, sobre a qual se assenta todo o edifício moral, filosófico e científico do Espiritismo.

Mais abundante, copiosa, imensa, entretanto, ela se nos depara no “Parnaso de Além- Túmulo, onde o moço de instrução rudimentar, que vive pobre e triste na sua pequena vila de Pedro Leopoldo, sem biblioteca e sem professor, consegue captar produções de trinta e dois poetas, brasileiros e portugueses, figurando entre eles nomes gloriosos, como Arthur Azevedo, Batista Cepelos, Casimiro de Abreu, Castro Alves, Emílio de Menezes, Fagundes Varela, Hermes Fontes, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Antero de Quental, Antônio Nobre, Augusto dos Anjos, Guerra Junqueiro, João de Deus, Júlio Dinis, D.Pedro de Alcântara e tantos mais. Ler este livro surpreendente, maravilhoso, e porque não dizê-lo, comovedor,é verificar 190 produções psicográficas de Chico Xavier, das quais 118 sonetos magistrais num total de 6.538 versos!. É realmente admirável a farta messe de poesias e prosa com que o além concorre para provar aos homens que todos os poetas escritores falecidos, sem distinção, são imortais porque são todos acadêmicos do Grand Trianon, vivendo,sentindo, amando e pensando “sem miolos na cabeça...”

O que mais empolga nessas produções não é só o estilo, mas a perfeita identidade literária dos autores, estilo e identidade que se vislumbram quer na cadência do verso, quer na forma, quer na idéia ou no fundo filosófico.

João Ribeiro, citado por Manuel Quintão, “mestre que tal se fez, indene de rabularias acadêmicas”, ao referir-se ao “Parnaso”disse que o médium não atraiçoara nem um dos poetas.

***

Estas considerações à guisa de apresentação do folheto já vão excedendo o limite razoável. Antes porém de concluir é nosso desejo agradecer a Humberto de Campos, a Humberto espírito e coração imortais, a bondade com que atendeu à solicitação que lhe fizemos para prefaciar as “Palavras do Infinito”, e o nosso agradecimento é tão mais profundo quão extraordinariamente belo e edificante é o prefácio do saudoso escritor patrício. Possam as suas crônicas e bem assim as poesias e mensagens contidas neste opúsculo tocar os corações endurecidos e levar, a quantos o lerem, o doce orvalho da Fé, abrindo-lhes o entendimento para a compreensão da imortalidade e certeza da sobrevivência.

J.B.

(São Paulo, 3 de outubro de 1936)

A Palavra dos Mortos

Pedem de São Paulo a colaboração humilde do meu esforço para a apresentação de “Palavras do Infinito” que um grupo de espiritistas da Sociedade de Metapsíquica do grande Estado, tendo à frente o eminente amigo Dr. João Batista Pereira, vai lançar à publicidade com o objetivo de fornecer gratuitamente, com a mensagem dos mortos, um consolo aos tristes, uma esperança aos desafortunados e um raio de claridade aos que naufragam, desesperados, na noite escura da dúvida e da descrença em meio às borrascas do oceano tempestuoso da vida.

Existem poucas probabilidades de eficácia no esforço dos mortos em favor da regeneração da sociedade dos vivos. Contudo, as atividades de ordem espiritualista, na atualidade do mundo, constituem a derradeira esperança da civilização. Sou agora dos que vêem de perto o trabalho intenso das coletividades invisíveis pelo progresso humano; sinto ao meu lado a vibração luminosa do pensamento orientador das sentinelas avançadas de outras esferas da evolução e do conhecimento e reconheço que somente das concepções do moderno Espiritualismo poderá nascer o novo dia da Humanidade. E embora a negação sistemática dos homens diante dessas realidades consoladoras, os túmulos vêm deixando escapar os seus profundos e maravilhosos segredos, falando a sua palavra tocada de conforto e de claridades sobrenaturais.

Na Antiguidade egípcia, figurava-se o santuário da verdade ao fim de uma estrada sinuosa, rodeada de esfinges representando os enigmas das suas essências profundas; e no seu estranho simbolismo essas imagens constituíam as esfinges da Morte, cujos umbrais de silêncio e de treva a Vida jamais poderia transpor para solucionar os problemas inextricáveis dos destinos e dos seres. O tempo, todavia, modificou a mentalidade humana, adaptando-a para um conhecimento melhor de si mesma. Em meados do século passado, quando o materialismo atingia as suas cumiadas, na expressão filosófica dos pregoeiros e expositores, eis que os mortos voltam a confabular com os vivos sobre a sua maravilhosa ressurreição. A esperança volta a felicitar a mansarda dos pobres e o coração dos oprimidos na prodigiosa perspectiva da imortalidade através de todos os mundos e os desencarnados, num heroísmo supremo, volvem aos centros de estudos e aos gabinetes dos sábios com a lição piedosa das suas experiências.

Não obstante a arrancada gloriosa dos que já haviam partido das substâncias poderes da Terra para as esferas luminosas do Céu, tentando, com os seus exércitos de arcanjos, reorganizar a sociedade humana, restaurando os alicerces do Cristianismo, poucos foram aqueles que ouviram as suas trombetas ecoando no vale das lágrimas e das provações. Diante desse fenômeno universal, a religião não pôde volver dos seus interesses e da sua intransigência para identificar a espiritualidade dos seus santos e dos seus antigos reformadores; a ciência acadêmica, por sua vez, conserva-se de guarda ao seu passado e com as suas conquistas de ontem presume-se na posse da sabedoria culminante. Entretanto, o dogmatismo é incompatível com o progresso, e todas as concepções cientificas de cada século se caracterizam pela sua instabilidade, porque os olhos da carne não vêem o que existe. Nenhuma teoria pode explicar a vida à base exclusivista da matéria. Todos os fenômenos mecânicos do Universo obedecem a uma força inteligente e nada existe de real diante da visão apoucada dos homens, porque as verdades profundas se lhes conservam invisíveis.

Os movimentos planetários, os turbilhões atômicos no complexo de todas as coisas tangíveis, inclusive o seu próprio corpo, o mistério da força, os enigmas da aglutinação molecular, o segredo da atração, a identidade substancial da energia e da matéria, que nunca se encontram separadas uma da outra, não se mostram aos olhos humanos dentro da sua transcendência e da sua grandeza. Todo átomo de matéria tem a sua gênese no átomo invisível, de natureza psíquica. Raios impalpáveis e ocultos trazem a vida e trazem a morte. E o homem, na sua ignorância presumida, mal se apercebe que é o fantasma cambaleante de Édipo, vivendo na zona limitada do seu livre-arbítrio, mas submetido às leis de bronze do destino e da dor, cujas atividades objetivam o aprimoramento de sua personalidade; apesar da sua vaidade e do seu orgulho, todas as suas glórias materiais caminham para a morte. Nietzsche arquiteta com Zaratustra a filosofia do homem superior para cair aniquilado sobre o seu próprio infortúnio. Napoleão, depois das lutas prestigiosas que lhe granjearam a admiração universal, recolhe-se em Santa Helena para meditar nas célebres sentenças do Eclesiastes. Édison, após encher de conforto as cidades modernas com a sua imaginação criadora, sente o esgotamento de suas forças físicas para aguardar o gume afiado da morte. Os homens, com todos os pergaminhos de suas conquistas, viverão sempre no círculo de suas fraquezas e de suas misérias, enquanto não se voltarem para o lado espiritual do Sofrimento e da Vida.

A manifestação das atividades dos mortos não lhes tem fornecido as conclusões de ordem moral que se fazem necessárias ao aperfeiçoamento coletivo; com algumas honrosas exceções, despertou apenas o sentimento de suas análises, nem sempre orientadas no propósito de saber, para serem filhas intempestivas das vaidades pessoais de cada um. Disse Ingenieros, nos seus estudos psicológicos, que a história da civilização representa apenas o desenvolvimento da curiosidade humana. Se isso é um fato incontestável, não é menos verdade que essa sede de revelações deve possuir uma bússola espiritual nas suas longas e acuradas perquirições do invisível. Muita experiência trouxe do mundo para acreditar que as teorias, só por si, possam operar a salvação da humanidade. Elas constituem apenas o roteiro de sua marcha onde os espíritos de boa vontade vão conhecer o caminho. São acessórios do seu esclarecimento sem representarem a compreensão em si mesmas. Toda a civilização ocidental fundou-se à base do Cristianismo; todavia o que menos se vê, no seu fausto e na sua grandeza, é o amor e a piedade do Crucificado. A atualidade está cheia de exemplos dolorosos. Povos considerados cristãos preparam-se afanosamente para as lutas fatricidas. A Liga das Nações, que alimentava o sonho da paz universal está hoje quase reduzida a uma abstração de ideólogos. A Itália e Alemanha expansionistas empunham a espada do arrasamento e da destruição. Ainda agora o general Ludendhorf acaba de entregar à publicidade o seu livro terrível sobre a guerra total.

A crença e a fé não procedem de combinações teóricas ou do malabarismo das palavras e dos raciocínios. É no trabalho e na dor que se processam e se afinam. Para a Fé não há melhor símbolo que o toque de Moisés sobre as rochas adustas, fazendo brotar o lençol líquido das águas claras da vida. Só a dor pode tocar o coração empedernido dos homens e é por isso que a lição dos mortos servirá somente para constituir a base nova da sociologia de amanhã. A fé, por enquanto, continuará como patrimônio dos corações que foram tocados pela graça do sofrimento. Tesouro da imortalidade, seria o ideal da felicidade humana se todos os homens o conquistassem, mesmo nos desertos tristes da Terra.

Um grande astrônomo francês, inquirido sobre as recompensas do Céu, acentuou:

“Mesmo aqui podem as criaturas receber as recompensas do paraíso. O Céu é o infinito e a Terra é uma das pátrias da Imensidade; todos os homens, portanto, são cidadãos celestes. É aqui, na superfície triste do mundo, que as almas realizam a aquisição de suas felicidades. Estamos em pleno céu e em toda à parte veremos cada um receber segundo as suas obras...”.

Sobre as frontes orgulhosas dos homens pairam os órgãos invisíveis de uma justiça imanente e sobre a terra pode o espírito fazer jus aos prêmios do Alto. A crença com os seus esplendores subjetivos, é um desses maravilhosos tesouros.

Que as palavras do infinito se derramem sobre o entendimento das criaturas; cooperando com a dor, elas descobrirão para o homem as grandezas ocultas de sua própria alma, a fim de ele aceite, em seu próprio beneficio, as realidades confortadoras da sobrevivência. A voz do além pode ficar incompreendida, mas os mortos continuarão a falar para os vivos, comandados à ordem de Alguém, que está acima das opiniões de todos os cientistas e escritores, encarnados e desencarnados. Foi a piedade de Jesus que abriu as cortinas que velavam os mistérios escuros e tristes da morte e o Divino Jardineiro conhece o terreno fecundo onde germinam as sementes do seu amor.

Os homens aprenderão à custa das suas dores, com todo o fardo de suas misérias e de suas fraquezas e as palavras do infinito cairão sobre eles como a chuva de favores do alto. Que elas se espalhem nos corações e nas almas, porque cada uma trás consigo a claridade de um sol e a doçura de uma benção.

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo a 27 de março de 1935).

1

De um casarão de outro mundo

Muitas vezes pensei que outras fossem as surpresas que aguardassem um morto depois de entregar à terra os seus despojos.

Como um menino que vai pela primeira vez a uma feira de amostras, imaginava o conhecido chaveiro dos grandes palácios celestiais. Via S. Pedro de mãos enclavinhadas debaixo do queixo, óculos de tartaruga como os de Nilo Peçanha, assestados no nariz, percorrendo com as suas vistas sonolentas e cansadas os estudos técnicos, os relatórios, os mapas e livros imensos, anunciadores do movimento das almas que regressavam da Terra como um amanuense destacado de secretaria. Presumia-o um velhote bem conservado, igual aos senadores do tempo da monarquia no Brasil, cofiando os seus longos bigodes e os fios grisalhos da sua barba respeitável. Talvez que o bom do apóstolo, desentulhando o baú de suas memórias, me contasse algo de novo: algumas anedotas a respeito de sua vida segundo a versão popular; fatos do seu tempo de pescarias certamente cheios das estroinices de rapazelho. As jovens de Séforis e de Cafarnaum, na Galiléia, eram criaturas tentadoras com os seus lábios de romã amadurecida. S. Pedro por certo diria algo de suas aventuras, ocorridas, está claro, antes da sua conversão à doutrina do nazareno.

Não encontrei porém o chaveiro do céu. Nessa decepção cheguei a supor que a região dos bem-aventurados deveria ficar encravada em alguma cordilheira de nuvens inacessíveis. Tratava-se certamente de um recanto de maravilhas onde todos os lugares tomariam denominações religiosas na sua mais alta expressão simbólica: Praça das Almas Benditas, Avenida das Potências Angélicas. No coração da cidade prodigiosa, em paços resplandecentes, S. Cecília deveria tanger a sua harpa, acompanhando o coro das onze mil virgens, cantando ao som de harmonias deliciosas para acalentar o sono das filhas de Aqueronte e da noite, a fim de que não viessem com as suas achas incandescentes e víboras malditas perturbar a paz dos que ali esqueciam os sofrimentos em repouso beatífico. De vez em quando se organizariam, nessa região maravilhosa, solenidades e festas comemorativas dos mais importantes acontecimentos da Igreja. Os papas desencarnados seriam os oficiantes das missas e Te Deums de grande gala a que compareceriam todos os santos do calendário: S. Francisco Xavier com o mesmo hábito esfarrapado com que andou pregando nas Índias; S. José, na sua indumentária de serralheiro; S. Sebastião na sua armadura de soldado romano; S. Clara com o seu perfil lindo e severo de madona, sustentada pelas mãos minúsculas e inquietas dos arcanjos como rosas de carne loura. As almas bem conceituadas representariam, nas galerias deslumbrantes, os santos que a Igreja inventou para o seu agiológio.

Mas... não me foi possível encontrar o céu.

Julguei então que os espíritas estavam mais acertados em seus pareceres. Deveria reencontrar os que haviam abandonado as suas carcaças na terra, continuando a mesma vida. Busquei relacionar-me com as falanges de brasileiros emigrados no outro mundo. Idealizei a sociedade antiga, os patrícios ilustres aí refugiados, imaginando encontrá-los em uma residência principesca como a do marquês de Abrantes, instalada na antiga chácara de dona Carlota, em Botafogo, onde recebiam a mais fina flor da sociedade carioca das últimas décadas do segundo império, cujas reuniões, compostas de fidalgos escravocratas da época, ofuscavam a simplicidade monacal dos Paços de S. Cristóvão.

E pensei de mim para comigo: Os rabinos do Sinédrio, que exararam a sentença condenatória de Jesus Cristo, quererão saber as novidades de Hitler na sua fúria contra os judeus. Os remanescentes do príncipe de Bismarck, que perderam a última guerra, desejariam saber qual a situação dos negócios franco-alemães. Contaria aos israelitas a história da esterilização e aos seguidores do ilustre filho de Schoenhausen as questões do plebiscito do Sarre. Cada bem-aventurado me viria fazer uma solicitação, a que eu atenderia com as habilidades de um porta-novas acostumado aos prazeres maliciosos do boato.

Enganara-me, todavia. Ninguém se preocupava com a Terra ou com as coisas da sua gente.

Tranqüilizem-se contudo os que ficaram, porque se não encontrei o Padre Eterno com as suas longas barbas de neve, como se fossem feitas de paina alva e macia, segundo as gravuras católicas, não vi também o diabo.

Logo que tomei conta de mim, conduziram-me a um solar confortável como a casa dos Bernardelli na praia de Copacabana. Semelhante a uma abadia de frades da Estíria, espanta-me o seu aspecto imponente e grandioso. Procurei saber nos anais desse casarão do outro mundo as noticias relativas ao planeta terreno. Examinei os seus in folios. Nenhum relate havia com respeito aos santos da corte celestial, como eu os imaginava, nem alusões a Mefistófeles e ao amaldiçoado. Ignorava-se a história do fruto proibido, a condenação dos anjos rebelados, o decreto do dilúvio, as espantosas visões do evangelista no Apocalipse. As religiões estão na Terra muito prejudicadas pelo abuso dos símbolos. Poucos fatos relacionados com elas estavam naqueles documentos.

O nosso mundo é insignificante demais pelo que pude constatar na outra vida. Conforta-me porém haver descoberto alguns amigos velhos entre muitas caras novas.

Encontrei o Emílio, radicalmente transformado. Contudo, às vezes, faz questão de aparecer-me de ventre rotundo e rosto bonacheirão como recebia os amigos na Pascoal para falar da vida alheia.

- Ah! filho - exclama sempre - há momentos nos quais eu desejava descer no Rio como o homem invisível de Wells e dar muita paulada nos bandidos de nossa terra.

E, na graça de quem, esvaziando copos, andou enchendo o tonel das Danaides, desfolha o caderno de suas anedotas mais recentes.

A vida, entretanto, não é mais idêntica à da Terra. Novos hábitos. Novas preocupações e panoramas novos. A minha situação é a de um enfermo pobre que se visse de uma hora para outra em luxuosa estação de águas, com as despesas custeadas pelos amigos. Restabelecendo a minha saúde, estudo e medito. E meu coração, ao descerrar as folhas diferentes dos compêndios do infinito, pulsa como o do estudante novo.

Sinto-me novamente na infância. Calço os meus tamanquinhos, visto as minhas calças curtas, arranjo-me às pressas com a má vontade dos garotos incorrigíveis, e vejo-me outra vez diante da mestra Sinhá, que me olha com indulgência através da sua tristeza de virgem desamada, e repito, apontando as letras na cartilha: - ABC...ABCDE...

Ah! meu Deus, estou aprendendo agora os luminosos alfabetos que os teus dedos imensos escreveram com giz de ouro resplandecente nos livros da natureza. Faze-me novamente menino para compreender a lição que me ensinas! Sei, hoje, relendo os capítulos da tua glória, porque vicejam na Terra os cardos e os jasmineiros, os cedros e as ervas, porque vivem os bons e os maus, recebendo, numa atividade promíscua, os benefícios da tua casa.

Não trago do mundo, Senhor, nenhuma oferenda para a tua grandeza! Não possuo senão o coração, exausto de sentir e bater, como um vaso de iniqüidades. Mas no dia em que te lembrares do mísero pecador, que te contempla no teu doce mistério, como lâmpada de luz eterna, em torno da qual bailam os sóis como pirilampos acesos dentro da noite, fecha os teus olhos misericordiosos para as minhas fraquezas e deixa cair nesse vaso imundo uma raiz de açucenas. Então, Senhor, como já puseste lume nos meus olhos, que ainda choram, plantarás o lírio da paz no meu coração, que ainda sofre e ainda ama.

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo (MG), em 27 de março de 1935)

2

Carta aos que ficam

No antigo Paço da Boa vista, nas audiências dos sábados, quando recebia toda gente, atendeu D.Pedro II a um negro velho, de carapinha branca, e em cujo rosto, enrugado pelo frio de muitos invernos, se descobria o sinal de muita penas e muitos maus-tratos.

-Ah! Meu Senhor grande – exclamou o infeliz – como é duro ser escravo!...

O magnânimo imperador encarou suas mãos cansadas no leme da direção do povo e aquelas outras, engelhadas, na excrescência dos calos adquiridos na rude tarefa das senzalas, e tranqüilizando-o comovido:

-Oh! meu filho, tem paciência! Também sou escravo dos meus deveres e eles são bem pesados... Teus infortúnios vão diminuir...

E mandou libertar o preto.

Mais tarde, nos primeiros tempos do seu desterro, o bondoso monarca, a bordo do Alagoas, recebeu a visita do seu ex-ministro; às primeiras interpelações de Ouro Preto, respondeu-lhe o grande exilado:

-Em suma, estou satisfeito e tranqüilo.

E, aludindo à sua expatriação:

É a minha carta de alforria... Agora posso ir onde quero.

A coroa era pesada demais para a cabeça do monarca republicano.

Aos que perguntarem no mundo sobre a minha posição em face da morte, direi que ele teve para mim a fulguração de um Treze de Maio para os filhos de Angola.

A morte não veio buscar a minha alma, quando esta se comprazia nas redes douradas da ilusão. A sua tesoura não me cortou fios da mocidade e de sonho, porque eu não possuía senão neves brancas à espera do sol para se desfazerem. O gelo dos meus desenganos necessitava desse calor de realidade, que a morte espalha no caminho em que passa com a sua foice derrubadora. Resisti, porém ao seu cerco como Aquiles no heroísmo indomável de quem vê a destruição de suas muralhas e redutos. Na minha trincheira de sacos de água quente, eu a vi chegar quase todos os dias... Mirava-me nas pupilas chamejantes dos seus olhos, pedindo-lhe complacência e ela me sorria consoladora nas suas promessas. Eu não podia, porém adivinhar o seu fundo mistério, porque a dúvida obsidiava o meu espírito, enrodilhando-se no meu raciocínio como tentáculos de um polvo.

E, na alegria bárbara, sentia-me encurralado no sofrimento, como um lutador romano aureolado de rosas.

Triunfava da morte e como Ájax recolhi as últimas esperanças no rochedo da minha dor, desafiando o tridente dos deuses.

A minha excessiva vigilância trouxe-me a insônia, que arruinou a tranqüilidade dos meus últimos dias. Perseguido pela surdez, já os meus olhos se apagavam como as derradeiras luzes de um navio soçobrando em mar encapelado no silêncio da noite. Sombra, movendo-se dentro das sombras, não me acovardei diante do abismo. Sem esmorecimentos atirei-me ao combate, não para repelir mouros na costa, mas para erguer muito alto o coração, retalhado nas pedras do caminho como um livro de experiências para os que vinham depois dos meus passos, ou como a réstia luminosa que os faroleiros desabotoam na superfície das águas, prevenindo os incautos dos perigos das sirtes traiçoeiras do oceano.

Muitos me supuseram corroído da lepra e de vermina como se fosse Bento de Labre, raspando-me com a escudela de Jô. Eu, porém estava apenas refletindo a claridade das estrelas do meu imenso crepúsculo. Quando, me encontrava nessa faina de semear a resignação, a primeira e última flor dos que atravessam o deserto das incertezas da vida, a morte abeirou-se do meu leito; devagarinho, como alguém que temesse acordar um menino doente. Esperou que tapassem com anestesia todas as janelas e interstícios dos meus sentimentos. E quando o caos mais absoluto no meu cérebro, záz! Cortou as algemas a que me conservava retido por amor aos outros condenados, irmãos meus, reclusos no calabouço da vida. Adormeci nos seus braços como um ébrio nas mãos de uma deusa. Despertando dessa letargia momentânea, compreendi a realidade da vida, que eu negara, além dos ossos que se enfeitam com os cravos rubros da carne.

- Humberto!... Humberto... exclamou uma voz longínqua – recebe os que te enviam da Terra!

Arregalei os olhos com horror e com enfado:

-Não! Não quero saber de panegíricos e agora não me interessam as seções necrológicas dos jornais.

Enganas-te – repetiu – as homenagens da convenção não se equilibram até aqui. A hipocrisia é como certos micróbios de vida muito efêmera. Toma as preces que se elevaram por ti a Deus, dos peitos sufocados, onde penetraste com as tuas exortações e conselhos. O sofrimento retornou sobre o teu coração um cântaro de mel.

Vi descer de um ponto indeterminado do espaço, braçadas de flores inebriantes como se fossem feitas de neblina resplandecente, e escutei, envolvendo o meu nome pobre, orações tecidas com suavidade e doçura. Ah! Eu não vira o céu e a sua corte de bem-aventurados; mas Deus receberia aquelas deprecações no seu sólio de estrelas encantadas como a hóstia simbólica do catolicismo se perfuma na onda envolvente dos aromas de um turíbulo. Nossa Senhora deveria ouvi-las no seu trono de jasmins bordados de ouro, contornado dos anjos que eternizam a sua glória.

Aspirei com força aqueles perfumes. Pude locomover-me para investigar o reino das sobras, onde penso sem miolos na cabeça. Amava e ainda sofria, reconhecendo-me no pórtico de uma nova luta.

Encontrei alguns amigos a quem apertei fraternalmente as mãos. E voltei cá. Voltei para falar com os humildes e infortunados, confundidos na poeira da estrada de suas existências, como frangalhos de papel, rodopiando ao vento. Voltei para dizer aos que não pude interpretar no meu ceticismo de sofredor:

- Não sois os candidatos ao casarão da Praia Vermelha.[Hospício Nacional]. Plantai pois nas almas a palmeira da esperança. Mais tarde ela descobrirá sobre as vossas cabeças encanecidas os seus leques enseivados e verdes...

E posso acrescentar, como o neto de Marco Aurélio, no tocante à morte que me arrebatou da prisão nevoenta da Terra:

- É a minha carta de alforria... Agora posso ir onde quero.

Os amargores do mundo eram pesados demais para o meu coração.

Humberto de Campos.

(Recebida em Pedro Leopoldo em 28 de março de 1935).

3

Aos meus filhos

Meus filhos venho falar a vocês como alguém que abandonasse a noite de Tirésias, no carro fulgurante de Apolo, subindo aos cumes dourados e perfumados do Hélicon. Tudo é harmonia e beleza na companhia dos numes e dos gênios, mas o pensamento de um cego, em reabrindo os olhos nas rutilâncias da luz, é para os que ficaram, lá longe dentro da noite onde apenas a esperança é uma estrela de luz doce e triste.

Não venho da minha casa subterrânea de São João Batista [O espírito se refere ao cemitério de São João], como os mortos que os larápios, às vezes, fazem regressar aos tormentos da Terra, por mal dos seus pecados. Na derradeira morada do meu corpo ficaram os meus olhos enfermos e as minhas disposições orgânicas.

Cá estou como se houvesse sorvido um néctar de juventude no banquete dos deuses.

Entretanto, meus filhos, levanta-se entre nós um rochedo de mistério e de silêncio.

Eu sou eu. Fui o pai de vocês e vocês foram meus filhos. Agora somos irmãos. Nada há de mais belo do que a lei de solidariedade fraterna, delineada pelo Criador na sua glória inacessível. A morte não suprimiu a minha afetividade e a ainda possuo o meu coração de homem para o qual vocês são as melhores criaturas desse mundo.

Dizem que Orfeu, quando tangia as cordas de sua lira, sensibilizava as feras que agrupavam enternecidas para escutá-lo. As árvores vinham de longe, transportadas na sua harmonia. Os rios sustavam o curso nas suas correntes impetuosas, quedando-se para ouvi-lo. Havia deslumbramento na paisagem musicalizada. A morte, meus filhos, cantou para mim, tocando o seu alaúde. Todas as minhas convicções deixaram os seus lugares primitivos para sentir a grandeza do seu canto.

Não posso transmitir esse mistério maravilhoso através dos métodos imperfeitos de que disponho. E, se pudesse, existe agora entre nós o fantasma da dúvida.

Convidado pelo Senhor, eu também estive no banquete da vida. Não nos palácios da popularidade ou da juventude efêmera, mas no átrio pobre e triste do sofrimento onde se conservam temporariamente os mendigos da sua casa. Minha primeira dor foi a minha primeira luz. E quando os infortúnios formaram uma teia imensa de amarguras para o meu destino, senti-me na posse do celeiro de claridades da sabedoria. Minhas dores eram minha prosperidade. Porém qual o cortesão de Dionísio, vi a dúvida como a espada afiadíssima balouçando-se sobre a minha cabeça. Aí na Terra, entre a crença e a descrença, está sempre ela, a espada de Dâmocles. Isso é uma fatalidade.

Venho até vocês cheio de amorosa ternura e se não posso me individualizar, apresentando-me como o pai carinhoso, não podem vocês garantir a impossibilidade da minha sobrevivência. A dúvida entre nós é como a noite. O amor, entretanto, luariza estas sombras. Um morto, como eu, não pode esperar a certeza ou a negação dos vivos que receberem a sua mensagem para a qual há de prevalecer o argumento dubitativo. E nem pode exigir outra coisa quem no mundo não procederia de outra forma.

Sinto hoje, mais que nunca, a necessidade de me impessoalizar, de ser novamente o filho ignorado de dona Anica, a boa e santa velhinha, que continua sendo para mim a mais santa das mães. Tenho necessidade de me esquecer de mim mesmo. Todavia, antes que se cumpra este meu desejo, volto para falar a vocês paternalmente como no tempo em que destruía o fosfato do cérebro a fim de adquirir combustível para o combustível para o estômago.

- Meus filhos!... Meus filhos!... Estou vivendo... Não me vêem?... Mas olhem, olhem o meu coração como ainda está batendo por vocês!...

Aqui, meus filhos, não me perguntaram se eu havia descido gloriosamente as escadas do Petit Trianon; não fui inquirido a respeito dos meus triunfos literários e não me solicitaram informes sobre o meu fardão acadêmico. Em compensação, fui argüido acerca das causas dos humildes e dos infortunados pelos quais me bati.

Vivam pois com prudência na superfície desse mundo de futilidades e de glórias vãs.

Num dos mais delicados poemas de Wilde, as Órcades lamentara a morte de Narciso junto de sua fonte predileta, transformada numa taça de lágrimas.

- Não nos admira – suspiram elas – que tanto tenhas chorado!... Era tão lindo!...

- Era belo Narciso? – perguntou o lago.

- Quem melhor do que tu poderás sabê-lo, se nos desprezavas a todas para estender-se nas relvas da tua margem, baixando os olhos para contemplar, no diamante da tua onda, a sua formosura?...

A fonte respondeu:

- Eu adorava Narciso porque, quando me procurava com os olhos, eu via, no espelho das suas pupilas, o reflexo da minha própria beleza.

Em sua generalidade, meus filhos, os homens, quando não são Narciso, enamorados de sua própria formosura, são as fontes de Narciso.

Não venho exortar a vocês como sacerdote; conheço de sobra às fraquezas humanas. Vivam, porém a vida do trabalho e da saúde, longe da vaidade corruptora. E, na religião da consciência retilínea, não se esqueçam de rezar. Eu, que era um homem tão perverso e tão triste, estou aprendendo de novo a minha prece, como fazia na infância, ao pé de minha mãe, na Parnaíba.

- Venham, meus filhos!... Ajoelhemos de mãos postas... Não vêem que cheguei de tão longe?! Fui mais feliz que o Rico e o Lázaro da parábola, que não puderam voltar... Ajoelhemos no templo do Espírito; inclinem vocês a fronte sobre o meu coração. Cabem todos nos meus braços? Cabem, sim...

Vamos rezar com o pensamento em Deus, com a alma no infinito. Pai nosso... que estais no céu... santificado seja o vosso nome...

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo em 9 de abril de 1935).

4

Na mansão dos mortos

- O amigo sabe que os fotógrafos ingleses registraram a presença de sir Conan Doyle no enterro de lady Gaillard?

Esta pergunta me foi dirigida pelo coronel C. da C., (1) que eu conhecera numa das minhas viagens pelo Nordeste. O coronel lia por desfastio as minhas crônicas e em poucos minutos nos tornamos camaradas. Há muito tempo, todavia, soubera eu da sua passagem para o outro mundo em virtude de uma arteriosclerose generalizada. Tempo vai, tempo vem, defrontamo-nos de novo no vagão infinito da Vida, em que todos viajamos, através da eternidade. E, como o melhor abraço que podemos dar longe dos vivos, ali estávamos os dois tête à tête, sem pensar no relógio que regulava os nossos atos no presídio da Terra, nem nos ponteiros do estômago, que aí trabalham com demasiada pressa.

(1) No original da mensagem foram dados os nomes das pessoas nela mencionados. Como, porém, essas pessoas deixaram descendentes, que poderiam molestar-se com as referências que lhes fez Humberto de Campos, resolvemos indicá-la apenas pelas suas iniciais

C. tinha no mundo idéias espíritas e continuava, na outra vida, a interessar-se pelas coisas de sua doutrina.

Então, coronel, a vida que levaremos por aqui não será muito diversa da que observávamos lá em baixo? Um morto, pode apresentar-se nas solenidades dos vivos, participar das suas alegrias e das suas tristezas, como no presente caso? Aliás, já sabemos do capítulo evangélico que manda os mortos enterrar os mortos.

- Pode, sim, menino – replicou o meu amigo como quem evocasse uma cena dolorosa – mas, isso de acompanhar enterros, sobra-me experiência para não mais fazê-lo. Costumamos observar que, se os vivos têm medo dos que já regressaram para cá, nós igualmente, às vezes, sentimos repulsa de topar os vivos. Porém, o que lhe vou contar ocorreu entre os considerados mortos. Tié medo de dois espectros num ambiente soturno de cemitério.

E o meu amigo, com o olhar mergulhado no pretérito longínquo, monologava:

- Desde essa noite, nunca mais acompanhei enterros de amigos... Deixo isso para os encarnados, que vivem brincando de cabra-cega no seu temporário esquecimento...

- Conte-me, coronel, o acontecimento – disse eu, mal sopitando a curiosidade.

- Lembra-se – começou ele – da admiração que eu sempre manifestava pelo Dr. A.F., que você não chegou a conhecer em pessoa?

- Vagamente...

- Pois bem, o Antonico, nome pelo qual respondia na intimidade, era um dos meus amigos do peito. Advogado de renome na minha terra, já o conheci na elevada posição que usufruía no seio da sociedade que lhe acatava todas as ações e pareceres.

Pardavasco, insinuante, era o tipo do mulato brasileiro. Simpático, inteligente, captava a confiança de quantos se lhe aproximavam. Era de uma felicidade única. Ganhava todas as causas que lhe eram entregues. O crime mais negro apresentava para a sua palavra percuciente uma argumentação infalível na defesa. Os réus, absolvidos com a sua colaboração, retiravam-se da sala de sessões da justiça quase canonizados. O Antonico se metera em alguma pendência? O triunfo era dele. Gozava de toda a nossa consideração e estima. Criara a sua família com irrepreensível moralidade. Em algumas cerimônias religiosas a que compareci, recordo-me de lá o haver encontrado, como bom católico, em cuja personalidade o nosso vigário via um dos mais prestigiosos dos seus paroquianos.

Chefiava iniciativas de caridade, presidia a associação religiosa e primava pela austeridade intransigente dos seus costumes.

Quando voltei desse mundo, que hoje representa para nós uma penitenciaria, trouxe dele saudosas recordações.

Imagine, pois o meu desejo de reencontrá-lo, quando vim a saber, nestas paragens, que ele se achava às portas da morte. Obtive permissão para excursionar à Terra e fui revê-lo na sua cama de luxo, rodeado de zelos extremos, numa alcova ensombrada de sua confortável residência. As poções eram ingeridas. Injeções eram aplicadas. Os médicos eram atenciosamente ouvidos. Contudo, a morte rondava o leito de rendas, com o seu passo silencioso. Depois de ter o abdômen rasgado por um bisturi, uma infecção sobreviera inesperadamente.

Apareceu uma pleurisia e todas as punções foram inúteis. Antonico agonizava. Vi-o nos seus derradeiros momentos, sem que ele me visse na sua semi-inconsciência. Os médicos à sua cabeceira, deploravam o desaparecimento do homem probo. O padre, que sustinha naquelas mãos de cera u delicado crucifixo, recitando a oração dos moribundos, fazia ao céu piedosas recomendações. A esposa chorava o esposo, os filhos o pai! Aos meus olhos, aquele quadro era o da morte do justo. Transcorridas algumas horas, acompanhei o fúnebre cortejo que ia entregar à terra aqueles despojos frios.

Desnecessário é que lhe diga das pomposas exéquias que a igreja dispensou ao morto, em virtude da sua posição eminente. Preces. Aspersões com hissopes ensopados n’água benta e latim agradável.

Mas, como nem todos os que morrem desapegam imediatamente dos humores e das vísceras, esperei que o meu amigo acordasse para ser o primeiro a abraçá-lo.

Era crepúsculo. E, naquela tarde de agosto, as nuvens estavam enrubescidas, em meio do fumo das queimaduras, parecendo uma espumarada de sangue. Havia um cheiro de terra brava, entre as lousas silenciosas, ao pé dos salgueiros e dos ciprestes. Eu esperava. De vez em quando, o vento agitava a ramaria dos chorões, que pareciam soluçar, numa toada esquisita. Os coveiros abandonaram a sua tarefa sinistra e eu vi um vulto de mulher, esgueirando-se entre as lápides enegrecidas. Parou junto daquela cova fresca. Não se tratava de nenhuma alma encarnada. Aquela mulher pertencia também aos reinos das sombras. Observei-a de longe. Todavia, gritos estentóricos ecoaram aos meus ouvidos.

- A. F. – exclamou o espectro – chegou o momento da minha vingança! Ninguém poderá advogar a tua causa. Nem Deus, nem o Demônio poderão interceder pela tua sorte, como não puderam cicatrizar no mundo as feridas que abriste em meu coração. Todas as nossas testemunhas agora são mudas. Os anjos aqui são de pedra e as capelas de mármore, cheias de cruzes caladas, são estojos de carne apodrecida. Lembras-te de mim? Sou a R. S., que infelicitaste com a tua infâmia!

Já não és aquele moreno insinuante que surrupiou a fortuna de meus pais, destruindo-lhes a vida e atirando-me no meretrício abominável. A fortuna que te deu um nome foi edificada no pedestal do crime.

Recordas-te das promessas mentirosas que me fizeste? Envergonhada, abandonei a terra que me vira nascer para ganhar o pão no mais horrendo comércio. Corri mundo, sem esquecer a tua perversidade e sem conseguir afogar o meu infortúnio na taça dos prazeres.

Entretanto, o mundo foi teu. Réu de um crime nefando, foste sacerdote da justiça; eu, a vítima desconhecida, fui obrigada a sufocar a minha fraqueza nas sentinas sociais, onde os homens pagam o tributo das suas misérias. Tiveste a sociedade, eu os bordéis. O triunfo e a consideração te pertenceram; a mim coube o desprezo e a condenação. Meu lar foi o hospital, donde se escapou o último gemido do meu peito.

Meus braços, que haviam nascidos para acariciar os anjos de Deus, como dois galhos de árvores cheios de passarinhos, foram por ti transformados em tentáculos de perdição. Eu poderia ter possuído um lar, onde as crianças abençoassem os meus carinhos e onde um companheiro laborioso se reconfortasse com o beijo da minha afeição. Venho te condenar, ó desalmado assassino, em nome da justiça eterna que nos rege, acima dos homens. Há mais de um lustro, espero-te nesta solidão indevassável, onde não poderás comprar a consciência dos juizes... Viveste com o teu conforto, enquanto eu penava com a minha miséria; mas, o inferno agora será de nós dois!...

O coronel fez uma pausa, enquanto eu meditava naquela história.

- A mulher chorava – continuou ele – de meter dó. Aproximei-me dela, não sendo notada, porém, minha presença. Olhei a cruz modesta e carcomida que havia que havia sido arrancada poucas horas antes, daqueles sete palmos de terra, para que ali fosse aberto um novo sepulcro, e, não sei se por artes do acaso, nela estava escrito um nome com pregos amarelos, já desfigurados pela ferrugem: R. S. – Orai por ela.

Por uma coincidência sinistra, reencontravam-se os dois corpos e as duas almas. Procurei fazer tudo pelo Antonico, mas quando atravessei com o olhar a terra que lhe cobria os despojos, afigurou-se-me ver um monte de ossos que se moviam. Crânio, tíbias, úmero, clavículas, se reuniam sob uma ação misteriosa e vi uma caveira chocalhando os dentes de fúria, ao mesmo tempo em que umas falangetas de aço pareciam apertar o pescoço do cadáver do meu amigo.

- E ele, coronel, isto é, o Espírito, estava presente?

- Estava, sim. Presente e desperto. Lá o deixei, sentindo os horrores daquela sufocação.

- Mas, e Deus, coronel? Onde estava Deus que não se compadeceu do pecador arrependido?

O coronel me olhou, como se estivesse interrogando a si mesmo, e declarou por fim:

- Homem, sei lá!... Acredito que Deus tenha criado o mundo; porém, acho que a Terra ficou mesmo sob administração do Diabo.

Humberto de Campos.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 9 de abril de 1935).

5

Judas Iscariotes

Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.

Os espíritos podem vibrar em contacto direto com a história. Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.

Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.

- Sabe quem é este? – murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas.

- Judas?!...

- Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...

Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.

-O senhor é, de fato, o ex-filho de Iscariot? – perguntei.

– Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica.

E prosseguiu:

Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...

- É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?

- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?

- Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...

- E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.

- Sim... Estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...

- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.

Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.

Humberto de Campos.

Recebida em Pedro Leopoldo a 19 de abril de 1935

6

Aos que ainda se acham mergulhados

nas sombras do mundo

Antigamente eu escrevia nas sombras para os que se conservavam nas claridades da Vida. Hoje, escrevo na luz branca da espiritualidade para quantos ainda se acham mergulhados nas sombras do mundo. Quero crer, porém que tão dura tarefa me foi imposta nas mansões da Morte, como esquisita penitência ao meu bom gosto de homem que colheu quando pôde dos frutos saborosos na árvore paradisíaca dos nossos primeiros pais, segundo as Escrituras.

Contudo não desejo imitar aquele velho Tirésias que à força de proferir alvitres e sentenças conquistou dos deuses o dom divinatório em troca dos preciosos dons da vista.

Por esta razão o meu pensamento não se manifesta entre vocês que aqui acorreram para ouvi-lo como o daquelas entidades batedoras, que em Hydesville, na América do Norte, por intermédio das irmãs Fox, viviam nos primórdios do Espiritismo, contando histórias e dando respostas surpreendentes com as suas pancadas ruidosas e alegres.

Devo também esclarecer ao sentimento de curiosidade que os tangeu até aqui, que não estou exercendo ilegalmente a medicina como a grande parte dos defuntos, os quais, hoje em dia, vivem diagnosticando e receitando mezinhas e águas milagrosas para os enfermos.

Nem tampouco, na minha qualidade de repórter “falecido” sou portador de alguma mensagem sensacional dos paredros comunistas que já se foram dessa vida para a melhor, êmulos dos Lenine, dos Kropotkine, cujos cérebros, a esta hora, devem estar transbordando teorias momentosas para o instante amargo que o mundo está vivendo.

O objetivo das minhas palavras póstumas é somente demonstrar o homem... Desencarnado e a imortalidade dos seus atributos. O fato é que vocês não me viram.

Mas contem lá fora eu enxergaram o médium. Não afirmam que ele se parece com o Mahatma Gandhi em virtude de lhe faltar uma tanga, uma cabra e a experiência “anosa” do “líder” nacionalista da Índia. Mas historiem, com sinceridade, o caso das suas roupas remendadas e tristes de proletário e da sua pobreza limpa e honesta que anda por esse mundo arrastando tamancos para a remissão de suas faltas nas anteriores encarnações. Quanto a mim, digam que eu estava por detrás do véu de Ísis.

Mesmo assim, na minha condição de intangibilidade, não me furto ao desejo de lhes contar algo a respeito desta “outra vida” para onde todos têm de regressar. Se não estou nos infernos de que fala a teologia dos cristãos, não me acho no sétimo paraíso de Maomé. Não sei contar as minhas aperturas na amarga perspectiva de completo abandono em que me encontrei, logo após abrir os meus olhos no reino extravagante da Morte. Afigurou-se-me que eu ia, diretamente consignado ao Aqueronte, cujas águas amargosas deveria transpor como as sombras para nunca mais voltar, porque não cheguei a presenciar nenhuma luta entre São Gabriel e os Demônios, com as suas balanças trágicas, pela posse de minha alma. Passados, porém, os primeiros instantes de “inusitado” receio, divisei a figura miúda e simples do meu Tio Antoninho, que me recebeu nos seus braços carinhosos de santo.

Em companhia, pois, de afeições ternas, no reconto fabuloso, que é a minha temporária morada, ainda estou como aparvalhado entre todos os fenômenos da sobrevivência. Ainda não cheguei a encontrar os sóis maravilhosos, as esferas, os mundos comentários, portentos celestes, que descreve Flammarion na sua “Pluralidade dos Mundos”. Para o meu espírito, a Lua ainda prossegue na sua carreira como esfinge eterna do espaço, embuçada no seu burel de freira morta.

Uma saudade doida e uma ânsia sem termo fazem um turbilhão no meu cérebro: é a vontade de rever, no reino das sombras, o meu pai e a minha irmã. Ainda não pude fazê-lo. Mas em um movimento de maravilhosa retrospecção pude volver à minha infância, na Miritiba longínqua. Revi as suas velhas ruas, semi-arruinadas pelas águas do Piriá e pelas areias implacáveis... Revi os dias que se foram e senti novamente a alma expansiva de meu pai como um galho forte e alegre do tronco robusto dos Veras à minha frente, nos quadros vivos da memória, abracei a minha irmãzinha inesquecida, que era em nossa casa modesta como um anjo pequenino da Assunção de Murilo, que se tivesse corporificado de uma hora para outra sobre as lamas da terra...

Descansei à sombra das árvores largas e fartas, escutando ainda as violas caboclas, repenicando os sambas da gente das praias nortistas e que tão bem ficaram arquivadas na poesia encantadora e simples de Juvenal Galeno.

Da Miritiba distante transportei-me à Parnaíba, onde vibrei com o meu grande mundo liliputiano... Em espírito, contemplei com a minha mãe as folhas enseivados do meu cajueiro derramando-se na Terra entre as harmonias do canto choroso das rolas morenas dos recantos distantes de minha terra.

De almas entrelaçadas contemplei o vulto de marfim antigo daquela santa que, como um anjo, espalmou muitas vezes sobre o meu espírito cansado as suas asas brancas. Beijei-lhe as mãos encarquilhadas genuflexo e segurei as contas do seu rosário e as contas miúdas e claras que corriam furtivamente dos seus olhos, acompanhando a sua oração...

Ave Maria... Cheia de graça... Santa Maria... Mãe de Deus...

Ah! De cada vez que o meu olhar se espraia tristemente sobre a superfície do mundo, volvo a minha alma aos firmamentos, tomada de espanto e de assombro... Ainda há pouco, nas minhas surpresas de recém-desencarnado, encontrei na existência dos espaços, onde não se contam as horas, uma figura de velho, um espírito ancião, em cujo coração milenário presumo refugiadas todas as experiências. Longas barbas de neve, olhos transudando piedade infinita doçura, da sua fisionomia de Doutor da Lei, nos tempos apostólicos, irradiava-se uma corrente de profunda simpatia.

- Mestre! – disse-lhe eu na falta de outro nome – que podemos fazer para melhorar a situação do orbe terreno? O espetáculo do mundo me desola e espanta... A família parece se dissolve... O lar está balançando como os frutos podres, na iminência de cair... A Civilização, com os seus numerosos séculos de leis e instituições afigura-se haver tocado os seus apogeus... De um lado existem os que se submergem num gozo aparente e fictício, e do outro estão às multidões famintas, aos milhares, que não têm senão rasgado no peito o sinal da cruz, desenhado por Deus com a suas mãos prestigiosas como os símbolos que Constantino gravara nos seus estandartes... E, sobretudo Mestre, é a perspectiva horrorosa da guerra...

Não há tranqüilidade e a Terra parece mais um fogareiro imenso, cheio de matérias em combustão...

Mas o bondoso espírito-ancião me respondeu com humildade e brandura:

- Meu filho... Esquece o mundo e deixa o homem guerrear em paz!...

Achei graça no seu paradoxo, porém só me resta acrescentar:

- Deixem o mundo em paz com a sua guerra e a sua indiferença!

Não será minha boca quem vá soprar na trombeta de Josafá. Cada um guarde aí a sua crença ou o seu preconceito.

Recebida em Pedro Leopoldo a 23 de abril de 1935.

7

Trago-lhe o meu adeus sem prometer voltar breve

Apreciando, em 1932, o “Parnaso de Além-Túmulo”, que os poetas desencarnados mandaram ao mundo por intermédio de você, chamei a atenção dos estudiosos para a incógnita que o seu caso apresentava. Os estudiosos, certamente, não apareceram. Deixando, porém, o meu corpo minado por uma hipertrofia renitente, lembrei-me do acontecimento. Julgara eu que os bardos “do outro mundo”, com a sua originalidade estilar, se comprometiam pela eternidade da produção, no falso pressuposto de que se pudessem identificar por outra forma. Encontrando ensejo para me fazer ouvir, através de suas mãos, escrevi essas crônicas póstumas que o Sr. Frederico Figner transcreveu nas colunas do “Correio da Manhã”. Não imaginei que o humilde escritor desencarnado estivesse ainda na lembrança de quantos o viram desaparecer. E as minhas palavras provocaram celeuma. Discutiu-se e ainda se discute.

Você foi apresentado como hábil fazedor de pastiches e os noticiaristas vieram averiguar o que havia de verdadeiro em torno do seu nome.

Colheram informes. Conheceram a honestidade da sua vida simples e as dificuldades dos seus dias de pobre. E, por último, quiseram ver como você escrevia a mensagem dos mortos, com uma Remington acionada por dedos invisíveis.

Tive pena quando soube que iam conduzi-lo a um “test” e recordei-me do primeiro exame a que me sujeitei aí com o coração batendo forte.

Fiz questão de enviar-lhe algumas palavras como o homem que fala de longe à sua pátria distante, através das ondas de Hertz, sem saber se os seus conceitos serão reconhecidos pelos patrícios, levando em conta as deficiências do aparelho receptor e os desequilíbrios atmosféricos. Todavia, bem ou mal, consegui falar alguma coisa. Eu devia essa reparação à doutrina que você sinceramente professa.

Esperariam, talvez, que eu falasse sobre os fabulosos canais de Marte, sobre a natureza de Vênus, descrevendo, como os viajantes de Júlio Verne, a orografia da Lua. Julgo, porém, que por enquanto me é mais fácil uma discussão sobre o diamagnetismo de Faraday.

Admiraram-se quando enxergaram a sua mão vertiginosa correndo sobre as linhas do papel.

A curiosidade jornalística é agora levantada em torno da sua pessoa. É possível que outros acorram para lhe fazer suas visitas. Mas ouça bem. Não me espere como a pitonisa de Endor aguardando a sombra de Samuel para fazer predições a Saul sobre as suas atividades guerreiras. Não sei movimentar as trípodes espíritas e se procurei falar naquela noite é que o seu nome estava em jogo. Colaborei, assim, na sua defesa. Mas, agora que os curiosos o procuram, na sua ociosidade, busque, no desinteresse, a melhor arma para desarmar os outros. Eu voltarei provavelmente quando o deixarem em paz na sua amargurosa vida.

Não desejo escrever maravilhando a ninguém e tenho necessidade de fugir a tudo o que tenho obrigação de esquecer.

Fique-se, pois, com a sua cruz, que é bem pesada por amor Daquele que acende o lume das estrelas e o lume da esperança nos corações. A mediunidade posta ao serviço do bem é quase a estrada do Gólgota; mas a fé transforma em flores as pedras do caminho. Li aí, certa vez, num conto delicado, que uma mulher em meio de sofrimentos acerbos, apelara para Deus, a fim de que se modificasse a volumosa cruz da sua existência. Como filha de Cipião, vira nos filhos as jóias preciosas da sua vaidade e do seu amor, mas como Níobe vira-os arrebatados no torvelinho da morte, impelidos pela fúria dos deuses. Tudo lhe falhara nas fantasias do amor, do lar e da ventura.

- Senhor – exclama ela – por que me destes uma cruz tão pesada? Arrancai dos meus ombros fracos este insuportável madeiro!

Mas, nas asas brandas do sono, a sua alma de mulher viúva e órfã foi conduzida a um palácio resplandecente. Um Anjo do Senhor recebeu-a no pórtico, com a sua bênção. Uma sala luminosa e imensa lhe foi designada. Toda ela se enchia de cruzes. Cruzes de todos os feitios.

- Aqui – disse-lhe uma voz suave – guardam-se todas as cruzes que as almas encarnadas carregam na face triste do mundo. Cada um desses madeiros traz o nome do seu possuidor. Atendendo, porém à tua súplica, ordena Deus que escolhas aqui uma cruz menos pesada do que a tua.

A mulher escolheu conscienciosamente aquela cujo peso competia com as suas possibilidades, escolhendo-a entre todas.

Mas apresentando ao Mensageiro Divino a sua preferência, verificou que, na cruz escolhida, se encontrava esculpido o seu próprio nome, reconhecendo a sua impertinência e rebeldia.

- Vai! – disse-lhe o Anjo – com a tua cruz e não descreias. Deus, na sua misericordiosa justiça, não poderia macerar os teus ombros com um peso superior às tuas forças.

Não se desanime, portanto, na faina que se encontra, carregando esse fardo penoso que todos os incompreendidos já carregaram. E agora que os bisbilhoteiros o procuram, trago-lhe o meu adeus, sem prometer voltar breve.

Que o Senhor derrame sobre você a sua bênção que conforta todos os infortunados e todos os tristes.

Humberto de Campos

Recebida em Pedro Leopoldo a 28 de abril de 1935

8

A Passagem de Richet

O Senhor tomou lugar no tribunal da sua justiça e, examinando os documentos que se referiam ás atividades das personalidades eminentes sobre a Terra, chamou o Anjo da Morte, exclamando:

Nos meados do século findo, partiram daqui diversos servidores da Ciência que prometeram trabalhar em meu nome no orbe terráqueo, levantando a moral dos homens e suavizando-lhes as lutas. Alguns já regressaram, enobrecidos nas ações dignificadoras, nesse mundo longínquo. Outros, porém, desviaram-se dos seus deveres e outros ainda lá permanecem, no turbilhão das duvidas e das descrenças, laborando no estudo.

“Lembras-te daquele que era aqui um inquieto investigador, com as suas analises incessantes, e que se comprometeu a servir os ideais da Imortalidade, adquirindo a fé que sempre lhe faltou?

— “Senhor aludis a Charles Richet, reencarnado em Paris, em 1850, e que escolheu uma notabilidade da medicina para lhe servir de pai?”.

— “Justamente. Pelas noticias dos meus emissários, apesar da sua sinceridade e da sua nobreza, Richet não conseguiu adquirir os elementos de religiosidade que fora buscar, em favor do seu próximo. Tens conhecimento dos favores que o Céu lhe tem adjudicado, no transcurso da sua existência?”.

— “Tenho, Senhor. Todos os vossos mensageiros lhe cercaram a inteligência e a honestidade com o halo da vossa sabedoria. Desde os primórdios das suas lutas na Terra, os Gênios da Imensidade o rodeiam com o sopro divino de suas inspirações. Dessa assistência constante lhe nasceram os poderes intelectuais, tão cedo revelados no mundo. Sua passagem pelas academias da Terra, que serviu para excitar a potencia vibratória da sua mente, em favor da ressurreição do seu tesouro de conhecimentos, foi acompanhada pelos vossos emissários com especial carinho. Ainda na mocidade, lecionou na Faculdade de Medicina, obtendo a cadeira de Fisiologia. Nesse tempo, já seu nome, com os vossos auxílios, estava cercado de admiração e respeito. As suas produções granjearam-lhe a veneração e a simpatia dos seus contemporâneos. De 1877 a 1884, publicou estudos notáveis sobre a circulação do sangue, sobre a sensibilidade, sobre a estrutura das circunvoluções celebrais, sobre a fisiologia dos músculos e dos nervos, perquirindo os problemas graves do ser, investigando no circulo de todas as atividades humanas, conquistando o seu nome a admiração universal.”

— “E em matéria de espiritualidade, replicou austeramente o Senhor, que lhe deram os meus emissários e de que forma retribuiu o seu espírito a essas dádivas?”.

— “Nesse particular, exclamou solicito o Anjo, muito lhe foi dado. Quando deixastes cair, mais intensamente, a vossa luz sobre os mistérios que me envolvem, ele foi dos primeiros a receber-lhe os raios fulgurantes. Em Carqueiranne, em Milão e na ilha Roubaud, muitas claridades o bafejaram, junto de Eusapia Paladino, quando o seu gênio se entregava a observações positivas, com os seus colegas Lodge, Myers e Sidwick. De outras vezes, com Delanne, analisou as celebres experiências de Alger, que revolucionaram os ambientes intelectuais e materialistas da França, que então representava o cérebro da civilização ocidental.

“Todos os portadores das vossas graças levaram as sementes da Verdade á sua poderosa organização FÍSICA, apelando para o seu coração, afim de que cite afirmasse as realidades da sobrevivência; povoaram-lhe as noites de severas meditações, com as imagens maravilhosas das vossas verdades, porém, apenas conseguiram que ele escrevesse o Tratado de Metapsíquica e um estudo proveitoso, a favor da concórdia humana, que lhe valeu o Premio Nobel da Paz, em 1913.

“Os mestres espirituais não desanimaram, nem descansaram nunca em torno da sua individualidade; mas, apesar de todos os esforços despendidos, Rechia viu, nas expressões fenomenológicas de que foi atento observador, apenas a exteriorizarão das possibilidades de um sexto sentido nos organismos humanos. Ele que fora o primeiro organizador de um dicionário de fisiologia, não se resignou a ir além das demonstrações histológicas. Dentro da espiritualidade, todos os seus trabalhos de investigador se caracterizam pela duvida que lhe martiriza a personalidade. Nunca pode, Senhor, encarar as verdades imortalistas, senão como hipótese, mas o seu coração é generoso e sincero. Ultimamente, nas reflexões da velhice, o grande lutador se veio inclinando para a fé, até hoje inaccessível ao seu entendimento de estudioso. Os vossos mensageiros conseguiram inspirar-lhe um trabalho profundo, que apareceu no planeta como “A Grande Esperança” e, nestes últimos dias, a sua formosa inteligência realizou para o mundo uma mensagem entusiástica, em prol dos estudos espiritualistas.

— “Pois bem, exclamou o Senhor, Richet terá de voltar agora a penates. Traze de novo aqui a sua individualidade, para as necessárias interpelações.”.

— “Senhor, assim tão depressa? — retornou o Anjo, advogando a causa do grande cientista — O mundo vê em Richet um dos seus gênios mais poderosos, guardando nele sua esperança. Não conviria protelar a sua permanência na Terra, afim de que ele vos servisse, servindo á Humanidade?”.

— “Não — disse o Senhor tristemente. — Se, após oitenta e cinco anos de existência sobre a face da Terra, não pode reconhecer, com a sua ciência, a certeza da Imortalidade, é desnecessária a continuação de sua estadia nesse mundo. Como recompensa aos seus esforços honestos em beneficio dos seus irmãos em humanidade, quero dar-lhe agora, com o poder do meu amor, á centelha divina da crença, que a ciência planetária jamais lhe concedeu, nos seus labores ingratos e frios.”.

*

No leito de morte, Richet tem as pálpebras cerradas e o corpo na posição derradeira, em caminho da sepultura. Seu espírito inquieto de investigador não dormiu o grande sono.

Há ali, cercando-lhe os despojos, uma multidão de fantasmas.

Gabriel Delanne estende-lhe os braços de amigo. Denis e Flammarion o contemplam com bondade e carinho. Personalidades eminentes da França antiga, velhos colaboradoras da “Revista dos Mundos” cooperadores devotados dos “Anais das Ciência Físicas” ali estão, para abraçarem o mestre no limiar do seu tumulo.

Richet abre os olhos para as realidades espirituais que lhe eram desconhecidas. Parece-lhe haver retrocedido ás materializações da Vila Carmem; mas, ao seu lado, repousam os seus despojos, cheios de detalhes anatômicos. O eminente fisiologista reconhece-se no mundo dos verdadeiros vivos. Suas percepções estão intensificadas, sua personalidade é a mesma e, no momento em que volve a atenção para a atitude carinhosa dos que o rodeiam, ouve uma voz suave e profunda falando do Infinito:

— “Richet, exclama o Senhor no tribunal da sua misericórdia, porque não afirmaste a Imortalidade, e porque desconheceste o meu nome no teu apostolado de missionário da ciência e do labor? Abri todas as portas de ouro que te poderia reservar sobre o mundo. Perquiriste todos os livros. Aprendeste e ensinaste, fundaste sistemas novos do pensamento, á base das duvidas dissolventes. Oitenta e cinco anos se passaram, esperando eu que a tua honestidade me reconhecesse, sem que a fé desabrochasse em teu coração... Todavia, decifraste, com o teu esforço abençoado, muitos enigmas dolorosos da ciência do mundo e todos os teus dias representaram uma sede grandiosa de conhecimentos... Mas, eis, meu filho, onde a tua razão positiva é inferior á revelação divina da fé. Experimentaste as torturas da morte com todos os teus livros e diante dela desapareceram os teus compêndios, ricos de experimentações no campo das filosofias e das ciências. E agora, premiando os teus labores, eu te concedo os tesouros da fé que te faltou, na dolorosa estrada do mundo!”.

Sobre o peito do abnegado apostolo, desce do Céu um punhal de luz opalina, como um vernábulo maravilhoso de luar indescritível.

Richet sente o coração tocado de luminosidade infinita e misericordiosa, que as ciência nunca lhe haviam dado. Seus olhos são duas fontes abundantes de lagrimas de reconhecimento ao Senhor. Seus lábios, como se voltassem a ser os lábios de um menino recitam o “Pai Nosso que estais no Céu...”.

Formas luminosas e aéreas arrebatam-no, pela estrada de Eder da eternidade e, entre prantos de gratidão e de alegria, o apostolo da ciência caminhou da grande esperança para a certeza divina da Imortalidade.

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo, 21 de janeiro de 1936).

9

Hauptmann

“Na Casa da Morte”, em Trenton, Bruno Richard Hauptmann desfolha, pela última fez, o calendário de suas recordações. É de tarde. O condenado sente esvaecer-se-lhe a derradeira esperança. Já não há mais possibilidade de adiamento da execução depois das decisões do Grande Júri de Mercer, e o caso Wendel representava o único elemento que modificaria o epílogo doloroso da tragédia de Hopewell.

O governador do Estado de Nova Jérsey já havia desempenhado a sua imitação de Pilatos, e o senhor Kimberling nada mais poderia realizar que o cumprimento austero das leis que condenaram o carpinteiro alemão à cadeira elétrica.

Hauptmann sente-se perdido diante do irresistível e chora, protestando a sua inocência. Recapitula a série de circunstâncias que o conduziram à situação de indigitado matador do baby Lindenbergh, e espera ainda que a justiça dos homens reconheça o seu erro, salvando-o, à última hora, das mãos do carrasco. Mas a justiça dos homens está cega; tateando na noite escura de suas vacilações, não viu senão a ele, no amontoado das sombras.

A polícia norte-americana precisava que alguém viesse à barra do Tribunal responder-lhe por um crime nefando, satisfazendo assim as exigências da civilização, salvaguardando o seu renome e a sua integridade.

E o carpinteiro de Bronx, o olhar marcado de lágrimas, recorda os pequenos episódios da sua existência. A sua velha humilde de Kamentz; o ideal da fortuna nas terras americanas, a esposa aflita e desventurada e a imagem do filhinho, brincando nas suas pupilas cheias de pranto, Hauptmann esquece-se então dos seus nervos de aço e da sua serenidade perante as determinações da justiça, e chora convulsivamente, enfrentando os mistérios silenciosos da Morte. Paira no seu cérebro a desilusão de todo o esforço diante da fatalidade e, sentindo o escoamento dos seus derradeiros minutos, foge espiritualmente do torvelinho das coisas humanas para se engolfar nas meditações das coisas de Deus. Suas mãos cansadas tomam a Bíblia do padre Werner e o seu espírito excursiona no labirinto das lembranças. Ao seu cérebro atormentado voltam as orações aprendidas na infância, quando sua mãe lhe punha na boca os salmos de Davi e o santo nome de Deus. Depois disso ele viera para o mundo largo, onde os homens se devoram uns aos outros no círculo nefasto das ambições. Suas preces de menino se perderam como restos de um naufrágio em noite de procela. Ele não conhecera nenhum apóstolo e jamais lhe mostraram, no turbilhão escuro das lutas humanas, uma figura que se assemelhasse àquele Homem Suave dos Evangelhos; entretanto, nunca como naquela hora, ele sentiu tanto o desejo de ouvir-lhe a palavra sedutora do Sermão da Montanha. Aos seus ouvidos ecoavam as derradeiras notas daquele cântico de glorificação aos bem-aventurados do mundo, pronunciado num crepúsculo, há dois mil anos, para aqueles que a vida condenou ao infortúnio e uma voz misteriosa lhe segredava aos ouvidos os segredos da cruz, cheia de belezas ignoradas. Hauptmann toma o capítulo do salmo XXIII e repete com o profeta: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.”

O relógio da Penitenciária prosseguia, decifrando os enigmas do tempo, e o carrasco já havia chegado para o seu terrível mister. Cinqüenta testemunhas ali se conservavam para presenciar a cena do supremo desrespeito pelas vidas humanas. Médicos, observadores das atividades judiciárias, autoridades e guardas, ali se reuniam para encerrar tragicamente um drama sinistro que emocionou o mundo inteiro.

O condenado, à hora precisa, cabelos raspados a máquina zero e a calça fundida para que a execução não falhasse, entra, calado e sereno, na Câmara da Morte. Havia no seu rosto um suor pastoso como o dos agonizantes. Nenhuma sílaba se lhe escapou da garganta silenciosa.

Contemplou calmamente o olhar curioso e angustiado dos que o rodeavam, representando ironicamente o testemunho das leis humanas. No seu peito não havia o perdão de Cristo para os seus verdugos, mas um vulcão de prantos amargos torturava-lhe o íntimo nos instantes derradeiros; considerando toda inutilidade de ação, diante do Destino e da Dor, deixou-se amarrar à poltrona da morte enquanto os seus olhos tangíveis não viam mais os benefícios alegres da claridade, mergulhando-se nas trevas compactas em que iam entrar.

Elliot imprime o primeiro movimento à roda fatídica, correntes elétricas anestesiam o cérebro do condenado, e, dentro de quatro minutos, pelo preço mesquinho de alguns centavos, os Estados Unidos da América do Norte exercem a sua justiça, não obstante as dúvidas tremendas que pairam sobre a culpabilidade do homem sobre cuja cabeça recaíram os rigores de suas sentenças.

Muito se tem escrito sobre o doloroso drama de Hopewell. Os jornais de todo o mundo focalizaram o assunto, e as estações de rádio encheram a atmosfera com as repercussões dessa história emocionante; não é demais, portanto, que “um morto” se interesse por esse processo que apaixonou a opinião pública mundial. Não para exercer a função de revisor dos erros judiciários, mas para extrair a lição da experiência e o benefício do ensinamento.

As leis penais da América do Norte não possuíam elementos comprobatórios da culpa do Bruno Hauptmann como autor do nefando infanticídio. Para conduzi-lo à cadeira da morte não se prevaleceu senão dos argumentos dubitativos, inadmissíveis dentro da cultura jurídica dos tempos modernos.

Muitas circunstâncias preponderavam no desenrolar dos acontecimentos, e que não foram tomadas na consideração que lhes era devida.

A história de Isidoro Fisch, a ação de Betty Cow e de Violetta Scharp, a leviandade das acusações de Jafzie Condon e a dúvida profunda empolgando todos os corações que acompanharam, em suas etapas dolorosas, o desdobramento desse processo sinistro.

Mas em tudo isso, nessa tragédia que feriu cruelmente a sensibilidade cristã, há uma justiça pairando mais alto que todas as decisões dos tribunais humanos, somente acessível aos que penetraram o escuro mistério da Vida, no ressurgimento das reencarnações.

Hauptmann sacrificado na sua inocência, Harold Hoffmann com desprestígio político perante a opinião pública do seu país e Lindbergh, herói de um século, ídolo do seu país e um dos homens mais afortunados do mundo, fugindo de sua terra a bordo do “American Importer”, onde quase lhe faltava o conforto mais comezinho, como se fora um criminoso vulgar, são personalidades interpeladas na Terra pela Justiça Suprema.

Nos segundos e nos espaços há uma figura de Argos observando todas as coisas.

No seu tribunal do direito absoluto a Têmis divina arquiteta a trama dos destinos de todas as criaturas. E só nessa Justiça pode a alma guardar a sua esperança, porque o direito humano, quase sempre filho da supremacia da força, é às vezes falho de verdade e de sabedoria.

Dia virá em que a justiça humana compreenderá a extensão do seu erro, condenando um inocente. As autoridades jurídicas hão de se preparar para a enunciação de uma nova sentença, mas o processo terá subido integralmente para a alçada da equidade suprema. Debalde os juízes da Terra tentarão restabelecer a realidade dos fatos com os recursos de sua tardia argumentação, porque nesse dia, quando Bruno Richard Hauptmann for convocado para o último depoimento em favor do resgate de sua memória, o carpinteiro de Bronx, que os homens eletrocutaram, não passará de um punhado de cinzas.

Humberto de Campos

(Recebida em Pedro Leopoldo, 6 de abril de 1936).

10

A Ordem do Mestre

Avizinhando-se o Natal, havia também no Céu um rebuliço de alegrias suaves. Os Anjos acendiam estrelas nos cômodos de neblinas douradas e vibravam no ar as harmonias misteriosas que encheram um dia de encantadora suavidade a noite de Belém. Os pastores do paraíso cantavam e, enquanto as harpas divinas tangiam suas cordas sob o esforço caricioso dos zéfiros da imensidade, o Senhor chamou o Discípulo Bem-Amado ao seu trono de jasmins matizados de estrelas.

O vidente de Patmos não trazia o estigma da decrepitude como nos seus últimos dias entre as Espórades. Na sua fisionomia pairava aquela mesma candura adolescente que o caracterizava no princípio do seu apostolado.

- João – disse-lhe o Mestre – lembras-te do meu aparecimento na Terra?

- Recordo-me, Senhor. Foi no ano 749 da era romana, apesar da arbitrariedade de Frei Dionísios, que colocou erradamente o vosso natalício em 754, calculando no século VI da era cristã.

- Não, meu João – retornou docemente o Senhor – não é a questão cronológica que me interessa em te argüindo sobre o passado. É que nessas suaves comemorações vem até mim o murmúrio doce das lembranças!...

- Ah! Sim, Mestre Amado – retrucou pressuroso o Discípulo – compreendo-vos. Falais da significação moral do acontecimento. Oh!...Se me lembro... A manjedoura, a estrela guiando os poderosos ao estábulo humilde, os cânticos harmoniosos dos pastores, a alegria ressoante dos inocentes, afigurando-se-nos que os animais vos compreendiam mais que os homens, aos quais ofertáveis a lição da humildade com o tesouro da fé e da esperança. Naquela noite divina, todas as potências angélicas do paraíso se inclinaram sobre a Terra cheia de gemidos e de amargura para exaltar a mansidão e a piedade do Cordeiro. Uma promessa de paz desabrochava para todas as coisas com o vosso aparecimento sobre o mundo. Estabelecera-se um noivado meigo entre a Terra e o Céu e recordo-me do júbilo com que Vossa Mãe vos recebeu nos seus braços feitos de amor e de misericórdia. Dir-se-ia, Mestre, que as estrelas de ouro do paraíso fabricaram, naquela noite de aromas e de radiosidades indefiníveis um mel divino no coração piedoso de Maria!...

Retrocedendo no tempo, meu Senhor bem-amado, vejo o transcurso da vossa infância, sentindo o martírio de que fostes objeto; o extermínio das crianças de Vossa idade, a fuga nos braços carinhosos da Vossa progenitora, os trabalhos manuais em companhia de José, as vossas visões maravilhosas no Infinito, em comunhão constante com o Vosso e nosso Pai, preparando-Vos para o desempenho da missão única que Vos fez abandonar por alguns momentos os palácios de sol da mansão celestial para descer sobre as lamas da Terra.

- Sim, meu João, e, por falar nos meus deveres, como seguem no mundo as coisas atinentes à minha doutrina?

- Vão mal, meu Senhor. Desde o concílio ecumênico de Nicéia, efetuado para combater o cisma de Ario em 325, as vossas verdades são deturpadas. Ao arianismo seguiu-se o movimento dos iconoclastas em 787 e tanto contrariaram os homens o Vosso ensinamento de pureza e de simplicidade, que eles próprios nunca mais se entenderam na interpretação dos textos evangélicos.

- Mas não te recordas, João, que a minha doutrina era sempre acessível a todos os entendimentos? Deixei aos homens a lição do caminho, da verdade e da vida sem lhes haver escrito uma só palavra.

- Tudo isso é verdade, Senhor, mas logo que regressastes aos vossos impérios resplandecentes, reconhecemos a necessidade de legar à posteridade os vossos ensinamentos. Os evangelhos constituem a vossa biografia na Terra; contudo, os homens não dispensam, em suas atividades, o véu da matéria e do símbolo. A todas as coisas puras da espiritualidade adicionam a extravagância de suas concepções. Nem nós e nem os evangelhos poderíamos escapar. Em diversas basílicas de Rávena e de Roma, Mateus é representado por um jo0vem, Marcos por um leão, Lucas por um touro e eu, Senhor, estou ali sob o símbolo estranho de uma águia.

- E os meus representante, João, que fazem eles?

- Mestre, envengonho-me de o dizer. Andam quase todos mergulhados nos interesses da vida material. Em sua maioria, aproveitam-se das oportunidades para explorar o vosso nome e, quando se voltam para o campo religioso, é quase que apenas para se condenarem uns aos outros, esquecendo-se de que lhes ensinastes a se amarem como irmãos.

- As discussões e os símbolos, meu querido – disse-lhe suavemente o Mestre – não me impressionam tanto. Tiveste, como eu, necessidade destes últimos, para as predicações e, sobre a luta das idéias, não te lembras quanta autoridade fui obrigado a despender, mesmo depois da minha volta da Terra, para que Pedro e Paulo não se tornassem inimigos? Se entre meus apóstolos prevaleciam semelhantes desuniões, como poderíamos eliminá-las do ambiente dos homens, que não me viram, sempre inquietos nas suas indagações? ... O que me contrista é o apego dos meus missionários aos prazeres fugitivos do mundo!

- É verdade, Senhor.

- Qual o núcleo de minha doutrina que detém no momento maior força de expressão?

- É o departamento dos bispos romanos, que se recolheram dentro de uma organização admirável pela sua disciplina, mas altamente perniciosa pelos seus desvios da verdade. O Vaticano, Senhor, que não conheceis, é um amontoado suntuoso das riquezas das traças e dos vermes da Terra. Dos seus palácios confortáveis e maravilhosos irradia-se todo um movimento de escravização das consciências. Enquanto vós não tínheis uma pedra onde repousar a cabeça, dolorida os vossos representantes dormem a sua sesta sobre almofadas de veludo e de ouro; enquanto trazíeis os vossos pés macerados nas pedras do caminho escabroso, quem se inculca como vosso embaixador traz a vossa imagem nas sandálias matizadas de pérolas e de brilhantes. E junto de semelhantes superfluidades e absurdos, surpreendemos os pobres chorando de cansaço e de fome; ao lado do luxo nababesco das basílicas suntuosas, erigidas no mundo como um insulto à glória da vossa humildade e do vosso amor, choram as crianças desamparadas, os mesmos pequeninos a quem estendíeis os vossos braços compassivos e misericordiosos. Enquanto sobram as lágrimas e os soluços entre os infortunados, nos templos, onde se cultua a vossa memória, transbordam moedas em mãos cheias, parecendo, com amarga ironia, que o dinheiro é uma defecação do demônio no chão acolhedor da vossa casa.

- Então, meu Discípulo, não poderemos alimentar nenhuma esperança?

- Infelizmente, Senhor, é preciso que nos desenganemos. Por um estranho contraste, há mais ateus benquistos no Céu do que aqueles religiosos que falavam em vosso nome na Terra.

- Entretanto – sussurraram os lábios divinos docemente – consagro o mesmo amor à humanidade sofredora. Não obstante a negativa dos filósofos, as ousadias da ciência, o apodo dos ingratos, a minha piedade é inalterável... Que sugeres, meu João, para solucionar tão amargo problema?

- Já não dissestes, um dia, Mestre, que cada qual tomasse a sua cruz e vos seguisse?

- Mas prometi ao mundo um Consolador em tempo oportuno!...

E os olhos claros e límpidos, postos na visão piedosa do amor de seu Pai Celestial, Jesus exclamou:

- Se os vivos nos traíram, meu Discípulo Bem-Amado, se traficam com o objeto sagrado da vossa casa, profligando a fraternidade e o amor, mandarei que os mortos falem na Terra em meu nome. Deste Natal em diante, meu João, descerrarás mais um fragmento dos véus misteriosos que cobrem a noite triste dos túmulos para que a verdade ressurja das mansões silenciosas da Morte. Os que já voltaram pelos caminhos ermos da sepultura retornarão à Terra para difundirem a minha mensagem, levando aos que sofrem, coma esperança posta no Céu as claridades benditas do meu amor!...

E desde essa hora memorável, há mais de cinqüenta anos, o Espiritismo veio, com as suas lições prestigiosas, felicitar e amparar na Terra a todas as criaturas.

Humberto de Campos

Pedro Leopoldo 20 de dezembro de 1935.

11

Oh Jerusalém!... Oh Jerusalém!...

É possível a estranheza dos que vivem na Terra com respeito à atitude dos desencarnados, esmiuçando-lhes as questões e opinando sobre os problemas que os inquietam.

É lógico, porém, que os recém libertos do mundo falem mais com o seu cabedal de experiências do passado, que com a sua ciência do presente, adquirida à custa de faculdades novas, que o homem não está ainda à altura de compreender.

Podem imaginar-se na Terra determinadas condições da vida sobre a superfície de Marte; mas, o que interessa, por enquanto, ao mundo semelhantes descobertas, se os enigmas que o assoberbam ainda não foram decifrados? Para o exilado da Terra, não vale a psicologia do homem desencarnado. Tateando na prisão escura da sua vida, seria quase um crime aumentar-lhe as preocupações e ansiedades. Eu teria muitas coisas novas a dizer, todavia, apraz-me, com o objeto de me fazer compreendido, debruçar nas bordas do abismo em que andei vacilando, subjugado nos tormentos, perquirindo os seus logogrifos inextricáveis pata arrancar as lições da sua inutilidade.

Também o homem nada tolera que venha infringir o método da sua rotina.

Presumindo-se rei na criação, não admite as verdades novas que esfacelam a sua coroa de argila.

Os mortos, para serem reconhecidos, deverão tanger a tecla da mesma vida que abandonaram.

Isso é intuitivo.

O jornalista, para alinhavar os argumentos da sua crônica, busca os noticiários , aproveita-se dos acontecimentos do dia, tirando a sua ilação das ocorrências ,do momento.

E meu espírito volve a contemplar o espetáculo angustioso dessa Abissínia, abandonada no seio dos povos, como o derradeiro reduto da liberdade de uma raça infeliz, cobiçada pelo imperialismo do século, lembrando-me de Castro Alves nas suas amarguradas "Vozes d'África":

Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?

Em que mundo, em que estrela tu te escondes,

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde, desde então, corre o infinito.

Onde estás, Senhor Deus?

Da Roma poderosa partem as caravanas de guerreiros. Cartago agoniza no seu desgraçado heroísmo. Públio Cornélio consegue a mais estrondosa das vitórias. Os cérebros dos patrícios ilustres embriagam-se no vinho do triunfo: e nas galeras suntuosas, onde as águias simbolizam o orgulhoso poder da Roma eterna, lamentam-se os escravos nos seus nefandos martírios.

Os Césares enchem a Cidade das Sabinas de troféus e glórias. Todos os deuses são venerados. Os países são submetidos e os povos entoam o hino da obediência à senhora do mundo.

Já não se ouve a melodiosa flauta de Pã nos bosques da Tessália e nas margens do Nilo apagam-se as luzes dos mais suaves mistérios.

Vítima, porém, dos seus próprios excessos, o grande império vê apressar-se a sua decadência. No esboroamento dos séculos, a invencível potência dos Césares é um montão de ruínas. Sobre os seus mármores suntuosos aumentam as destruições.

Roma dormiu o seu grande sono.

Ei-la, contudo, que desperta.

Mussolini deixa escapar um grito do seu peito de ferro e a Roma antiga acorda do letargo, reconhecendo a perda dos seus imensos domínios.

Urge, porém, recuperar o poderio, empenhando-se em alargar o seu império colonial.

Onde e como?

O mundo está cheio de leis, de tratados de amparo recíproco entre as nações.

A França já ocupou todos os territórios ao alcance das suas possibilidades, a Alemanha está fortificada para as suas aventuras, o Japão tem as suas vistas sobre a China, e a Inglaterra, calculista e poderosa, não pode ceder um milímetro no terreno das suas conquistas.

Mas, Roma quer a expansão da sua força econômica e prepara-se para roubar a derradeira ilusão de um povo desgraçado, ao qual não basta a lembrança amarga dos cativeiros multisseculares, julgando-se livre na obscura faixa de terra para onde recuou, batido pela crueldade das potências imperialistas.

Que mal fizeste à civilização corrompida dos brancos, ó pequena Abissínia, grande pela expressão resignada do teu ardente heroísmo?

Como pudeste, das areias calcinantes do deserto, onde apuras o teu espírito de sacrifício, penetrar nas instituições européias, provocando a fúria das suas armas?

Deixa que passem sob o teu sol de fogo as hordas de vândalos, sedentas de chacina e de sangue.

Sobre as tuas esperanças malbaratadas derramará o Senhor o perfume da sua misericórdia. Os humildes têm o seu dia de bem-aventurança e de glória.

Não importa sejas o joguete dos caprichos condenáveis dos teus verdugos, porque sobre o mundo todas as frontes orgulhosas desceram do pináculo da sua grandeza para o esterquilínio e para o pó.

Se tanto for preciso, recebe sobre os teus ombros a mortalha de sangue, porque, junto do maravilhoso império da civilização apodrecida dos brancos, ouve-se a voz lamentosa de um novo Jeremias: - Ó Jerusalém!... Jerusalém!...

Humberto de Campos

Recebida em Pedro Leopoldo a 11 de agosto de 1935

12

Um Céptico

Ainda não me encontro bastante desapegado desse mundo para que não me sentisse tentado a voltar a ele, no dia que assinalou o meu desprendimento da carcaça de ossos.

Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das sombras, que é a vida daí, o cinco de dezembro representou a. minha volta ao país de claridades benditas, cujas portas de ouro são escancaradas pelas mãos poderosas da morte.

Nessa noite, o ambiente do cemitério de São João Batista parecia sufocante. Havia um "quê" de mistérios, entre catacumbas silenciosas, que me enervava, apesar da ausência dos nervos tangíveis no meu corpo estranho de espírito. Todavia, toquei as flores cariciosas que a Saudade me levara, piedosa e compungidamente. O seu aroma penetrava o meu coração como um consolo brando, conduzindo-me, num retrospecto maravilhoso, às minhas afeições comovidas, que haviam ficado a distância.

E foi entregue a essas cogitações, a que são levados os mortos quando penetram o mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um dos companheiros que me ficavam próximos ao bangalô subterrâneo com que fui mimoseado na terra carioca.

- O senhor é o dono desses ossos que estão por aí apodrecendo? - interpelou-me.

- Sim, e a que vem a sua pergunta?

- Ora, é que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete subterrâneo. Recordo-me bem, apesar de sair pouco dessa toca para onde fui relegado há mais de trinta anos... - O senhor se lembra? A urna funerária, portadora dos seus despojos, saiu solenemente da Academia de Letras, altas personalidades da política dominante se fizeram representar nas suas exéquias e ouvi sentidos panegíricos pronunciados em sua homenagem. Muito trabalho tiveram as máquinas fotográficas na camaradagem dos homens da imprensa e tudo fazia sobressair à importância do seu nome ilustre. Procurei aproximar-me de si e notei que as suas mãos, que tanto haviam acariciado o espadim acadêmico, estavam inermes e que os seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando aprofundar os problemas humanos, estavam reduzidos a um punhado de massa informe,onde apenas os vermes encontrariam algo de útil. Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a celebridade, o senhor veio humildemente repousar entre as tíbias e os úmeros daqueles que o antecederam na jornada da Morte. Lembra-se o senhor de tudo isso?

- Não me lembro bem... Tinha o meu espírito perturbado pelas dores e emoções sucessivas.

- Pois eu me lembro de tudo. Daqui, quase nunca me afasto, como um olho de Argos, avivando a memória dos meus vizinhos. O senhor conhece as criptas de Palermo?

- Não.

- Pois nessa cidade os monges, um dia, conjugando a piedade com o interesse, inventaram um cemitério bizarro. Os mortos eram mumificados e não baixavam à sepultura. Prosseguiam de pé a sua jornada de silêncio e de nudez espantosa. Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha, vestidos ao seu tempo, segundo os seus gostos e opiniões. Muito rumor causou essa parada de caveiras e de canelas, até que um dia um inspetor da higiene, visitando essa casa de sombras da vida e enojado com a presença dos ratos que roíam displicentemente as costelas dos traspassados ricos e ilustres que se davam ao gosto de comprar ali um lugar de descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em 1888. Ora bem: eu sou uma espécie dos defuntos de Palermo. Aqui estou sempre de pé, apesar dos meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se encontraram com os ossos dos que foram meus inimigos.

- A vida é assim - disse-lhe eu; mas, por que se dá o amigo a essa inglória tarefa na solidão em que se martiriza? Não teria vindo do orbe com bastante fé, ou com alguma credencial que o recomendasse a este mundo cujas fileiras agora integramos?

- Credenciais? Trouxe muitas. Além da honorabilidade de velho político do Rio de Janeiro, trazia as insígnias da minha fé católica, apostólica romana. Morri com todos os sacramentos da igreja ; porém, apesar das palavras sacramentais, da liturgia e das felicitações dos hissopes, não encontrei viva alma que me buscasse para o caminho do Céu, ou mesmo do inferno. Na minha condição de defunto incompreendido, procurei os templos católicos, que certamente estavam na obrigação de me esclarecer. Contudo, depressa me convenci da inutilidade do meu esforço. As igrejas estão cheias de mistificações. Se Jesus voltasse agora ao mundo, não poderia tomar um átomo de tempo pregando as virtudes cristãs, na base, luminosa da humildade. Teria de tomar, incontinenti, ao regressar a este mundo, um látego do fogo e trabalhar anos afio no saneamento de sua casa. Os vendilhões estão muito multiplicados e a época não comporta mais o Sermão da Montanha. O que se faz necessário, no tempo atual, no tocante a esse problema, é a creolina de que falava Guerra Junqueiro nas suas blasfêmias.

- Mas, o irmão está muito cético. É preciso esperança e crença...

- Esperança e crença? Não acredito que elas salvem o mundo, com essa geração de condenados. Parece que maldições infinitas perseguem a moderna civilização. Os homens falam de fé e de religião, dentro do esnobismo e da elegância da época. A religião é para uso externo, perdendo-se o espírito nas materialidades do século. As criaturas parecem muito satisfeitas sob a tutela estranha do diabo. O nome de Deus, na atualidade, não deve ser evocado senão como máscara para que os enigmas do demônio sejam resolvidos.

Não estamos nós aqui dentro da terra da Guanabara, paraíso dos turistas, cidade maravilhosa? Percorra o senhor, ainda depois de morto, as grandes avenidas, as artérias gigantescas da capital e verá as crianças famintas, as mãos enauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e pálidos das mães sofredoras, enquanto o governo remodela os teatros, incentiva as orgias carnavalescas e multiplica regalos e distrações. Vá ver como o câncer devora os corpos enfermos no hospital da Gamboa; ande pelos morros, para onde fugiu a miséria e o infortúnio; visite os hospícios e leprosários. Há de se convencer da inutilidade de todo o serviço em favor da esperança e da crença. Em matéria de religião, tente materializar-se e corra aos prédios elegantes e aos bangalôs adoráveis de Copacabana e do Leblon, suba a Petrópolis e grite a verdade. O seu fantasma seria corrido a pedradas. Todos os homens sabem que hão de chocalhar os ossos, como nós, algum dia, mas um vinho diabólico envenenou no berço essa geração de infelizes e de descrentes.

- Por que o amigo não tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa hoje toda nossa esperança.

- Já o fiz. É verdade que não compareci em uma reunião de sabedores da doutrina, conhecedores do terreno que perquiriam; mas estive em uma assembléia de adeptos e procurei falar-lhes dos grandes problemas da existência das almas. Exprobrei os meus erros do passado, penitenciando-me das minhas culpas para escarmentá-los; mostrei-lhes as vantagens da prática do bem, como base única para encontrarmos a senda da felicidade, relatando-lhes a verdade terrível, na qual me achei um dia, com os ossos confundidos com os ossos dos miseráveis. Todavia, um dos componentes da reunião interpelou-me a respeito das suas tricas domésticas, acrescentando uma pergunta quanto à marcha dos seus negócios.

Desiludi-me.

Não tentarei coisa alguma. Desde que temos vida depois da morte, prefiro esperar a hora do Juízo Final, hora essa em que deverei buscar um outro mundo, porque, com respeito a Terra, não quero chafurdar-me na sua lama. Por estranho paradoxo vivo depois da morte, serei adepto da congregação dos descrentes.

- Então, nada o convence?

- Nada. Ficarei aqui até à consumação dos evos, se a mão do Diabo não se lembrar ,de me arrancar dessa toca de ossos moídos e cinzas asquerosas. E, quanto ao senhor, não procure afastar-me dessa misantropia. Continue gritando para o mundo que lhe guarda os despojos. Eu não o farei.

E o singular personagem, recolheu-se à escuridão do seu canto imundo, enquanto pesava no meu espírito a certeza dolorosa da existência dessas almas vazias e incompreendidas na parada eterna dos túmulos silenciosos para onde os vivos levam de vez em quando as flores perfumadas da sua saudade e da sua afeição.

Humberto de Campos

Recebida em Pedro Leopoldo a 13 de dezembro de 1935.

13

Carta a minha mãe

Hoje, mamãe, eu não te escrevo daquele gabinete cheio de livros sábios, onde o teu filho, pobre e enfermo, via passar os espectros dos enigmas humanos junto da lâmpada que, aos poucos, lhe devorava os olhos, no silêncio da noite.

A mão que me serve de porta-caneta é a mão cansada de um homem paupérrimo que trabalhou o dia inteiro, buscando o pão amargo e quotidiano dos que lutam e sofrem. A minha secretária é uma tripeça tosca à guisa de mesa e as paredes que se rodeiam são nuas e tristes como aquelas de nossa casa desconfortável em Pedra do Sal. O telhado sem forro deixa passar a ventania lamentosa da noite e deste remanso humilde onde a pobreza se esconde, exausta e desalentada, eu te escrevo sem insônias e sem fadigas para contar-te que ainda estou vivendo para amar e querer a mais nobre das mães.

Queria voltar ao mundo que eu deixei para ser novamente teu filho, desejando fazer-me um menino, aprendendo a rezar com o teu espírito santificado nos sofrimentos.

A saudade do teu afeto leva-me constantemente a essa Parnaíba das nossas recordações, cujas ruas arenosas, saturadas do vento salitroso do mar, sensibilizam a minha personalidade e dentro do crepúsculo estrelado de tua velhice, cheia de crença e de esperança, vou contigo, em espírito, nos retrospectos prodigiosos da imaginação, aos nossos tempos distantes. Vejo-te com os teus vestidos modestos em nossa casa da Miritiba, suportando com serenidade e devotamento os caprichos alegres de meu pai. Depois, faço a recapitulação dos teus dias de viuvez dolorosa junto da máquina de costura e do teu "terço" de orações, sacrificando a mocidade e a saúde pelos filhos, chorando com eles a orfandade que o destino lhe reservara e junto da figura gorda e risonha da Midoca ajoelho-me aos teus pés e repito:

- Meu Senhor Jesus Cristo, se eu não tiver de ter uma boa sorte, levai-me deste mundo, dando-me uma boa morte.

Muitas vezes, o destino te fez crer que partirias antes daqueles que havias nutrido com o beijo das tuas carícias, demandando os mundos ermos e frios da Morte. Mas partimos e tu ficaste. Ficaste no cadinho doloroso da Saudade, prolongando a esperança numa vida melhor no seio imenso da eternidade. E o culto dos filhos é o consolo suave do teu coração. Acariciando os teus netos, guardas com desvelo o meu cajueiro que aí ficou como um símbolo, plantado no coração da terra parnaibana e, carinhosamente, colhes das suas castanhas e das suas folhas fartas e verdes, para que as almas boas conservem uma lembrança do teu filho, arrebatado no turbilhão da dor e da morte.

Ao Mirocles, mamãe, que providenciou quanto ao destino desse irmão que aí deixei, enfeitado de flores e passarinhos, estuante de selva na carne moça da terra, pedi velasse pelos teus dias de isolamento e velhice, substituindo-me junto do teu coração. Todos os nossos te estendem as suas mãos bondosas e amigas e é assombrada que, hoje, ouves a minha voz, através das mensagens que tenho escrito para quantos me possam compreender. Sensibilizam-se as tuas lágrimas, quando passas os olhos cansados sobre as minhas páginas póstumas e procuro dissipar as dúvidas que torturam o teu coração, combalido nas lutas. Assalta-me o desejo de me encontrares, tocando-me com a generosa ternura de tuas mãos, lamentando as tuas vacilações e os teus escrúpulos, temendo aceitar as verdades espíritas em detrimento da fé católica que te vem sustentando nas provações. Mas não é preciso, mamãe, que me procures nas organizações espiritistas e para creres na sobrevivência do teu filho não é necessário que abandones os princípios da tua fé. Já não há mais tempo para que o teu espírito excursione em experiências no caminho vasto das filosofias religiosas.

Numa de suas páginas, dizia Coelho Neto que as religiões são como as linguagens. Cada doutrina envia a Deus, a seu modo, o voto de sua súplica ou de sua adoração. Muitas mentalidades entregam-se aí no mundo aos trabalhos da discussão. Chega porém um dia em que o homem acha melhor repousar na fé a que se habituou, nas suas meditações e nas suas lutas. Esse dia, mamãe, é o que estás vivendo, refugiada no conforto triste das lágrimas e das recordações. Ascendendo às culminâncias do teu Calvário de saudade e de angústia, fixas os teus olhos na celeste expressão do Crucificado, e Jesus que é a providência misericordiosa de todos os desamparados e de todos os tristes, te fala ao coração dos vinhos suaves e doces de Caná que se metamorfosearam no vinagre amargoso dos martírios e das palmas verdes de Jerusalém que se transformaram na pesada coroa de espinhos. A cruz então se te afigura mais leve e caminhas. Amigos devotados e carinhosos te enviam de longe o terno consolo dos seus afetos e prosseguindo no teu culto de amor aos filhos distantes, esperas que o Senhor com as suas mãos prestigiosas, venha decifrar para os teus olhos os grandes mistérios da Vida.

Esperar e sofrer têm sido os dois grandes motivos em torno dos quais rodopiaram os teus quase setenta e cinco anos de provações, de viuvez e de orfandade.

E eu, minha mãe, não estou mais aí para afagar-te as mãos trêmulas e os teus cabelos brancos que as dores santificaram. Não posso prover-te de pão e nem guardar te da fúria da tempestade, mas abraçando o teu espírito, sou a força que adquires na oração como se absorvesses um vinho misterioso e divino.

Inquirido certa vez pelo grande Luís Gama sobre as necessidades de sua alforria, um jovem escravo lhe observou:

"Não, meu senhor!. .. A liberdade que me oferece me doeria mais que o ferrete da escravidão, porque minha mãe, cansada e decrépita, ficaria sozinha nos martírios do cativeiro."

Se Deus me perguntasse, mamãe, sobre os imperativos da minha emancipação espiritual, eu teria preferido ficar aí, não obstante a claridade apagada e triste dos meus olhos e hipertrofia que me transformava num monstro para levar-te o meu carinho e a minha afeição, até que pudéssemos partir juntos, desse mundo onde sonhamos tudo para nada alcançar.

Mas se a Morte parte os grilhões frágeis do corpo, é impotente para dissolver as algemas inquebrantáveis do espírito.

Deixa que o teu coração prossiga, oficiando no altar da saudade e da oração; cântaro divino e santificado, Deus colocará dentro dele o mel abençoado da esperança e da crença, e, um dia, no portal ignorado do mundo das sombras, eu virei, de mãos entrelaçadas com a Midoca, retrocedendo no tempo para nos transformarmos em tuas crianças bem-amadas. Seremos agasalhados então nos teus braços cariciosos como dois passarinhos minúsculos, ansiosos da doçura quente e doce das asas de sua mãe e guardaremos as nossas lágrimas nos cofres de Deus onde elas se cristalizam como as moedas fulgurantes e eternas do erário de todos os infelizes e desafortunados do mundo.

- Tuas mãos segurarão ainda o "terço" das preces inesquecíveis e nos ensinarás, de joelhos, a implorar de mãos postas as bênçãos prestigiosas do Céu. E enquanto os teus lábios sussurrarem de mansinho - "Salve, Rainha...mãe de misericórdia...", começaremos juntos a viagem ditosa do Infinito sobre o dossel luminoso das nuvens claras, tênues e alegres do Amor.

Humberto de Campos

(Aurora Rio, 1 de maio de 1936.)

14

Mais de três mil pessoas assistiram ontem às experiências de Chico Xavier na Federação Espírita Brasileira

PSICOGRAFADA, MAIS UMA PÁGINA DE HUMBERTO DE CAMPOS!

Chico Xavier, o notável médium de Pedro Leopoldo, foi apresentado, na Federação Espírita Brasileira, aos espíritas do Rio. Compareceram ao velho casarão da Avenida Passos mais de três mil pessoas, desejosas de conhecer, de visu, o instrumento de que Humberto de Campos, Augusto dos Anjos e outros grandes nomes das terras brasileiras se têm servido para se comunicar com a Terra.

Manuel Quintão, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira, antes de abrir a sessão, dirigiu a palavra aos presentes, indagando se ali tinham comparecido para ver a carcaça do homem ou o espírito de Deus e auscultar a alma do irmão.

Referiu-se o orador aos excessos terrenos, quando surge um médium de sensibilidade igual à de Chico Xavier e todos se interessaram por ele, exigindo mais do que o natural e possível.

Feita a prece, o presidente comunica aos presentes que o médium Francisco Cândido Xavier estava tocado para receber algo do além. Pedia silêncio e concentração, a fim de que a comunicação não fosse,de maneira alguma prejudicada.

A Primeira Comunicação: João de Deus

A cabeça de Chico Xavier pende sobre o peito. Um estranho estremecimento agita-o. Segura automàticamente o lápis que o presidente lhe dá e, apoiando a fronte com a mão esquerda, faz a direita deslizar sobre o papel, com os olhos semicerrados. O lápis desliza com uma rapidez incrível sobre o papel. É uma letra grande, bastante legível. O médium, depois de escrever três laudas, descansa um pouco a mão sobre a mesa; o repórter aproveita a interrupção e lê:

Segunda Comunicação: Emmanuel

Chico Xavier faz o lápis correr, novamente, sobre o papel. Agora é longa comunicação de Emmanuel, o guia do médium, que faz um belíssimo estudo sobre a atual situação político-social do mundo, mostrando as causas determinantes da formação de novas doutrinas atentatórias à liberdade humana e às leis que regem o Universo.

A Espanha do momento, segundo diz Emmanuel, não é mais do que um reflexo do estado atual do catolicismo, em virtude da corrupção de seus ministros é da desvirtuação das finalidades que se propuseram cumprir em todos os séculos e gerações.

Tão grave é a situação do mundo, atualmente – diz ainda o espírito de Emmanuel – que se torna necessária a intervenção dos mortos, cujos olhos vêem onde os olhos dos vivos não podem ver, a fim de ministrar conselhos e ensinamentos.

Dada a extensão do estudo de Emmanuel, deixamos de transcrevê-lo em nossas colunas.

Humberto de Campos

A crônica abaixo foi recebida por Chico Xavier na residência do Sr. Manuel Quintão. Belíssima página de literatura, vem mostrar que o grande pensador brasileiro continua tendo, além-túmulo, a mesma facilidade de expressão e maneja o português com a mesma elegância com que fazia na vida terrena.

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A casa de Ismael

Um dia, reunindo o Senhor seus Apóstolos, ao pé das águas claras e alegres do Jordão, descortinou-lhes o panorama imenso do mundo.

Lá estavam as grandes metrópoles, cheias de faustos e grandezas.

Alexandria e Babilônia, junto Roma dos Césares, acendiam na terra o fogo da luxúria e dos pecados.

E Jesus, adivinhando a miséria e o infortúnio do Espírito mergulhado os humanos tormentos, alçou a mão compassiva em direção à paisagem triste do Planeta, declarando aos discípulos:

“Ide e pregai! Eu vos envio ao mundo como ovelhas ao meio de lobos, mas não vim senão para curar os doentes e proteger os desgraçados.”

E os Apóstolos partiram, no afã de repartir as dádivas do seu Mestre.

Ainda hoje, afigura-se-nos que a voz consoladora do Cristo mobiliza as almas abnegadas, articulando-as no caminho escabroso da moderna civilização. Os filhos do sacrifício e da renúncia abrem clareiras divinas no cipoal escuro das descrenças humanas, constituindo exércitos de salvação e de socorro aos homens, que se debatem no naufrágio triste das esperanças; e, se a vida pode cerrar os nossos olhos e restringir a acuidade das nossas percepções, a morte vem descerrar-nos um mundo novo, a fim de que possamos entrever as verdades mais profundas do plano espiritual.

Foi Miguel Couto que exclamou, em um dos seus momentos de amargura, diante da miséria exibida em nossas praças públicas:

“Ai dos pobres do Rio de Janeiro, se não fossem os Espíritas.”

E hoje que a morte reacendeu o lume dos meus olhos, que aí se apagava, nos derradeiros tempos de minha vida, como luz bruxuleante dentro da noite, posso ver a obra maravilhosa dos espíritas, edificada no silêncio da caridade evangélica.

Eu não conhecia somente o Asilo São Luís, que se derrama pela enseada do Caju como uma esteira de pombais claros e tranqüilos, onde a velhice desamparada encontra remanso de paz, no seio das tempestades e das dolorosas experiências do mundo, como realização da piedade pública, aliada à propaganda das idéias católicas.Conhecia, igualmente, o Abrigo Teresa de Jesus, o Amparo Teresa Cristina e outras casas de proteção aos pobres e desafortunados do Rio de Janeiro, que um grupo de criaturas abnegadas do proselitismo espírita havia edificado. Mas, meu coração, que as dores haviam esmagado, trucidando todas as suas aspirações e todas as suas esperanças, não podia entender a vibração construtora da fé dos meus patrícios, que Xavier de Oliveira tachara de loucos no seu estudo mal-avisado do Espiritismo no Brasil.

A verdade hoje é para mim mais profunda e mais clara. Meu olhar percuciente de desencarnado pode alcançar o fundo das coisas, e a realidade é que a organização das consoladoras doutrinas dos Espíritos, no Brasil, não está formada à revelia da vontade soberana, do amor e da justiça que nos presidem aos destinos. Obra estreme da direção especializada dos homens, é no Alto que se processam as suas bases e as suas diretrizes.

Por uma estranha coincidência defrontam-se, na Avenida Passos, quase frente a frente, o Tesouro Nacional e a Casa de Ismael.

Tesouros da Terra e do Céu, guardam-se no primeiro as caixas fortes do ouro tangível, ou das suas expressões fiduciárias; e, no segundo, reúnem-se os cofres imortalizados das moedas do Espírito.

De um, parte a corrente fertilizante das economias do povo, objetivando a vitalidade física do país; e, do outro, parte o manancial da água celeste que sacia toda sede, derramando energias espirituais e intensificando o bendito labor da salvação de todas as almas.

A Obra da Federação Espírita Brasileira é a expressão do pensamento imaterial dos seus diretores do plano invisível, indene de qualquer influenciação da personalidade dos homens. Semelhantes àqueles discípulos que partiram para o mundo como o “Sal da Terra”, na feliz expressão do Divino Mestre, os seus administradores são intérpretes de um ditame superior, quando alheados de sua vontade individual para servir ao programa de amor e de fé ao qual se propuseram. O roteiro de sua marcha é conhecido e analisado no mundo das verdades do espírito e a sua orientação nasce da fonte das realidades superiores e eternas, não obstante todas as incompreensões e todos os combates. A história da Casa de Ismael nos espaços está cheia de exemplos edificantes de sacrifícios e dedicações.

Se Augusto Comte. afirmou que os vivos são cada vez mais governados pelos mortos, nas intuições do seu positivismo, nada mais fez que refletir a mais sadia de todas as verdades. A Federação que guarda consigo as primícias de sede do Tesouro espiritual da terra de Santa Cruz não está de pé somente à custa do esforço dos homens, que por maior que ele seja será sempre caracterizado pelas fragilidades e pelas fraquezas. Muitos dos seus sempre diretores desencarnados aí se conservam como aliados do exército da salvação que ali se reúne.

Ainda há poucos dias, enquanto a Avenida fervilhava de movimento, vi às suas portas uma figura singela e simpática de velhinho, pronto para esclarecer e abençoar com as suas experiências.

- Conhece-o? – disse-me alguém rente aos ouvidos.

- ?

- Pedro Richard...

Nesse ínterim passa um companheiro da humanidade, cheio de instintos perversos que a morte não conseguiu converter à piedade e ao amor fraterno.

E Pedro Richard abre os seus braços paternais para a entidade cruel.

– Irmão, não queres a bênção de Jesus? Entra comigo ao seu banquete!...

– Por quê? – replica-lhe o infeliz, transbordando perversidade e zombaria – eu sou ladrão e bandido, não pertenço à sociedade do teu Mestre.

– Mas não sabes que Jesus salvou Dimas, apesar de suas atrocidades, levando em consideração o arrependimento de suas culpas? – diz-lhe o velhinho com um sorriso fraterno.

– Eu sou o mau ladrão, Pedro Richard. Para mim não há perdão nem paraíso...

Mas o irmão dos infe1izes abraça em plena rua movimentada o leproso moral e me diz suavemente aos ouvidos :

– Jesus salvou o bom ladrão e Maria salvou o outro...

E o que eu vi foi uma lágrima suave e clara rolando na face do pecador arrependido.

*

Senhor, eu não estive aí no mundo na companhia dos teu a servos abnegados e nem comunguei à mesa de Ismael onde se guarda o sangue do teu sangue e a carne da tua carne que constituem a essência de luz da tua doutrina.

Eu não te vi senão com Tomé, na,sua indiferença e na sua amargura, e como os teus discípulos no caminho de Emaús, com os olhos enevoados pelas neblinas da noite; todavia podia ver-te na tua casa, onde se recebe a água divina da fé portadora de todo o amor, de toda a crença e de toda esperança. Mas não é tarde, Senhor!... Desdobra sobre o meu espírito a luz da tua misericórdia e deixa que desabrochem ainda agora, no meu coração de pecador, as açucenas perfumadas do teu perdão e da tua piedade para que eu seja incorporado às falanges radiosas que operam na sua casa, exibindo com o meu esforço de espírito a mais clara e a mais sublime de todas as profissões de fé.

Humberto de Campos

(Diário da Noite, do Rio Janeiro de 13 de junho de 1936)

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Duas mensagens de Nilo Peçanha sobre o momento político brasileiro

Democracia – Fascismo – Comunismo

Se difícil e inoportuna se torna aos espíritos a ação de se imiscuir nos problemas atinentes à iniciativa necessária dos homens, nada os impede de oferecer aos que ficaram na liça, despendendo energias na mesma atividade que constituiu o característico de suas existências sobre a face da Terra, auxiliando assim aos que avançam pela estrada evolutiva, os cabedais de suas experiências, única riqueza que lhes ficou das temporalidades desse mundo.

Todos quantos amaram o Brasil, ofertando-lhe a vida, no que ela possuía de melhor, é claro que não poderiam permanecer indiferentes aos problemas da coletividade nacional. Uma questão grandiosa demais pela sua complexidade e importância deve preocupar a quantos se encarregaram do governo do povo para o povo; a política nacional infelizmente não vem encarando as suas obrigações austeras como se faz mister. No letargo que os poderes da força propiciam, ouvindo empolgada os cantos de sereia do partidarismo e do individualismo perniciosos, vem olvidando os seus máximos deveres, as suas obrigações mais sagradas.

É óbvio que no Brasil da atualidade a única fórmula governamental adaptável às conveniências do país, para que as massas permaneçam isentas dos sacrifícios de toda a natureza, tem de ser baseada nas linhas democráticas, preparando-se a nacionalidade pela educação dentro da ordem para a evolução do futuro. Entretanto, o extremismo vem solapando o edifício das nossas instituições, espalhando doutrinas anarquizadoras, copiando os programas dos outros esquecendo-se de que ainda não nos dignamos examinar, em mais de cem anos de nossa independência jurídica, as realidades nossas, as questões visceralmente brasileiras, alheios ao ambiente que reflete as feições idiossincráticas do nosso povo.

Não temos realizado mais que aquelas “travessuras do símio” de que nos falava Rui Barbosa nas suas célebres afirmações. O nosso país já atravessou o período em que se tornava mister a tradução e a adaptação dos costumes e leis alheias. Faz-se preciso encarar as nossas necessidades de perto, sem as imitações burlescas dos países que instauraram o governo forte pós-guerra e do comunismo que a Rússia se habituou a fabricar apenas para a exportação.

A situação do Brasil atual é de angústia, tanto no terreno econômico-financeiro como nos bastidores da administração que se vem conduzindo com a mais lastimável ausência de tirocínio nos problemas referentes às classes produtoras e trabalhistas.

Urge abandonar os velhos sistemas de faciosismo eleitoral, encarando as questões nacionais nas suas mínimas facetas.

País essencialmente agrícola, o Brasil tem de voltar as suas vistas para a sua imensa extensão territorial, multiplicando os conselhos técnicos da agricultura, velando carinhosamente pelos seus problemas. Ninguém pode contestar que os ministérios se tenham desviado das suas elevadas finalidades e que se venham dissociando na desorganização. Todos os seus serviços são perfeitos, todos os seus aparelhos são utilíssimos. Contudo sobre eles está a suposta onisciência governamental. Não bastam conciliábulos da política administrativa para a criação de leis exeqüíveis e benfeitoras da coletividade. Acima de tudo é necessário estudar-se uma das mais importantes questões de psicologia política. Faz-se preciso interessar as classes, captar a adesão do povo a essas leis, seduzir as massas com a exposição dos seus altos benefícios. Todos os regulamentos e leis criados para o povo tornam-se desnecessários desde que se não saiba interessá-lo, desprezando desse modo o largo potencial de suas energias para a sua perfeita execução. As leis estiolam-se e desaparecem quando não são bafejadas pela homologação popular.

Nos dias que passam, é urgente a renovação das leis agrárias, intensificando-se a reprodução, fomentando-se a indústria, regulando eficazmente a balança comercial na nacionalidade, quer seja solucionando o enigma do transporte e das questões tarifárias dentro do país, ou fundando no estrangeiro os mercados dos nossos produtos.

Esses problemas grandiosos têm sido relegados a um plano inferior pelos nossos administradores, os quais infelizmente arraigados aos sentimentos de personalismo vivem apenas para as grandes oportunidades.

Faz-se necessário melhorar as, condições das classes operárias antes que elas se recordem de o fazer, segundo as suas próprias deliberações, entregando-se à sanha de malfeitores que sob as máscaras da demagogia e a pretexto de reivindicações, vivem no seu seio para explorar-lhes os entusiasmos vibrantes que se exteriorizam sem objeto definido. A maioria das nossas realidades por enquanto estão dentro dos problemas da assistência social, descurada por grande parte dos governantes. Os que vi-vem preconizando os partidos novos, apregoando o mesmo faciosismo de sempre, se esquecem de que a nação precisa antes de tudo do livro e da higiene, das obras de assistência sob todos os seus aspectos.

Todavia, o que poderemos esperar? Mais vale uma experiência que cem conselhos – diz o brocardo popular.

Quando aí andávamos a mesma venda nos obscurecia os olhos.

Procuremos contudo apresentar o fruto dos nossos trabalhos passados que equivale a um patrimônio sagrado de experiências.

Deus ilumine o Brasil, permitindo que ele cumpra a sua missão sublime, como pátria do Evangelho, no concerto das nacionalidades.

Nilo Peçanha

(Recebida em Pedro Leopoldo a 31 de julho de 1935)

Se é certo que, fìsicamente, todas as nações representam em si o patrimônio comum da Humanidade, eliminando-se o sentimento dos regionalismos, injustificáveis, em virtude do laço de fraternidade que une todas as criaturas, ante a vontade soberana de Deus, é certo igual-mente que determinadas coletividades, mesmo no plano espiritual, colaboram em favor do progresso dos núcleos humanos a que se sentem escravizadas pelos mais santos laços afetivos no complexo grandioso das afinidades raciais. Não poderão portanto constituir nenhuma surpresa os nossos propósitos de personalidades desencarnadas, tentando imprimir um novo surto ao pensamento de evolução do povo brasileiro, concitando todos aqueles que se encontram nos bastidores da política administrativa à solução dos nossos problemas de ordem econômica e social.

Colaboramos, sim, com todos, não obstante as condições de invisibilidade da nossa ação, procurando influenciar na esfera de nossas possibilidades relativas a prol da solução objetiva das grandes questões que assoberbam a nacionalidade. Mais que nunca necessita o Brasil voltar-se para o estudo, para a necessária análise do seu infinito reservatório de economias, abandonado por alquiles a quem compete um estudo metodizado de plano amplo de ação em favor das nossas realidades, genuìnamente nossas, extremes de qualquer atuação estrangeira. Observando-se os nossos institutos políticos e econômicos, reconhecemos que quase nada adiantamos além das cópias das normas que nos ofereciam outros povos, dentro de sua existência coletiva, radicalmente diversa da nossa, em suas modalidades multiformes. Nas questões do direito, da administração, dos regulamentos, nada temos feito senão adaptar as más adaptações de tudo quanto observamos nos outros. Seria preciso criarmos um largo movimento de brasilidade, não para a arte balofa dos dias atuais que aí correm de bandeirolas ao vento, proclamando nossas ridicularias indígenas, mas um sentimento essencialmente brasileiro, saturado de nossas realidades e necessidades inadiáveis.

Infelizmente tivemos a fraqueza de nos apaixonarmos pelas teorias sonoras, acalentando os homens palavrosos, conduzindo-os aos poderes públicos, endeusando-os, incensando-os com a nossa injustificável admiração, olvidando homens de ação, de energia, que aí vivem isolados, corridos dos gabinetes da administração nacional, em virtude de sua inadaptabilidade às lutas da política do oportunismo e das longas fileiras do afilhadismo que vem constituindo a mais dolorosa das calamidades públicas do Brasil. Precisávamos para a solução de nossos problemas mais urgentes, não de copiar artigos e regras burocráticas, mas firmar pensamentos construtores, que renovassem os nossos institutos de ordem social e política, hoje seriamente ameaçados em suas bases, justamente pelo descaso e inércia com que observamos as exposições das teorias falsas e errôneas para a esfera do governo, as quais infiltrando-se no âmago das coletividades, preparam os surtos dos arrasamentos.

Nem sempre liberdade significa prosperidade. Dar muitas liberdades a um povo que se ressente de necessidades gravíssimas, inconsciente ainda de suas responsabilidades, falando-se de um modo geral, é fornecer armas perigosas para a destruição da vida desse mesmo povo. No Brasil, sobram as regalias políticas e as liberdades publicas. Tudo requer ordem e método. As coletividades brasileiras fazem mais questão do direito da higiene, do conforto necessário, do pão e da escola que do direito irrisório do voto, dentro das lutas de clã e no ambiente viciado dos partidos.

O povo brasileiro tem colhido inúmeras ilusões nas experiências coletivas, conquistadas, muitas vezes, à farsa de sangue, nos seus deploráveis movimentos revolucionários. Revolução implica, em si, destruição de tudo quanto está feito. Mais prudente seria que pudéssemos observar constantemente a evolução geral, conseguindo norteá-la para um caminho de benefícios generalizados para a coletividade. Infelizmente esses movimentos em nosso país objetivam unicamente o individualismo dos políticos ambiciosos e a hegemonia dos Estados em detrimento das outras unidades da Federação. Movimentos revolucionários em nossa terra representam lutas dolorosas onde as ações ficam encerradas nas palavras das praças públicas, onde as massas sofredoras e anônimas guardam os mesmos enganos de sempre. Seria ideal que os brasileiros se unissem para a cruzada bendita do reerguimento da nacionalidade, conscientes de seu valor próprio, prescindindo as influências estrangeiras, realizando, construindo a pátria de amanhã, cujo futuro promissor constitui uma larga esperança para a Humanidade. Do próprio Nordeste, cheio de flagelados e desiludidos, poder-se-ia fazer um oásis. Aí temos os homens do pensamento e da ação, realizadores práticos, corajosos, que atacariam, de pronto, os problemas maia fortes de nossa economia, preservando-a, metodizando-a para o bem-estar da nação. Mas onde se conservam essas criaturas do sentimento e do raciocínio que as melhores capacidades caracterizam? Justamente, quase todos, por nossa infelicidade, se conservam afastados da paixão política que empolga a generalidade dos nossos homens públicos; com algumas exceções, a nossa política administrativa, infelizmente, está cheia daqueles que apenas se aproveitam da situação, para os favores pessoais e para as condenáveis pretensões dos indivíduos. O sentimento da solidariedade das classes, do amparo social, que deveriam constituir as vigas mestras de um instituto de governo, são relegados para um plano inferior, a fim de que se saliente o partido, a pretensão, o chefe, a figura centralizadora de cada um, em desprestígio de todos.

É dessa orientação nociva que se vem derivando o mal-estar das classes produtoras e proletárias, no Brasil, predispondo-as a um estado de incompreensão altamente prejudicial à execução dos programas econômicos e políticos. E daí, a necessidade de uma compreensão mais profunda por parte do governo que deverá, rebuscar no cadinho das análises minuciosas, os menores problemas das classes, para resolvê-los, antes que elas, perigosamente, se abalancem a resolver por si mesmas.

Nesse trabalho de orientar os nossos homens do governo, estamos todos nós empenhados, todos os que, do plano espiritual, não obstante a ausência da indumentária carnal, vivem pugnando por um Brasil mais forte, unido e mais feliz.

Nilo Peçanha

(Recebida em Pedro Leopoldo a 31 de julho de 1935)

17

Julgando Opiniões

Após a publicação do teu e nosso livro, abundaram as opiniões com respeito à tua personalidade. Embora já tão conhecidas as questões espíritas, não faltou quem te considerasse um sujeito anormalissimo, apesar de constituir o teu caso de mediunidade um fato vulgaríssimo, portas a dentro da psicologia, definido pelos psiquiatras, entendidos na matéria, que classificam sem admitir contestação, o problema mediúnico dentro do subconsciente como um cisto metido em álcool para estudo.

Alguns se abalançaram a crer que somos nós quem escreve através dos teus dedos; outros, porém, honraram a tua cabeça com uma privilegiada massa encefálica. Outros ainda, concedendo-te um extraordinário poder de assimilação e uma esquisita multiplicidade de característicos individuais, viram na tua faculdade uma questão simplíssima de inteligência, não obstante a acusação de outrem de que conseguiste apenas nos desfigurar e empobrecer. Tudo está bem.

Subconsciência, mediunismo, psicopatia, loucura, simulação, anormalidade, fenômeno, estupidez, ou espiritomania. O que é certo é que apreciaste os nossos desarrazoados e nós nos comprazemos na tua janelinha, através da qual gesticulamos e falamos para o mundo ; e se almas caridosas têm vindo para espicaçar-lhe o desejo de uma beatitude celestial para cá da morte, aplicando sedativos às suas chagas purulentas, não me animam semelhantes objetivos. Não lhe darei consolações nem conselhos. Grande soma de desprezo pude acumular felizmente pela sua vida detestável onde a púrpura disfarça a gangrena. Deus não me deu ainda a funda de Davi para vencer esse eterno Golias da iniqüidade. Não é porque eu tenha sido aí um santo, que o não fui. Ambientes existem que revoltam certas individualidades, sem amoldarias ao seu modo e fora do abismo experimenta-se o receio de uma nova queda.

Crise de Gênios

Os meus escritos póstumos são apenas sinônimos de amistosas visitas. E como há quem te assevere serem as nossas produções, expressões da tua genialidade, quiçá da tua fertilidade imaginativa, resolvi prevenir-te para que não te amofinasses de orgulho como abóbora seca a chocalhar as suas pevides, porque os gênios hoje constituem raridades. Há crise deles atualmente. Crise oriunda do excesso como todas as crises hodiernas.

O ouro desaparece permanecendo somente na moeda fiduciária, em muitos países, por inflações de crédito ou por exuberância da produção. As nacionalidades estão depauperadas porque possuem demasiadamente; são vítimas da sua abundância e do descontrole.

A crise de gênios tem a sua origem na superabundância deles. As academias fabricam-nos às dúzias e a concorrência intensifica a vulgaridade.

Gênios e Póstumos

Acompanhemo-los desde os seus pródromos. São crianças nervosas, irritadas. A mãe dá-lhes tabefes. Mas os, amigos da família pontificam. Aquelas traquinadas são os prenúncios de uma genialidade sem precedentes e citam os casos de inteligência precoce de que são sabedores. Os fedelhos são como quaisquer outros. Mais tarde os rapazes cursam uma Academia que faz anualmente uma desova de celebridades. Aprendem lexicologia, esmerilhando clássicos, algo de geografia física, política, histórica, econômica e matemática, algumas noções gerais e os alfaiate ou o adelo rematam a obra. Inflados de sapiência, de estudos especializados, são Spinosa em filosofia, Harvey em medicina, expoentes máximos do Direito em ciências jurídicas. Não vivem porém polindo lentes para viver ou perseguidos pelos colegas. Andam com os estômagos reconfortados, uma quase homogeneidade pasmosa, aos magotes, exibindo títulos, a cata de comezainas, apadrinhados, tutelados, pois que geralmente são saídos do ventre rotundo e inchado da politicalha de ocasião. De posse dos seus diplomas os nossos heróis se sacrificam, com denodo, freneticamente. Por idealismo? Não. Buscam pouso na burocracia. E o conseguem. Abdicam então das suas faculdades de raciocínio e reclamam o azorrague de um político que os comande. Transformam-se em azêmolas indiferentes, passivas. Temos aí quase a totalidade dos gênios da época. À sombra da acolhedora máquina do Estado, engordam e apodrecem, pensando pela cavidade abdominal; gastrônomos e artistas têm o cérebro curto e o ventre dilatado, enorme.

Não busque ser o gênio, sê o apóstolo

São inteligências enciclopédicas que apenas sofrem de dispepsias e que daqui se nos afiguram como feiras de aptidões e consciências. Correm aí atrás de tudo o que signifique o seu mundaníssimo interesse e vivem segundo as oportunidades.

Idiotas, abandonam a vida material como suínos. E é de se ver os esgares e trejeitos desses patifes quando acordam na vida real.

Desejaria que houvesse um local isolado, circunscrito, conforme os tratados de teologia católica, onde Lúcifer com os seus sequazes lhes destilasse as gorduras envenenadas a fogo ardente. De qualquer forma, porém, temos aqui o serviço ativo de saneamento espiritual, sem infernos ou purgatórios literais. Graças a Deus.

E como a vida desse mundo é repleta de coisas transitórias, esperamos que o reconheças, desempenhando todos os teus deveres cristãos. Que outros se enriqueçam e se locupletem. Procura as riquezas da alma, os tesouros psíquicos que te servirão na Imortalidade.

Não busques ser o gênio. Sê o apóstolo.

Eça de Queirós

(Recebida em Pedro Leopoldo em 1933)

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Poema de uma alma

Numa região alcatifada de luminosas neblinas, o Anjo da Redenção recebia as almas que regressavam da Terra, mostrando-lhes nos firmamentos constelados os sóis que enchiam de melodia e luminosidade o abismo do Universo.

Um dos egressos do mundo terreno aproximou-se-lhe, exclamando em soluços:

– Anjo Salvador, venho da Terra como um náufrago desvalido!... Ouro e honrarias não me deram a paz ambicionada! Estou só com a minha consciência dilacerada; que fazer, ó mensageiro da redenção, para alcançar aqueles páramos radiosos de ventura que nos aponta a tua mão resplandecente?...

– Filho – replicou-lhe com bondade – a solidão em que te achas foi criada pelo teu egoísmo... aquelas mansões de alegria, onde entrevês a felicidade intraduzível, são conquistadas com o que se faz em bem dos outros...

Escuta-me! a terra ainda é a região dos resgates penosos; milhões de seres lá sofrem e choram, lutam e desfalecem. Volta a esse mundo e prende-te às suas leis. Come do seu pão e sofre-lhe as iniqüidades! Labora na grande oficina da abnegação e do sacrifício.

Lá encontrarás ciladas tentadoras, mas estarás em temporário olvido para que se valorize o teu esforço.

Não te esqueças de amar aos teus semelhantes com o esquecimento dos teus próprios interesses, e quando alcançares o absoluto desprendimento da matéria, terás o poder de criar as tuas próprias asas!... Conhecerás então as belezas universais e conhecerás as flores sublimes dos paramos siderais quando se sabe plantar as sementes da renúncia no sola ingrato da Terra!...

A Alma então animada, resoluta, atirou-se ao círculo das reencarnações benfazejas.

Inúmeras vezes fracassou no caminho fácil das tentações. O Demônio da Sexualidade, a Ambição do Ouro, Egoísmo da Posse, a Inquietação da Fama prenderam-na por muitos séculos de dor e de tormento.

Ia somente aos palácios da Morte para se banhar no pranto dos arrependimentos salvadores, retornando à luta com o firme propósito da vitória; até que um dia escolheu um ambiente de lágrimas dolorosas para os seus combates. Sua infância foi uma longa tortura e toda a sua vida um rosário de aflições e de angústias; viu o escárnio em lábios que estremecia, feriu-se nos espinhos da ingratidão e chorou na confiança traída.

Tudo, porém, suportou com serenidade espartana e com paciência evangélica. Sorriu aos trabalhos e dificuldades da sua existência, sacrificando-se penosamente!...Todavia, uma hora chegou em que as privações lhe trouxeram o alvará da liberdade.

Adormeceu tranquilamente nos braços misericordiosos da Morte e livre da reencarnação e da miséria despertou no santuário esplendoroso da Redenção onde um anjo divino lhe descerrou as portas da Imensidade; então a Alma liberta, entre lágrimas de reconhecimento e de júbilo, alou-se ao Infinito, em cujos jardins deslumbrantes foi colher a flor da sempiterna ventura.

Marta

(Recebida em Pedro Leopoldo a 6 de dezembro de 1934)

19

Dois sonetos de hermes Fontes

DESCONFORTO

Não me bastou, Senhor, velar atento

A misteriosa luz com que, à procura

De um luminoso céu em miniatura,

Vivi sonhando em meu deslumbramento!

Dentro do meu ideal supus que, isento

De toda a dor, de toda a mágoa obscura

Alcançasse o castelo da ventura

Na glorificação do pensamento.

Mas, ai de mim! Meu barco pequenino

Perdeu-se em meio à torva tempestade

Sem divisar a luz de qualquer porto;

E as minhas esperanças de menino

E os anelos de amor e mocidade

Naufragaram no grande desconforto.

SONHO INÚTIL

Em minha juventude estive à espera.

De um malogrado sonho superior,

- Esperança divina – que eu quisera

ver aureolada por um grande amor!

Mas não pude esperar quanto devera

Nos carreiros aspérrimos da dor,

Sem fé, que era os meus olhos a quimera

Do pensamento mistificador.

Meu erro foi descrer porque, deserto

O coração, somente acreditei

Na morte, o grande abismo – o nada incerto.

Oh! O maior dos enganos perpetrados!

Pois no meu sonho altíssimo de rei,

Achei a dor dos grandes condenados!

(Versos recebidos em Pedro Leopoldo a 22 de maio de 1935)

20

Morte

Longe do sentimento limitado

Da matéria em seus átomos finitos,

No limite de um mundo ignorado,

Celebra a morte seus estranhos ritos.

Hinos e vozes, lágrimas e gritos

Do Espírito, que outrora encarcerado

Contempla a luz dos orbes infinitos

Bendizendo a amargura do passado!

Ó morte, a tua espada luminosa,

Formada de uma luz maravilhosa

É invencível em todas as pelejas!...

És no universo estranha divindade;

Ó operária divina da verdade,

Bendita sejas tu! Bendita sejas!...

Cruz e Souza

(Soneto recebido em Pedro Leopoldo a 21 de julho de 1935)

Exortação aos espíritas

Uni-vos sob a paz, uni-vos sob a crença,

Ó argonautas do ideal, arautos da esperança!...

Que se realize agora o sonho da bonança!...

Como os pães do Senhor que a fé se espalhe e vença.

Não temais combater, que o Mestre vos conduz

Com o sol espiritual que envolve o mundo

Sede na terra verde e augusta do cruzeiro

Os soldados do amor, seareiros de Jesus!

Abílio Guerra Junqueiro

(Versos recebidos em Belo Horizonte a 21 de julho de 1935)

21

Uma palavra à Igreja

A igreja antigamente era uma luz dourada

Que enchia os corações de paz e de esplendor,

Sublime manancial, fonte viva do amor,

Jorrando sob o sol de mística alvorada.

A palavra da fé caia como um luar

De esperança divina, esplendorosa e doce,

Sobre as dores cruéis, mas tudo transformou-se

Quando Pantagruel apareceu no altar.

Então, desde esse dia, as dúlcidas lições

Do exemplo de Jesus, - o meigo Nazareno,

Sumiram-se no horror do lamaçal terreno,

No multissecular mercado de orações.

De Deus fêz-se um cifrão imenso, extraordinário,

Inventou-se o ritual de em Cristo estranho e nôvo

E fêz-se a exploração sacrílega do povo

Sôbre a tragédia santa. excelsa do Calvário.

Ó Igreja, esquece ao longe as indústrias da cruz,

Só o Amor é farol no humano sorvedouro,

Deixa ao mundo infeliz as camisas-fortes de ouro

E volta enquanto é tempo aos braços de Jesus!...

Abílio Guerra Junqueiro

(Poesia recebida em Pedro Leopoldo em 14 de agosto de 1935)

22

Carne

Algema tenebrosa é a carne louca,

Onde o espírito, em lágrimas, se prende

Perambulando como um triste duende,

Bebendo o pus das fístulas da boca.

Viver entre os sentidos incompletos,

Na existência das coisas fragmentárias,

Começando nas dores solitárias,

Da vida melancólica dos fetos.

Vaso de tegumentos e de humores

É o corpo, imagem viva do defunto,

O miserabilíssimo transunto

Das condições mais tristes e inferiores.

Desprezar toda a luz, radiosa e viva

Para viver na carne é descer quase

Da consciência divina à horrenda fase

Da irracionalidade primitiva.

Carne!... Nossa amargura original,

Antes sobre o planeta nunca houvesse

O princípio ancestral da tua espécie,

Nos mistérios da vida universal...

Augusto dos Anjos

(Versos recebidos em Pedro Leopoldo a 25 de setembro de 1935)

23

O Monstro

Vi um monstro pairando sobre a Terra,

Como um corvo de garras infinitas,

Cobrindo multidões tristes e aflitas:

Visão de luto e lágrimas que aterra!

Vi-o de vale em vale, serra em serra,

E disse: - “Quem és tu que abre e excitas

Os pavores e as cóleras malditas?”

E o monstro respondeu: - “Eu sou a guerra!

Não há forças no mundo que me domem,

Sou o retrato fiel do próprio homem,

Que destrói, luta e mata e vocifera!

Venho das trevas densas da voragem,

Dos abismos de dor e de carnagem

Para mostrar ao homem que ele é fera!”

Antero de Quental

(soneto recebido a 10 de outubro de 1935)

24

Prece de Natal

Senhor, desses caminhos cor de neve,

De onde desceste um dia para o mundo,

Numa visão radiosa, linda e breve

De amor terno e profundo,

Das ampliações augustas dos espaços;

Do teu Natal de eternos esplendores,

Abriga nos teus braços

A multidão dos seres sofredores!...

Que em teu nome

Receba um pão o pobre que tem fome

O trapo o nu, o aflito uma esperança,

Que em teu Natal a Terra se transforme

Num caminho sublime, santo e enorme

De alegria e bonança!

Apesar dos exemplos da humildade,

Do teu amor a toda a humanidade,

A Terra é o mundo amargo dos gemidos.

De tortura, de treva e impenitência.

Que a luz do amor de tua providência

Ampare os seres tristes e abatidos

E em teu Natal, reunidos, nós queremos,

Mesmo no mundo dos desencarnados,

Esquecer nossas dores e pecados,

Nos afetos mais doces, mais extremos,

Reviver a efeméride bendita,

Da tua aparição na Terra aflita,

Unir a vossa voz à dos pastores,

Lembrando os milagrosos esplendores

Da estrela de Belém,

Pensando em ti, reunindo-nos no bem,

Na mais pura e divina vibração,

Fazendo da humildade

Nosso caminho de felicidade,

Estrada de ouro para a perfeição!

Carmem Cinira

(recebida em Pedro Leopoldo em dezembro de 1935)

25

Sombra

Quem só tem alma para oferecer

No mundo, é um coração ermo e faminto...

A incompreensão é amarga como absinto,

Roubando a vida, envenenando o ser.

Todo o mal do idealismo é conhecer

As forças antagônicas do instinto

No coração – vesúvio nunca extinto –

Insaciado no amor e no prazer.

Todos aqueles que me conheceram

Na senda da ilusão e fantasias,

Chorem comigo pelo que sou!

Sou a sombra dos sonhos que morreram,

Contemplando nas ruínas mais sombrias

O meu castelo que se espedaçou.

Hermes Fontes

(Soneto recebido em Pedro Leopoldo a 24 de julho de 1935)

26

Vozes da Morte

No mundo para vós ainda impreciso,

Que a ciência da Terra não pondera,

Eu via a morte, em forma de quimera,

Como um anjo de dor, vago e indeciso.

E murmurei: - “Ó morte, eu bem quisera

Que me desses no nada um paraíso!...

Por que, anjo na dor, se faz preciso

Da tua espada que nos dilacera?”

E ela disse: - “Sou a própria vida errante,

Vida renovadora e triunfante

Que tudo envolve em luz resplandecente,

Para que eu leve a alma à glória eleita

De ser pura e sublime, alva e perfeita,

É preciso lutar eternamente!”

Antero de Quental

(soneto recebido em Pedro Leopoldo)

27

Nossos Mortos

Os que se vão nas mágoas e na poeira

Dos caminhos da morte soterrados,

Levam consigo a imagem derradeira,

A visão dos seus mortos bem amados.

Mortos que ai ficaram na canseira,

Nos trabalhos do mundo acorrentados,

Padecentes de dor e de cegueira

Nos maiores tormentos flagelados...

Aqueles que amei nunca os esqueço,

É por eles que sofro e que padeço

Numa longa saudade introduzida;

Eu os espero na luz da eternidade,

Mas, ó seres que eu amo, esta saudade

É o cinamomo em flor desta outra vida!...

Alphonsus de Guimarães

(soneto recebido em Pedro Leopoldo)

28

Chico Xavier responde a três delicadas perguntas

de um estudioso em assuntos financeiros

Pedro Leopoldo, 19 – (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Enquanto aguardamos a próxima sessão dos irmãos Xavier, enviaremos uma ou duas das demonstrações mais notáveis, que nos vão chegando às mãos, da mediunidade de Chico Xavier.

Hoje ocupar-nos-emos do seguinte: o Sr. Francisco Teixeira da Costa, gerente do Banco Agrícola em Sete Lagoas, visita, de quando em quando, em Pedro Leopoldo, parentes e amigos a que aqui possui.

De uma dessas vezes, o Sr. Teixeira da Costa, através das palestras, teve a atenção chamada para o caso Chico Xavier.

Estudioso de assuntos econômicos e financeiros, aquele senhor, com a mesma intenção de teste que observamos em outros detalhes de nossa reportagem, mostrou o desejo de fazer ao jovem “médium” uma consulta relativa aos problemas que o preocupavam.

A Economia dirigida é um erro?, Etc...

Posto em contacto com Chico Xavier, o Sr. Teixeira da Costa, já à noite, deixou-lhe em mãos as três proposições seguintes:

“I,– Dado o aumento da população mundial e a escassez do ouro necessário à circulação, a socialização do sistema monetário, tendo por base certa percentagem da exportação de cada país conseguiria, pela emissão naquela base, regular o fenômeno da troca?

II – Atendendo a que, na vida, econômica, interessando a produção a três classes – Estado, Capital e Trabalho – em favor destas pode ser regulada a circulação, emitindo-se certa percentagem na base do valor da produção exportável, emissão que será regulada pela estatística, a fim de aumentar ou diminuir automàticamente o regime da circulação, evitando-se inflação ou escassez de numerário?

III – A economia dirigida é um erro científico, que embaraça o progresso econômico dos povos?”

29

Não é apenas o ouro a alma da emissão

Chico Xavier acolheu as perguntas e prometeu que nessa mesma noite, recolhendo-se à casa, consultaria a respeito os seus amigos e protetores do Astral.

Dito e feito.

As respostas foram conseguidas nessa noite; e, na manhã seguinte, o senhor Teixeira da Costa as recebia em Sete Lagoas, para onde se retirara logo após haver entregue ao “médium” as suas indagações.

Conseguimos do aludido banqueiro a vista do original dessa comunicação para dela tirarmos uma cópia.

Eis as respostas dadas às proposições do Sr. Teixeira da Costa, acima citadas, pelo “médium” de Pedro Leopoldo, “doublé” do caixeirinho bisonho e simplório que, na sua atividade normal, não saberia certamente resolver os problemas da prosperidade nem da venda modesta de “seu” Zé Felizardo.

Para a primeira proposição: “Dado o aumento da população mundial e a escassez de ouro, etc.”, a resposta foi esta:

“A escassez do ouro necessário à circulação é manifesta em todos os mercados internacionais; porém não apenas o ouro é a alma da emissão.

A produção de cada país equivale a esse ouro, produção que significa, em seus valores intrínsecos, o lastro regulador dos fenômenos da fazenda nacional e o qual circula nas veias do comércio como elemento responsável das expressões fiduciárias; e a socialização do sistema monetário, tendo por base a percentagem da exportação dos produtos de cada país, conseguirá, pela emissão nessa base, regular todos os fenômenos da troca”, desaparecendo integralmente o problema do aumento da população mundial, porquanto as condições climatológicas mantenedoras das condições de habitabilidade do planeta estão completamente alheias às cláusulas e cogitações dos economistas e sociólogos em geral.”

30

Uma questão de política administrativa

A segunda proposição: “Atendendo-se a que, na vida econômica, interessando a produção a três classes – Estado, Capital e Trabalho – em favor destas pode ser regulada a circulação, etc...”, teve a seguinte resposta:

“A circulação poderá ser perfeitamente regulada, emitindo-se certa percentagem na base do valor da produção exportável, “evitando-se inflação ou escassez de numerário”, em benefício das três classes, quando a socialização dos seus interesses for concentrada em uma só finalidade, que significa o seu bem-estar.

Essa questão, porém, está afeta à política administrativa, a qual, infelizmente, só agora se vem convencendo da necessidade do espírito de cooperação, desviando-se das criações endógenas e da pseudo-onisciência legislativa dos parlamentares.

Quando a mentalidade geral amadurecer para a compreensão dos fenômenos econômicos, a emissão será regulada de maneira a se aumentar ou diminuir automaticamente o regime da circulação, porque o Capital deixará de ser a caixa-forte de emolumentos, que tem representado: o Trabalho desenvolverá a sua atividade produtora sob a esclarecida influência da técnica profissional, que operará a especificação dos valores individuais, e o Estado se experimentará fortalecido com uma nova ética política, a qual, com o espírito de colaboração, solucionará satisfatória e devidamente todas as questões de ordem administrativa.

31

A Economia dirigida não é um erro

Por fim, a terceira indagação: “A economia dirigida é um erro científico que embaraça o progresso econômico dos povos?”

A resposta veio assim:

“A economia dirigida não é um erro. Todos os obstáculos à normalidade da vida econômica dos povos são oriundos da ausência de senso administrativo dos governos, que enveredam pelo terreno da política facciosa, prevalecendo as diretrizes pessoais de personalidades ou grupos em evidência. Frequentemente, a economia está confiada a mentalidades que não especializam os seus conhecimentos a seu respeito e cujos programas de ação constituem singularíssimos fenômenos teratológicos no campo da fazenda pública, os quais medram entre as coletividades ao bafejo de inqualificáveis protecionismos.

É tempo da competência administrativa recrutar entre os abalizados técnicos do assunto os conselhos da economia nacional que funcionarão como forças reguladoras dos seus fenômenos, solucionando todos os problemas financeiros relativos à produção, repartição e consumo. Cases conselhos que devem ser constituídos por técnicos especializados na economia política, não desprezando os benefícios a que promanam do espírito cooperativista, ouvirão a voz das classes trabalhadoras e produtoras em geral, sondarão as necessidades de cada uma, veiculando as suas proposições e defendendo os seus interesses nos parlamentos legislativos, investindo a política na posse da emetropia administrativa que frequentemente lhe falta.

Faz-se mister que as classes se organizem, representando-se perante as administrações por intermédio dos seus expoentes mais dignos, porque o governo nunca confabulou com os indivíduos e sim com as classes, as quais devem sobrepor às arbitrariedades das facções a opinião dos interesses gerais generalizando-se assim o regime da consulta e do inquérito.

Quando a economia for dirigida por esse corpo de mentalidades proficientes e conscienciosas, que deverão permanecer alheias aos conciliábulos de individualidades que transformam às vezes os recintos parlamentares em verdadeiros palcos de teatro jurídico onde se exibem os profissionais da palavra, constatar-se-á que a economia deve, ser dirigida com superioridade, equivalendo essa direção que já se encontra rudimentarmente em atividade na Europa moderna, por um índice de novo ciclo de educação política, o qual traz em si a mais profunda significação histórica.”

32

A síntese é a alma da verdade

Ao pé das respostas acima o “médium” grafou esta nota:

Perguntei ao espírito se não desejava escrever mais com respeito ao assunto, respondendo-me o seguinte:

“A síntese é a alma da verdade. Prolixidade não significa lógica.

Em buscando explicar as questões formuladas, o nosso objeto é apenas integrar o homem no conhecimento das suas possibilidades próprias, porquanto a chave da solução de todos os problemas que interessam ao progresso humano, o “quid” da realização dos seus superiores idealismos reside nas mãos da humanidade mesma.

Oferecermo-la daqui seria derrogarmos o valor da iniciativa pessoal e nem isso poderíamos realizar porque também estamos a caminho da verdade infinita, na estrada ascensional da evolução, interessando-nos outrossim problemas que condizem com a nossa existência espiritual. Sugerimos apenas em razão das nossas experiências passadas.

O homem não aguarde, porém, dos elementos estranhos ao seu meio-ambiente a decifração das suas questões devendo apenas buscar fora do seu meio a força impulsiva dos ideais realizadores.

A lei suprema que abrange a universalidade dos seres é a do arbítrio independente. Obrigar individualidades e organizações a determinadas normas de conduta seria a escravização injustificável e podeis observar, mesmo em vosso mundo, como a liberdade caminha dia a dia para concepções mais avançadas.

Para a Causa geradora da vida não existe força compulsória; há ordem. Não há confusão de autoridade ou poder; existe anarquia.

Todos os fenômenos, em geral, são dirigidos por atividade mística, inacessível aos vossos juízos transitórios.

Fugindo dos temas temporários da política, o homem necessita convencer-se de que a única cousa real da vida é a sua alma. Tudo o mais que o rodeia reveste-se de caráter de transitoriedade.

O espírito encarnado atualmente é um estudante longe dos seus penates.

Todavia, a escola evoluirá com ele, transformando-se no decorrer dos tempos em berço de mestres ilustres aptos a lecionar nos educandários do porvir.

O homem conhecerá Deus, conhecendo-se, porquanto pode assimilar e adaptar a vida, mas não pode criá-la; pode, cientificamente, alcançar ápices inimagináveis; poderem, somente no papel de examinador de tudo quanto está criado, sondando efeitos e descobrindo leis que se conservavam desconhecidas.

A causa dessas leis produtoras de variados fenômenos para ele se encontra sempre obscura e alheia aos seus métodos objetivos de investigação.

Até hoje, somente a fé, baseada na razão, tem podido, na sua extraordinária capacidade de ressonância, corresponder-se com os planos espirituais através da sintonia de vibrações psíquicas; porém, pouco a pouco, a ciência humana coroará a sua obra com o conhecimento dessa Causa – que é DEUS.

Joaquim Pedro d’Oliveira Martins

(Recebida em Pedro Leopoldo em 25 de maio de 1935)

33

UMA ORIENTAÇÃO POLÍTICA PARA O BRASIL NAS PÁGINAS PSICOGRAFADAS DE CHICO XAVIER

Ainda a democracia - As leis são boas, mas os homens são maus... Patriotismo e coletividade

Pedro Leopoldo, 8 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – De acordo com o que adiantávamos ontem, iniciamos hoje a divulgação de respostas colhidas do Além pelo “médium”, e relativas às consultas selecionadas da vasta correspondência que lhe chegara desde o inicio da maior divulgação do seu caso.

Conforme já observamos, muitas das indagações, embora colhidas com a mesma e respeitosa delicadeza que as demais, foram postas de parte por estarem fora não só das possibilidades do “médium”, ou antes, de seus protetores, como também das altas cogitações de ordem moral e espiritual da doutrina.

Em torno da situação econômica do Brasil

A abertura das cartas era feita à noite, na residência do “médium” e este mesmo as lia e enunciava as consultas nas mesmas contidas.

Reunidas algumas perguntas admissíveis, a caixa da correspondência era posta de lado e o “médium” concentrava-se a seguir para a consulta aos protetores e amigos do espaço.

O repórter limitava-se a recolher as respostas porventura obtidas.

A primeira das consultas atendidas foi a seguinte:

Depois de algumas referências à mensagem de Emmanuel, publicada em nossas edições de 16 de maio último, e na qual o “guia” diz que “para o estado atual do Brasil não se enquadra outro regime fora da democracia liberal”, um missivista, talvez pouco simpático a esse mesmo regime, fez esta indagação:

“Como poderá o Brasil resolver a sua situação econômica dentro da democracia liberal?”

Somente fora do faccionismo, das lutas de clã...

A resposta de Emmanuel é pronta e coerente com o ponto de vista favorável à liberal democracia, já antes expendido. Revela ainda o “guia”, em suas considerações de agora, estar mais ou menos a par dos aspectos gerais da atual situação patrícia...

Eis essa resposta de Emmanuel:

“A República Brasileira necessita de forças vitalícias, no terreno político-administrativo, que predominem sobre suas instituições de caráter temporário.

Contrariando o facciosismo, as lutas de clã, existiam no Brasil Império os grandes poderes centralizados.

É da formação de um poder como esse a que a República necessita, a fim de corrigir os baldões, os defeitos, a instabilidade da política administrativa.

As concepções avançadas da alma brasileira

O conjunto de leis brasileiras, os dispositivos constitucionais refletem a evolução moral dos habitantes das terras do Cruzeiro. Não só a nova carta política ultimamente promulgada – excetuando-se as incompreensíveis emendas religiosas – como a Constituição de 1891, são documentos de alto valor histórico e político, atestando as concepções avançadas da alma brasileira.

Os interesses dos chefes nunca são prejudicados

Temos porém a considerar no país o combate prejudicial dos partidos sob a ditadura dos mais implacáveis individualismos.

Os interesses dos chefes nunca são prejudicados. Sob o despotismo de sua vontade pessoalíssima estão os interesses da nação e das coletividades.

Uma aproximação necessária

Ora, nas condições atuais, não se enquadraria no país outro regime que não seja o da democracia. As experiências porém requerem uma salutar aproximação entre governantes e governados, e todo o individualismo deve desaparecer nos interesses gerais.

A questão é de homens, não de leis

A solução dos problemas das classes tem sido tratada com a mais acentuada ausência de tato pelos que dirigem o Estado. Os grandes desequilíbrios econômicos e o ceticismo de quantos vivem a esperar melhores dias para a nação são oriundos justamente dessa odiosa campanha personalista que infelicita, há muitos anos, as correntes políticas do país.

A questão é de homens e não de leis. As leis são boas e bastavam para controlar todos os fenômenos da vida nacional.

Faltam os cérebros e os sentimentos

Faltam os executores, os cérebros e os sentimentos.

Evite-se a expansão do interesse pessoal, as competições mesquinhas, a ambição de ganhos e domínios, os assaltos ao Tesouro Público, o exibicionismo e cultive-se, acima de tudo, o interesse da coletividade. Basta isso. A coletividade é a nação e não se compreende o patriotismo fora dessas normas.

Questão puramente administrativa

Vê-se pois que todos as problemas econômicos estão enfeixados nas questões de ordem administrativa.

Nestes tempos de confusão em que a crise se manifesta dentro de todas as modalidades, Deus proteja o Brasil, inspirando àqueles que o governam e concedendo a todos os seus filhos paz e prosperidade.

Emmanuel.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 18 de junho de 1935)

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Poderá a ciência substituir a religião?

“ACIMA DAS COISAS TRANSITÓRIAS DO MUNDO, HÁ UMA SABEDORIA INTEGRAL E UMA ORDEM INVIOLÁVEL” – RESPONDE EMMANUEL, ACONSELHANDO OS VIVOS A QUE GUARDEM O PATRIMÔNIO DE SUAS CRENÇAS.

Pedro Leopoldo, 9 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Enviamos hoje mais três das respostas colhidas por Chico Xavier, dos seus protetores do Além, a relativas a indagações enviadas por carta ao “médium”.

A segunda indagação refere-se ao hábito da cremação de cadáveres, adotado por muitos povos do Oriente, e diz:

“Sentem os desencarnados os efeitos da cremação de seus despojos mortais?” E a terceira é esta:

“Qual a impressão do homem no instante da morte?”

Em torno de uma velha animosidade

Eis como Emmanuel, com aquele admirável poder de síntese que caracteriza essas mensagens, respondeu à primeira das indagações acima:

‘Creio que, no futuro, viverá a humanidade fora desse ambiente de animosidade entre a ciência e a religião; julgo, contudo que em nenhuma civilização pode a primeira substituir a segunda. As suas antinomias serão eliminadas dentro do estudo, da análise, do raciocínio.

Nos tempos modernos, mentalidades existem que pugnam pelo desaparecimento das noções religiosas do coração dos homens. Pede-se uma educação sem Deus, o aniquilamento da fé, o afastamento das esperanças de uma outra vida, a morte da crença nos poderes de uma providencia estranha aos homens. Essa tarefa é inútil. Os que se abalançam a sugerir semelhantes empresas podem ser dignos de respeito e admiração pelos seus méritos científicos, mas assemelham-se a alguém que tivesse a fortuna de obter um oásis entre imensos desertos. Confortado e satisfeito dentro da sua felicidade ocasional, não vê as caravanas sem número de infelizes, transitando sobre as areias ardentes, cheias de sede e de fome’.

Experiência que fracassa

O sentimento religioso é a base de todas as civilizações. Preconiza-se uma educação pela inteligência, concedendo-se liberdade aos impulsos naturais do homem. A experiência fracassaria. No dia em que a evolução dispensar o concurso religioso, a humanidade estará unida a Deus pela ciência e pela fé então irmanados.

A Ciência e suas contradições:

Atestado da fabilidade humana

Em cada século o progresso científico renova sua concepção acerca dos mais importantes problemas da vida.

Raramente os verdadeiros sábios são compreendidos por seus contemporâneos. Se as contradições dos estudiosos são o sinal de que a ciência progride sempre, elas atestam igualmente a falibilidade humana e a fraqueza e inconsistência dos seus conhecimentos.

O sublime legado

Diz-se que o pensamento religioso é uma ilusão. Tal afirmativa carece de fundamento. Nenhuma teoria científica, nenhum sistema político, nenhum programa de reeducação podem roubar do mundo a idéia de Deus e da imortalidade do ser, inata no coração do homem.

As ideologias novas não conseguirão eliminá-la também.

A religião viverá entre as criaturas, instruindo e consolando, como um sublime legado.

Religião e religiões

O que se faz preciso, em vossa época, é estabelecerdes a diferença entre religião e religiões.

A religião é o sentimento divino que prende o homem ao Criador. As religiões são as organizações dos homens, falíveis, imperfeitas como eles próprios; dignas de todo o acatamento pelo sopro da inspiração superior que as fez surgir, são como gotas de orvalho celeste misturadas com os elementos da terra em que caíram. Muitas delas, porém, estão desviadas do bom caminho pelo interesse criminoso e pela ambição lamentável dos seus expositores; mas a verdade um dia brilhará para todos, sem necessitar da cooperação de nenhum homem.

Acima de tudo estão a sabedoria integral

e a ordem inviolável

Cabe-nos pois aos que depois da morte já não seguirem qualquer ação para o afastamento de dúvida, exclamar para os que crêem e esperam :

“O irmãos nossos que confiais na Providência, dentro da escuridão do mundo!... Do portal de claridades do Além-Túmulo, nós vos estendemos as mãos fraternas!... Nossa palavra corre sobre o mundo como um poderoso sopro de verdades! Dentro do Universo mil laços nos unem. Sobre as ruínas, sobre os escombros das civilizações mortas e dos templos desmoronados, nós viveremos eternamente. Uma justiça soberana, íntegra e misericordiosa preside aos nossos esforços pelo bem coletivo.

Guardai convosco o sagrado patrimônio das crenças, porque acima das cousas transitórias do mundo há uma Sabedoria Integral, uma Ordem inviolável. Lutemos pois, com destemor e coragem, porque Deus é justo e a alma é imortal!

Emmanuel

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Só ao fim de certo prazo deverá ser feita a cremação

À segunda das perguntas acima, a relativa à cremação de cadáveres, o “guia” assim respondeu:

“Geralmente, nas primeiras horas do “post-mortem”, ainda se sente o espírito ligado aos elementos cadavéricos.

Laços fluídicos, imperceptíveis ao vosso poder visual, ainda, se conservam unindo a alma recém-liberta ao corpo exausto; esses elos impedem a decomposição imediata da matéria. E, por esta razão, na maioria dos casos o espírito pode experimentar os sofrimentos horríveis oriundos da cremação, a qual nunca deverá ser levada a efeito antes do prazo de cinqüenta horas após o desenlace. A cremação imediata ao chamado instante da morte é, portanto, nociva e desumana.

Elementos de vida que ficam

por algum tempo no cadáver

As vezes, segundo a natureza das moléstias que precedem a desencarnação, existem ainda no cadáver inúmeros elementos de vida: daí nasce a possibilidade de, usando de recursos vários e reagentes, a ciência fazer um “morto” voltar à vida.

Vê-se pois que o espírito desencarnado, nas primeiras horas do Além-Túmulo, pode sentir dentro do quadro de suas impressões físicas, todas as ações a que seu corpo abandonado seja submetido

Emmanuel.

Tal vida, tal morte

A terceira pergunta sobre a “impressão do homem no momento da morte” foi respondida nestes termos:

– A impressão da alma no momento da morte varia com os estados de consciência dos indivíduos.

Para todas as criaturas, porém, manifesta-se nesses instantes a bondade divina. Os moribundos têm invariavelmente a assistência dos seus protetores, e amigos invisíveis que os auxiliam a se libertar das cadeias que os prendem à vida material. Entre os homens não existe a necessidade de alguém que auxilie os recém-nascidos a se desvencilharem do cordão umbilical?

As sensações penosas do corpo são mais ou menos acordes com a moléstia manifestada. Elas porém passam e nos primeiros tempos, no plano espiritual, vai a alma colher os frutos de suas boas ou más obras na superfície do mundo.

O adágio popular: ‘Tal vida, tal morte’ vai aí receber então a sua sanção plena.

Emmanuel.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 21 de junho de 1935)

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O feminismo em face do código transitório dos homens

As desigualdades sociais

A evolução dos povos e seus códigos

Livre Arbítrio

Só é criminoso quem quer

Mais três respostas de Emmanuel.

“A mulher não precisa masculinizar-se e sim educar-se”

Pedro Leopoldo, 11 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – O feminismo, logo se vê, não podia escapar às cogitações dos consulentes de Chico Xavier. Não fosse essa uma das maiores preocupações do próprio século.

As indagações que surgem, a respeito, do seio da correspondência, são várias. Há uma, porém, que constitui, daquelas, uma síntese:

– Qual a opinião dos espíritos sobre o feminismo?

Simples, direta, sem malícia nem animosidade.

E assim também é a resposta dada pelo guia e protetor do “médium”.

Contra a masculinização espetaculosa

Na resposta, não está explícito pròpriamente um pronunciamento geral dos “espíritos” como pede a pergunta. Como porém o guia não faz restrição alguma às suas palavras, parece-nos que podemos aceitá-las como um ponto de vista coletivo. E este, como se verá, não é de todo favorável ao sentido tomado pelas chamadas conquistas feministas no panorama contemporâneo.

Eis como pensam os espíritos sobre essa questão, segundo a resposta assinada por Emmanuel:

– A mulher deve colaborar com o homem, de forma admissível ao seu sexo, nas variadas esferas de sua atividade. Mas não compreendemos como legítimo esse movimento de masculinização, espetaculosa, preconizada por inúmeros orientadores do mau feminismo, os quais iludem a mulher quanto às suas obrigações no seio da coletividade.

O homem e a mulher, dependendo um do outro, são elementos que se completam para a consecução da obra divina.

Não precisa masculinizar-se e sim educar-se

A mulher não precisa masculinizar-se. Precisa educar-se dentro da sua feminilidade.

O problema do feminismo não é o da exclusão da dependência da mulher: deve ser o da compreensão dos seus grandes deveres. Dentro da natureza, as linhas determinadas pelos desígnios insondáveis de Deus não se mudam sob a influência do limitado arbítrio humano; e a mulher não pode transformar o complexo estrutural do seu organismo.

Os deveres mais sagrados

Homem e mulher, cada um deles tem obrigações nobilíssimas a cumprir nas posições diferentes em que foram colocados dentro do planeta. Aliás, na humanidade, a mulher, por sua profunda capacidade receptora, guarda os deveres mais sagrados diante das leis divinas.

Todas as questões feministas se reduzem a um problema de educação mais do que necessária.

Um problema que foge aos códigos

transitórios dos homens

Neste século, as experimentações tocam ao auge. A mulher não podia escapar a essa onda de transições. Todavia, faz-se preciso conter o delírio, a alucinação de mentalidades apaixonadas, nos excessos de idealismo, e que se voltam para o campo da publicidade, falhas no conhecimento imprescindível dai realidades da vida, sem saber o que desejam e sem nada trazer de melhor aos que se formam para as lutas da existência, intoxicando o espírito da juventude. As idéias são forças que, como a eletricidade, arruínam o que encontram na sua passagem, quando não são devidamente controladas. Toda a força necessita de educação para se expandir com benefícios.

O problema da mulher, antes de ser estudado dentro dos códigos transitórios dos homens, precisa ser resolvido à luz do Evangelho.

Emmanuel.

A evolução dos povos significa a

evolução dos seus códigos

O que dissemos em relação ao feminismo, poderíamos repetir quanto às questões sociais em geral: as indagações são muitas a respeito.

Uma dessas é a seguinte;

“Que pensam os espíritos das desigualdades sociais?”

A indagação é das que convidam aos debates longos e às demoradas dissertações.

Emmanuel, porém, vale-se aí mais uma vez do seu admirável poder de síntese para responder:

“O problema das desigualdades sociais afronta os pensadores desde a aurora dos tempos”. É preciso, contudo, considerar-se que se a pobreza luta com infortúnios e adversidades, a riqueza e a autoridade implicam deveres muito sagrados diante das leis humanas e divinas dos quais decorrem responsabilidades temíveis para quantos não os saibam cumprir.

As classes existirão sempre – o dever de solidariedade

Em tese, as classes existiram e existirão sempre. O que, porém, deve preocupar os sociólogos modernos é estabelecer a solidariedade entre elas, a conciliação de seus interesses, a multiplicação urgente das leis de assistência social, únicas alavancas mantenedoras da ordem.

Medida imposta pela evolução geral

A evolução dos povos significa a evolução de seus códigos.

Cremos, portanto que em futuro próximo os fenômenos sociais serão controlados com mais critério na esfera político-administrativa como medida necessária imposta pela evolução geral.

Emmanuel.

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O Livre Arbítrio e a fatalidade

“Está o homem subordinado ao livre arbítrio ou à fatalidade?”

A essa pergunta assim respondeu Emmanuel:

“O homem está subordinado ao seu livre arbítrio; mas sua existência está também submetida a determinadas circunstâncias de acordo com o mapa de seus serviços e provações na Terra, e delineado pela individualidade em harmonia com as opiniões dos seus guias espirituais antes da reencarnação.

As condições sociais, as moléstias, os ambientes viciosos, o cerco das tentações, os dissabores, são circunstância da existência do homem. Entre elas porém está a sua vontade soberana. Pode nascer num ambiente de humildade e modéstia, procurando vencer pela perseverança no trabalho e triunfando das deficiências encontradas; pode suportar as enfermidades com serenidade de ânimo e resignação; pode ser tentado de todas as maneiras, mas só se tornará um criminoso se quiser.

O elemento dominante

Na esfera individual o livre arbítrio é pois o único elemento dominante. A existência de cada homem é resultante de seus atos e pensamentos.

O que se faz necessário é intensificar cada um sua educação pessoal.

Um dos grandes erros do homem é não se conformar com sua situação de simples hóspede de um mundo que não lhe pertence.

Reconhece-se, o quanto é passageira sua permanência na Terra, evitaria a influência nefasta do egoísmo e não agrilhoaria o seu coração ao cárcere de desejos inconcebíveis, causas naturais de muitos de seus maiores sofrimentos.

Emmanuel.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 21 de junho de 1935)

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A crise espiritual, fonte dos males atuais

“MAIS VERDADE DO QUE DINHEIRO,

MAIS LUZ DO QUE PÃO”

Pedro Leopoldo, 14 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Muitas são as consultas que em nada vão além de preocupações puramente terrenas. E isso já nos serviu a observar como os espíritos, no caso, falando pela palavra de Emmanuel, procuram sempre fugir àquele exclusivismo material, conseguindo, não raro, estabelecer uma relação entre os problemas humanos que estejam inteiramente à margem de sua vida espiritual e as cogitações que pairam e os remédios que possam vir dos altos planos onde, segundo a doutrina, vivem os Amigos do Espaço.

Tal constatação parece-nos bastante significativa para os que convictamente lutam entre as contingências da Terra, pois vem, de certa forma, enobrecer um pouco certos detalhes mais tìpicamente terrenos da existência, os quais tanto desdém merecem de certos credos, apesar do muito de dores que deles, detalhes, às vezes resultam para os homens.

E isto sempre conforta um pouco aos campeadores convictos de vida em que estamos, da única que percebemos sem nenhuma dúvida, vindo afinal de contas sempre dar um sentido mais digno àquilo que Fradique chamou “a escura disparada para a morte” e que, para o personagem de Shakespeare, não passaria de uma história tola contada por um idiota...

A verdadeira crise do mundo é uma só

– A de ordem espiritual

A pergunta e a resposta que damos a seguir enquadram-se, sem dúvida, nas nossas considerações de acima.

Indagara o missivista:

– As nações estão vivendo um momento angustioso no terreno econômico, qual a causa dessa crise que avassala o mundo?

Emmanuel respondeu assim:

– Estão acertadas no seu julgamento, quantas encontram, nas crises atuais, as modalidades várias de uma crise única – a de ordem espiritual.

Há por todo o canto o fermento revolucionário. Falece à política autoridade para organizar um programa que corresponda aos anseios gerais. A ciência, a cada passo, se encontra num turbilhão de perplexidade. As religiões criaram um Deus antropomórfico, pondo de lado o “reino do céu” para alcançarem, por quaisquer meios, o “reino da terra.”

A alma humana, dentro dessas vibrações antagônicas, perde-se num emaranhado de conjeturas e de sofrimentos.

Vícios do pensamento

Vícios dos costumes

Vícios da alimentação

Essa inquietação geral, a ausência de paz nos corações, estabelecem a crise avassaladora que abrange todos os domínios da atividade humana.

As classes são dominadas pelos desvios de toda a ordem; vícios do pensamento, vícios dos costumes, vícios da alimentação. Que se poderia fazer para que a ordem se restabelecesse para que o bem-estar social sé efetivasse?

Far-se-ia mister pirogravar, no coração de cada homem, a legenda célebre de Delfos.

Os anseios e a luta tenaz do espírito

como há dois mil anos

Observa-se em todos os setores dos trabalhos do mundo uma luta tenaz dos anseios do espírito que almeja paz e libertação.

Há quase dois milênios, quando a civilização, simbolizada no poderio romano, se entregava a todos os desregramentos e desvarios, fêz-se ouvir a voz consoladora do Mestre, o Salvador esperado por muitos séculos de ansiedade e profecias.

Sob a sua divina influência, uma transformação radical se operou dentro da civilização trabalhada pelos hábitos perniciosos. A sua vida sacrificada foi legada ao homem como o sublime modelo; sua palavra foi deixada no mundo como a lei áurea de liberdade das almas.

A culminância de hoje

Passado porém o arrebatamento da fé, novamente os abusos da maldade humana se fizeram sentir por toda a parte, e dos quais se observa, na atualidade, a culminância.

O apelo aos sentimentos da fraternidade cristã

Todavia, ainda é para Jesus que os homens necessitam voltar os seus olhos. A missão do moderno espiritualismo é trazer a chave dos conhecimentos acerca dos seus grandes e inolvidáveis ensinamentos. Enquanto não compreenderem os homens os, seus deveres de fraternidade cristã, não há possibilidade de se evitarem as crises que assoberbam o mundo.

Mais verdade do que dinheiro, mais luz do que pão

A guerra continuará amortalhando os corações; os artigos de primeira necessidade,serão destruídos pela falsa diretriz econômica de alguns países, quando muitos choram a falta de pão ; a confusão prosseguirá dentro de todos os seus matizes até que a crise espiritual seja solucionada pelo esforço do homem, a fim de que a luz se faça no seu coração. O que se depreende pois do confucionismo hodierno é que os homens necessitam mais de verdade que de dinheiro, de mais luz espiritual que de pão.

Emmanuel

(Recebida em Pedro Leopoldo a 24 de junho de 1935)

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Emmanuel fala-nos sobre a Medicina dos homens e o problema angustioso das guerras.

- A máxima de Juvenal continua de pé - A necessidade, para extinção das guerras, da renovação das diretrizes econômicas dos povos - O imperativo da mais intensa educação pessoal e coletiva – Guerra, consequencia natural dos defeitos das leis humanas

Pedro Leopoldo, 16 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Ocupar-nos-emos hoje de algumas respostas dadas por Emmanuel a indagações a respeito de guerras e da medicina da Terra.

Sobre este último ponto a pergunta feita era esta:

“Como encaram os espíritos a Medicina da Terra?”

O sagrado sacerdócio

Dados a atividade de certos “médiuns” que se dedicam à cura de males físicos, e os conflitos que, não raro, se estabelecem entre os processos da Medicina espírita e os da terapêutica terrena, a resposta apresenta-se interessante, sobretudo, pelo esclarecimento que, de certa forma dá, sobre a razão e as possibilidades daqueles métodos mediúnicos de cura e o benefício que deles porventura resulta para o doente.

Tal esclarecimento, entretanto, nós apenas o podemos deduzir da resposta, pois é digno de ressaltar-se que, nele, Emmanuel, ao contrário do que se poderia supor, não faz pròpriamente defesa alguma exclusiva da Medicina espírita. Limita-se a expor um ponto de vista sobre o problema dos mais terrenos, exaltando mesmo nessa esfera as atividades dos médicos da Terra, nas quais aponta um “sagrado sacerdócio.”

E detendo-se um momento em traçar a observação acima, o repórter não teve outro intuito que o de mais uma vez significar a isenção com que resolutamente se lançou nesta reportagem em torno do “médium” de Pedro Leopoldo.

Agora passemos à resposta.

Trabalho santificante e abnegação redentora

A resposta de Emmanuel à indagação acima é a seguinte:

“A Medicina no quadro das ciências é uma das maiores benfeitoras da humanidade; no seu seio não são poucos os espíritos que se têm dignificado pelo trabalho santificante e pelas abnegações redentoras.

Digna de todo acatamento é lícito esperar-se dela muito das realizações em favor dos que na Terra lutam e laboram pela conquista do aperfeiçoamento.

É uma questão de dar-se tempo ao tempo. Paulatinamente ela resolverá muitos dos mais intrincados problemas de microbiologia no seu objetivo de conservar a saúde humana.

É pena que os sistema medicinais se digladiem tanto na exposição de seus processos de cura; todos eles apresentam suas vantagens e o que é mais necessário a quantos aceitam os seus postulados é encararem sua posição como decorrente de um sacerdócio muito sagrado.

Micróbios e elementos de ordem espiritual

É verdade que grande número de moléstias constituem enigmas dolorosos para a ciência dos homens, não obstante o avanço dos compêndios nosológicos, É que os micróbios patogênicos se associam a elementos subtilíssimos de ordem espiritual.

Um problema, grandioso demais pela sua transcendência, afronta os conhecimentos científicos – o das provações individuais, necessárias ao aprimoramento psíquico de cada um.

Relacionando enfermidades do corpo e da alma

Daí se infere a vantagem que adviria para os processos medicinais - se a terapêutica espiritual estivesse sempre unida a quaisquer sistemas de cura. As enfermidades do corpo obedecem geralmente às enfermidades da alma; os tratamentos que a esta fossem aplicados o seriam em identidade de circunstâncias ao veículo das suas manifestações.

Aconselharíamos pois à Medicina em geral a intenficação dos processos magnéticos de cura, a sugestão e sobretudo a disciplina da mente, força central e coordenadora dos fenômenos vitais. A mente educada representa a maior fonte de auxílios a “es medicatrix”, elemento regenerador de todas as funções do organismo.

A MÁXIMA DE JUVENAL

E, em geral, secundando os esforços médicos, todos os homens deveriam ser fiéis observadores dos tratamentos preventivos, principalmente no tocante às questões da higiene, dos exercícios físicos, da ginástica respiratória, dos abusos da alimentação, dos desvios morais. A observância dos preceitos necessários seria eminentemente benéfica, portadora das melhores condições para a saúde do individuo e da coletividade.

Mais do que nunca se faz mister o estudo acurado do “Mens sana in corpore sano”.

Vê-se pois que, apesar da evolução do presente, não se pode prescindir das experiências do' passado. Nos tempos de Einstein e Marconi, ainda há necessidade da máxima antiga de Juvenal.

Emmanuel.

Estará o mundo livre das guerras?

Passemos às perguntas que se preocupam com a idéia da guerra.

Diz uma:

“Estará a humanidade livre das guerras?”

Eis a resposta do mentor:

“Não consideramos como definitivamente afastada do seio das nações a ação nefasta das guerras. Para tanto se faria mister que os homens, em geral, estivessem integrados no conhecimento dos seus deveres cristãos, o que não acontece. Por muito tempo ainda cremos que, infelizmente, a humanidade será perseguida pela guerra e pela coorte de seus infortúnios e desgraças; cremos que a sua extinção,se verificará somente depois de uma renovação radical nas diretrizes econômicas adotadas pela maior parte dos países, aliada ao sentimento de solidariedade e fraternidade universais que, segundo a educação necessária, deve ser o característico das gerações futuras.”

Conseqüência natural dos defeitos das leis humanas

Outra pergunta :

“A guerra obedece a um determinismo no plano da evolução?”

Resposta:

Crê-se que a guerra obedeça a leis deterministas; julgo porém que proferir semelhante conceito é muito. Ela é a conseqüência natural dos defeitos das leis humanas.

A necessidade imprescindível do momento do mundo é a solução do problema educativo. Faz-se precisa a educação pessoal e coletiva: da primeira decorre o progresso particular; da segunda a evolução do mundo e das suas leis.

Emmanuel.

(Recebida em Pedro Leopoldo a 25 de junho de 1935)

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O nacionalismo diante da lei da fraternidade

UNIVERSO – OBJETIVAÇÃO DO PENSAMENTO DIVINO

Pedro Leopoldo, 21 (Especial para O GLOBO, por Clementino de Alencar) – Numa das cartas enviadas a Chico Xavier, o missivista, considerando o conceito do nacionalismo em face das leis fraternas de que repetidamente fala Emmanuel, indaga:

“Se o nacionalismo multiplica as energias de um povo, parece entretanto que vai de encontro à lei da fraternidade. Como deveremos entendê-lo?”

DESEJOS E ENTUSIASMOS COMPREENSÍVEIS

Emmanuel assim responde a esse consulente:

"Compreendemos que se deva amar o pedaço de terra que nos viu nascer e compreendemos também o desejo de engrandecê-lo pelo trabalho, pela inteligência, pelo progresso, tornando-o digno da admiração dos outros. Aliás todas as concepções do verdadeiro patriotismo se enquadram no esforço de cada indivíduo em favor da evolução geral.

Fazer porém a apologia desses movimentos nacionalistas que, a pretexto de unificação e energia administrativa, operam a revivescência das autocracias de outrora, incentivando as guerras, provocando revoltas, coibindo o pensamento, é desconhecer as leis da solidariedade humana.

Aplaudir essas iniciativas que consideramos como atentatórias à lei fraterna que rege os mundos e as almas, seria cooperar para o desvirtuamento de todos os princípios da justiça e da ordem.

A mística nacionalista e o bem coletivo

Ninguém pode prever as conseqüências dessa mística nacionalista que, na atualidade, percorre o mundo de bandeirolas ao vento. Em todas as organizações políticas encontram-se concepções elevadas que interessam, de perto, a vida do Estado; mas todo e qualquer extremismo, dentro delas, é prejudicial ao bem coletivo.

O isolamento dos estados é desequilíbrio econômico

Cria-se a política dos governos fortes a fim de se incentivar as energias nacionais. Isola-se o Estado e, nesse isolamento, os grandes erros começam, porquanto os desequilíbrios econômicos são inevitáveis.

Os homens não podem fugir aos dispositivos do código da fraternidade universal. Cada individualidade dá o que possui, no problema das possibilidades e das vocações, no edifício do progresso coletivo. Uma traz a ciência, outra a arte, outra uma nova modalidade evolutiva.

Quando os países lavram a própria condenação

Dentro do mundo, são assim as nacionalidades, no tocante à produção. O que se faz necessário é regulamentar-se a troca dos produtos de cada uma. Ainda aí encontramos as lições de fraternidade da natureza.

Um país, pretendendo isolar-se no mundo, lavra a sua própria condenação.

O universo é o pensamento divino

em sua expressão objetiva

Não vemos portanto nenhuma legitimidade nesse exclusivismo antifraterno. Fìsicamente as nações representam somente o patrimônio da Humanidade. O universo é o Pensamento Divino em sua expressão objetiva. O plano de perfeição una absorve todas as coisas, impondo a lei de Fraternidade a todas as criaturas.

O amor de Deus envolve a criação infinita. Para a sua misericórdia, portanto, um país não vale mais do que outro; e os homens, sejam europeus, africanos, hotentotes, todos são irmãos.

Obras puramente humanas

As rajadas de guerras, de nacionalismos incompreensíveis, são obras humanas, envolvendo grandes e temíveis responsabilidades individuais e coletivas. Todavia, todos os feitos do homem na esfera da existência transitória são assinalados pelo seu caráter temporal. O que existe é a lei divina, é a alma imortal.

Evolução

A evolução pode ser lenta, mas é segura; pode ser combatida, mas será aceita em tempo oportuno.

A História é o vosso roteiro. Onde se encontram a Esparta e a Atenas de outrora? Que sopro destruidor pulverizou as esplendorosas civilizações que floresceram junto do Ganges, do Nilo, do Tigre, enchendo de vida as suas margens? Que força extra-humana soterrou a Roma poderosa da antiguidade, num aluvião de cinzas?... Onde se acham as suas galerias soberbas, cheias de patrícios e de escravos, as suas conquistas, os seus impérios faiscantes?...

A mão do processo evolutivo, invisível e misteriosa, que estancou as lágrimas da plebe sofredora, subjugou os tiranos assinalando as suas frontes com o estigma da maldição dos séculos.

Os ventos da noite sobre as ruínas...

O progresso vem trabalhando com sacrifícios e sobre as ruínas do Coliseu e de Spalato, choram amargamente os ventos da noite.

O poder de homem e de nações passa como a sua própria ação. Daí a necessidade da difusão do conceito imortalista da vida para que a humanidade concentre as suas possibilidades na aquisição dos tesouros espirituais, os únicos que se não dissipam no vórtice das mutações da matéria.

As promessas do espiritualismo

O moderno espiritualismo, explicando aos homens, em espírito e verdade, as lições trazidas ao mundo por Jesus, há de reparar os excessos do nacionalismo, integrando as criaturas no conhecimento das verdadeiras leis fraternas e extinguindo os ódios raciais que infelicitam a humanidade.

Os primeiros tempos no além, Céu e Inferno

“Como decorrem para o espírito desencarnado os primeiros tempos no Além-Túmulo? Haverá um céu e um inferno?”

Assim respondeu Emmanuel:

“A vida do espírito desencarnado nos primeiros tempos do “post mortem” reflete em geral as ações de sua existência terrena. Os que viveram mergulhados nos estudos dignificadores, encontrarão meios de desenvolvê-los dentro de sociedades esclarecidas que os acolhem, segundo os imperativos das afinidades espirituais.

Os que viveram no mundo, divorciados da prática do bem, submersos nas satisfações viciosas, sofrem naturalmente a conseqüência dos seus desvios. As concepções de céu e inferno estão pois simbolizadas no estado da consciência redimida no trabalho e na virtude ou escrava do vício e do pecado.

A sagrada esperança

A seguir surge esta pergunta em que se sente todo o anseio da alma humana que a desdita fez ficar enlutada, na Terra:

“ Desencarnando, encontra a alma os seres que amou e que partiram para o Além antes dela?”

A resposta de Emmanuel, confortadora:

“Nem sempre encontramos, ao despertarmos na existência do Além, todos aqueles que participavam das nossas dores júbilos da Terra”. Alguns entes caros parecem apartados ainda de nós para sempre. Todavia todos nós encontramos dentro da misericórdia divina quem nos elucide e guie, caridosamente, no Dédalo das incertezas e das dúvidas.

Dia virá porém em que teremos a consoladora certeza de encontrar todos pelos laços do Amor;e essa certeza constitui grande felicidade para todos os espíritos.”

Não há tempo determinado para

o intervalo das reencarnações

Outra pergunta:

“A reencarnação só se verifica depois de um determinado tempo de vida espiritual no Além?”

Resposta:

“Não há tempo determinado no intervalo das reencarnações da alma. No espaço compreendido entre elas, o espírito estuda, nos planos em que se encontra, as possibilidades do futuro, ampliando seus conhecimentos e adquirindo experiências a fim de triunfar nas provas necessárias.

De um modo geral, são as próprias almas que se reconhecem necessitadas de luz e progresso e pedem o seu regresso ao plano carnal. Contudo, em alguns casos como os de entidades cruéis, rebeldes e endurecidas, são os guias esclarecidos que se incumbem de preparar a reencarnação amarga e penosa, mas necessária.”

O sagrado patrimônio da vida

“Os que se desencarnam no período infantil são espíritos mais evoluídos, isentos de luta e provação na Terra?”

A essa pergunta assim respondeu o guia:

Alguns abandonam muito cedo o invólucro material, às vezes pelo motivo de serem obrigados somente a um pequeno resgate diante das leis que nos regem... Em sua generalidade, porém, esses acontecimentos estão enfeixados no quadro das provações precisas.

Os suicidas, por exemplo, depois de se evadirem da oportunidade que lhes foi oferecida para o resgate do seu passado, estão muitas vezes sujeitos a essas penas. Querem viver na Terra novamente, tragar corajosamente conteúdo amargo do cálix das expiações dos seus erros, porém experiências costumam fracassar, a fim de compreenderem eles o quanto é sagrado o patrimônio da vida que nos foi concedido por Deus.”

A reencarnação e as divergências espiritualistas

A seguir, o consulente fere este ponto de divergência das correntes espiritualistas:

“Por que existem, dentro do próprio Espiritualismo, os que aceitam e os que negam a reencarnação”?

Resposta:

“Semelhantes anomalias são devidas aos poderes de preconceitos prejudiciais e obsecantes.

Muitos cérebros e muitas coletividades são, pelos espíritos,encontrados já trabalhados por dogmas incompreensíveis, bastante cristalizados nas mentes.

Nossa tarefa, então, para orientá-los e esclarecê-los no terreno das verdades transcendentais, é muito lenta, para que não percamos os benefícios já feitos.

Não duvideis contudo de que em futuro próximo alcançaremos a unidade das teorias do espiritualismo hodierno.”

Outra pergunta sobre a reencarnação:

“Sempre existiu no mundo a idéia da reencarnação?”

Resposta:

“A idéia da reencarnação vem das mais remotas civilizações e só ela pode dar ao homem a solução dos problemas do destino e da dor. Todos os grandes filósofos dos tempos antigos a aceitavam e só nos últimos séculos a verdade da preexistência das almas foi obscurecida pelos argumentos sub-reptícios de quantos desejam conciliar inutilmente os interesses de ordem divina com as coisas passageiras do egoísmo do mundo.”

O espiritismo e as outras religiões

A última pergunta do gênero respondida por Emmanuel foi a seguinte:

“Qual o papel do espiritismo diante das outras religiões?”

Eis o que disse o guia:

“O espiritismo é o consolador prometido por Jesus aos homens o qual deveria aparecer quando a humanidade estivesse apta a compreender o, seu ensinamento velado nas parábolas.

Ele não vem destruir as religiões, mas uni-las e fortificá-las, desviando-as das concepções dogmáticas que lhes foram impostas pelo interesse e a ambição pròpriamente humanos.

Infelizmente, apesar de sua pureza, a consoladora doutrina dos espíritos tem sido muitas vezes objeto da exploração criminosa daqueles que não respeitam os seus princípios austeros e moralizadores. Cada um, porém, receberá segundo as suas obras; e nenhuma influência humana poderá impedir a sua evolução no seio da humanidade.

Emmanuel

(Recebida em Pedro Leopoldo a 21 de junho de 1935)

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Socialismo no Brasil atual significaria anarquia

Emanuel julga que nos faltam homens e qualidades para uma transformação social.

“Se os espíritos esperam o socialismo cristão, por que motivo Emmanuel não acha o comunismo adaptável no Brasil?

Que deveremos então entender por socialismo cristão?

Essas perguntas foram sugeridas ao missivista pela comunicação que Emmanuel nos fizera em maio último, respondendo a consulta nossa.

Manifestara o guia, nessa mensagem, opinião contrária ao estabelecimento de um regime extremista no Brasil.

Os primórdios dos novos sistemas políticos e sociais

Foi esta a resposta de Emmanuel à pergunta de agora:

“Quem poderia garantir a exeqüibilidade do regime comunista no Brasil”? Não me expenderei em muitas considerações, porquanto o meu ponto de vista já foi externado, quando fui inquirido a respeito da implantação de um regime extremista no país. A Rússia atual representa a experiência realizada à custa de muito sangue, os primórdios dos novos sistemas políticos e sociais, que hão de futuramente vigorar no planeta. Porém, mesmo lá, o que se observa por enquanto, ao lado dos excessos demagógicos, é a inversão dos papéis dentro das classes sociais.

A fraternidade é ainda um mito

Os oprimidos de ontem são os senhores de hoje. A fraternidade ainda significa um mito, porquanto o terreno social está cheio das mesmas diferenças de sempre.

Diversidade de ambientes a considerar

Faz-se antes de tudo preciso considerar a diversidade de ambientes.

As massas populares brasileiras não fazem, por demais, questão de regalias políticas; como um derivado das circunstâncias do meio, fazem questão do trabalho, do salário, do conforto que lhes é devido. Comunismo significa equilíbrio dos sacrifícios do povo, holocausto do homem à coletividade, interesse geral, eliminação de personalidade. Os brasileiros estão preparados para isso? A afirmativa poderia, ao que parece, ser contestada.

Aproximação necessária e

indispensável renovação de códigos

Aconselhamos portanto a aproximação do governo e das classes reclamando-se a atenção dos dirigentes do país para as necessidades prementes das massas proletárias. Faz-se mister renovar os códigos da legislação agrária, intensificando a assistência sob todas as modalidades a quantos carecem do seu auxílio.

As massas trabalhadoras do Brasil reclamam leis que assegurem o conforto que lhes tem sido negado pelos elementos da política administrativa. Que o supérfluo das suntuosidades do Estado seja empregado com o necessário. Intensifique-se a higiene e a escola. A educação necessita ser difundida sob todos os seus aspectos.

A falta dos homens providenciais

Socialismo, no Brasil atual, significaria anarquia, porquanto faltam as consciências dos homens providenciais formados no cadinho das experiências penosas. Semelhante estado de coisas, com a propaganda de teorias importadas, como de meios essencialmente diversos da nação brasileira, só poderia anarquizar o país, fazendo-o escravo de potências imperialistas.

Medidas mais que devidas

Cuidem portanto os governantes de melhorar a situação do proletariado com medidas de assistência mais que devidas.

Trabalhai portanto todos vós que anelais um novo estado de evolução no mundo. O progresso se fará, não o duvideis.

O Brasil e o socialismo cristão

E o Brasil, pelo caráter pacifista de todos os seus filhos, será chamado a colaborar ativamente no edifício do socialismo cristão que representa a renovação de todos os sistemas econômico-sociais à base da compreensão do evangelho de Jesus. Até lá, quantas, lutas assistiremos, quantas conflagrações serão necessárias?

Só Deus o sabe.

Laboremos contudo com desprendimento e desinteresse e não vacilemos na fé que devemos possuir em nossos elevados destinos.

Emmanuel.

(De “O GLOBO”, de 1.º de julho de 1935)

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“Tudo aí se mistura e todas as idéias se propagam sem que sejam devidamente estudadas” – “A implantação de um regime extremista seria um grande erro que o sofrimento coletivo viria certamente expiar”

“Para o estado atual do Brasil não se enquadra outro regime fora da democracia liberal!”

Numa das nossas últimas correspondências de abril, fizemos referência vaga a um “segredo”, a um certo ponto deste nosso inquérito sobre o qual não desejamos, ou melhor não podíamos ainda falar.

Esse “segredo” era apenas no momento uma intenção da reportagem: uma prova a que desejávamos chegar de improviso.

Por isso, daquela vez, ao pé da referência ao segredo, escrevíamos: “Calemos por enquanto.”

Sucedeu porém que motivos imperiosos nos afastaram por alguns dias de Pedro Leopoldo e assim também por alguns dias mais devíamos calar.

Agora, de volta ao campo de nossas observações, conseguimos atingir enfim o ponto almejado.

O “segredo” não tem mais razão de ser. Já não há o que calar. A reportagem volta a trilhar uma estrada sensacional e surpreendente.

O jornalismo e o mistério

Tudo o que passaremos a expor poderá parecer nada – empregando o “natural” com o sentido de exprimir o “que segue a ordem regular dos fatos” – aos adeptos e iniciados na doutrina ; mas não àqueles que ainda encaram com dúvidas o dogma da comunicação com o Além. E foi por isso que usamos acima a imagem da “estrada sensacional e surpreendente”.

Agora, trilhemo-la.

A intenção

Desde que entráramos em contacto com o “médium” de Pedro Leopoldo e entráramos na apreciação de seu vasto arquivo de mensagens atribuídas a escritores, pensadores e poetas mortos, uma intenção se fora,sorrateiramente insinuando no ânimo do jornalista : a idéia de participar também dessas comunicações sensacionais, não simplesmente como um observador, mas com um gesto decidido de indagação e de pesquisa. Se nós vivemos a levantar diante dos “vivos” – tão imperfeitos, frágeis e defeituosos – as nossas perguntas, que poderão parecer impertinentes, mas pelas quais costumam falar e indagar as ansiedades, os desejosos, às desconfianças das coletividades, seria acaso demais que nos lembrássemos de levar também – a esse mundo de lá dos “planos intangíveis”, de onde ainda nos chegam o canto dos poetas e a advertência dos pensadores – as indagações das nossas incertezas e ansiedades?

Pareceu-nos que não seria demais esse apelo às luzes do Além. E firmou-se em nós a intenção. Dir-se-ia que o hábito da entrevista como um “tic” irremediável da profissão, ressurgia mesmo ali, diante do grande enigma sobre o qual se escancaravam nossos olhos humanos. A intenção, através do processo cerebral inevitável, concretizou-se na vontade. E as perguntas ficaram armadas sob a expectativa muda dos nossos lábios.

Precipitam-se os acontecimentos

Foi ontem à noite. Reencontramos à mesa do Hotel Dinis o Sr. Washington Floriano de Albuquerque, Promotor público da comarca, e a quem já fizemos referência em correspondências anteriores.

O distinto magistrado, bela mentalidade aberta a todos os estudos e pesquisas, acompanha-nos mais uma vez numa palestra em torno do caso Chico Xavier. Findo o jantar, saímos juntos, sustentando ainda a palestra.

O repórter, a certa altura, comunica-lhe sua intenção, ou melhor, já agora sua vontade.

O espírito de observação e pesquisa do magistrado e do estudioso deixa-se seduzir pela idéia de uma consulta aos “amigos do espaço”. E resolvemos procurar José Cândido para sabermos da viabilidade de uma consulta daquela ordem.

A dificuldade

Encontramos, na sua humildade de trabalhador, o mesmo José Cândido, amável e acolhedor de sempre. Enquanto ali encetamos com ele a palestra, chega Chico Xavier, trazido por imprevista circunstância. O “médium” acaba de despedir-se de algumas visitas que recebera, ao anoitecer, vindas de Belo Horizonte. Vinha provàvelmente comunicar o fato ao irmão. Dando conosco, entra na conversa. E foi então que expusemos a nossa intenção de consulta ao José Cândido: não uma dessas chamadas “consultas médicas”, mas uma indagação qualquer apanhada no ambiente. Não nos é feita restrição quanto à viabilidade. Unicamente, diz-nos José Cândido, aquilo só poderia ter lugar na quarta-feira, o único dia agora reservado às sessões e assim fixado por determinação dos próprios espíritos protetores do “médium”.

Um motivo porém nos leva a ligeira resistência. Talvez o Sr. Washington Floriano não possa ficar aqui até quarta-feira próxima. Mas isso não demove José Cândido. As sessões só poderão ter lugar nas quartas-feiras. Os “amigos do espaço” não podem ser desobedecidos.

A amável possibilidade

Enquanto assim falávamos, Chico Xavier, do outro lado da mesa silenciava; e havia uma expressão vagamente triste no seu rosto. Num relance vem ao repórter a impressão nítida de que aquela alma boa, sensível e humilde, se desgostava um pouco com a necessidade daquela resistência imposta pelos imperativos citados às nossas solicitações humanas.

Talvez lhe ocorresse, naquele momento, por maravilhosa intuição, a palavra de Jesus:

– Bate que a porta se te abrirá.

Ali viéramos nós bater.

Sua tristeza como que se acentuou. E, diante da impossibilidade surgida, baixamos os olhos ao silêncio.

Parecia-nos, até certo ponto, explicável a dificuldade; nenhum dos três visitantes, o jornalista, o promotor e o fotógrafo era propriamente um adepto, um crente, um doutrinado. Não poderíamos por certo negar que houvesse, no fundo de nossa atitude, um subtil reflexo dos eternos anseios da alma humana. Mas o que nos movia também era uma intenção de pesquisa, de constatação mais convincente, aquilo que poderíamos chamar a busca, não isenta de leve malícia, das evidências.

E foi no meio dessa meditação que nos surpreendeu a voz do “médium”:

- Emmanuel atenderá.

A porta abre-se

Por um instante o nosso silêncio ainda se apóia num certo pasmo. Emmanuel atende... O guia, o espírito do “médium” abre-nos pois uma concessão?

Enfim a porta abrira-se.

Tudo foi tão imprevisto que, em verdade, ainda nem tínhamos preparado as nossas perguntas. Apenas, meia hora antes, ao sairmos do hotel, havíamos grafado um rascunho de indagações gerais com que pretendíamos compor as perguntas. Mas não se podia hesitar.

José Cândido ocupa ràpidamente o lugar ao lado do “médium”. Pede que façamos a nossa consulta. O promotor Albuquerque faz um sinal ao jornalista este tira do bolso uma das páginas rascunhadas.

A pergunta

Na folha quase amarrotada lemos isto numa das perguntas que grafáramos às pressas para ulterior escolha:

Que possibilidades existem e que vantagens ou desvantagens adviriam da implantação de um regime extremista no Brasil?

Estendemos o papel a José Cândido, que o põe, por sua vez, diante do “médium” já em transe.

Fornecemos ao mesmo tempo nosso próprio bloco de papel e lápis para a grafia da mensagem que porventura viesse, pois não houvera nenhuma preparação para isso.

A seguir José Cândido pede que nos concentremos numa prece ao Senhor e ao espírito dos nossos mortos bem-amados.

A resposta

Nem um minuto chegou a passar e ouvimos o ruído característico do lápis sobre o papel. Inicia-se a grafia da mensagem, ràpidamente, como de costume. Ainda uns doze ou quinze minutos de concentração e o lápis estacou ao fim de uma assinatura.

Imobilidade.

José Cândido pede que o acompanhemos agora em sua oração. Finda esta, estão findos os trabalhos.

A mensagem que recebêramos, em resposta àquela nossa pergunta, é a seguinte:

“Amigos, que Deus ilumine o vosso entendimento.

Avesso à política, me sentiria mais à vontade se fosse inquirido acerca do evangelho. Todavia, opiniões são coisas que pouco se custa a fornecer; contudo os meus pareceres são igualmente pessoais como os vossos, sem o caráter da infalibilidade.

As mais extravagantes teorias políticas têm sido veiculadas no Brasil, cujo povo, guardando tradições de raças diversas, ainda se encontra longe, da linha decisiva de sua evolução racial. Tudo aí se mistura e todas as idéias se propagam sem que sejam devidamente estudadas, ponderadas no cadinho da análise mais rigorosa. A implantação de um regime extremista seria um grande erro que o sofrimento coletivo viria certamente expiar.

De um lado prevalecem as doutrinas dos governos fortes, como a política do “sigma” copiando o fascismo em suas bases; da outra margem se encontra o comunismo, inadaptável ainda à existência da nacionalidade, levando-se em conta o problema da necessidade de braços para o trabalho em uma terra vastíssima à espera das iniciativas e cometimentos de progresso preciso. É verdade que a Rússia atual fornece exemplos ao mundo inteiro, porém os homens que inauguraram violentamente os seus novos regimes não se fizeram de um dia para o outro. Eles representavam muitos séculos de opressão, de martírios, de tormentos nefandos, não saíram do proletariado que se compraz na incultura, mas da energia coordenadora que busca conciliar o labor operário com o trabalho intelectual das academias.

O Brasil necessita, antes de tudo, combater o magno problema do analfabetismo. É necessário que se solucione o enigma pedagógico que implica toda essa mocidade sem entusiasmo e sem energia para o estudo; para o estado ao qual não se enquadra outro regime fora da democracia liberal, até que o povo se eduque convenientemente para as grandes iniciativas do porvir. Fora disso é a ilusão portadora dos desenganos trágicos que empobrecem a economia e roubam a paz social. Infelizmente, a ambição, o personalismo, infestam os bastidores da política brasileira, eminentemente prejudicada pela sua visão mesquinha, concernente aos problemas da coletividade. Mas o que quereis? O trabalho é dos homens e a eles compete a realização do progresso necessário. Longe do cenário do mundo não nos é lícito influenciar sobre questões distantes da nossa esfera de ação.

A nossa atividade unicamente se circunscreve ao esclarecimento das almas, pugnando para que as construções da crença sejam novamente reedificadas no templo dos corações humanos, trabalhados pelas concepções amargosas e destruidoras do negativismo. Para atingirmos semelhante desideratum só no Evangelho buscamos os nossos programas de ação. O nosso labor intenso é todo realizado com esse objetivo.

Que os homens resolvam de entendimento posto no código da perfeição, legado à Terra por Jesus e estarão de acordo com a evolução que deve presidir a todas as manifestações das nossas atividades nos setores do trabalho humano. A Deus elevemos, assim, nosso votos para que os governantes do Brasil se acautelem com a infiltração de idéias contrárias ao bem-estar social e em desacordo coma sua vida de nacionalidade nova e apta a desempenhar um papel muito preponderante no seio da humanidade

Emmanuel

(De “O GLOBO”, de 16 de maio de 1935)

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Resposta de Humberto de Campos a uma mãe aflita

Coração de Mãe

Dolorosa e comovedora é a carta dessa mulher maranhense que te chegou às mãos, trazida nas asas de um avião trepidante e ruidoso.

Mãe desesperada, apela para os sentimentos de paternidade que não me abandonaram no túmulo, e grita aflitivamente como se as suas letras tremidas fossem vestígios arroxeados do sangue do seu coração:

“Eu peço a Humberto de Campos que, mesmo do Além, salve o meu filho”! Ele, que não se esqueceu dos que deixou na Terra, não pode negar urna esmola à minha alma de mãe extremosa!

E eu me lembro, comovido, dos apelos que me eram dirigidos pelos sofredores, nos derradeiros tempos da minha vida, enquanto eu naufragava devagarzinho no veleiro da Dor, entre as águas pesadas do oceano da Morte.

Eu daria tudo para enviar, a essa mulher sofredora da terra que foi minha, a certeza de que o seu filho é uma criatura predileta dos deuses. Tudo faria para imitar aquelas mãos ternas e misericordiosas que descansaram sobre a fronte abatida do órfão da viúva de Naim, ressuscitando para um coração maravilhoso de Mãe as energias do filho que padece sob as provações mais penosas.

A Morte, porém, não afasta do nosso caminho a visão estranha da fatalidade e do destino. Há um determinismo no cenário das nossas existências, criado por nós mesmos.

O mal, com o seu cortejo de horrores, não está dentro dessa corrente impetuosa e irrefreável, mas todos os seus elos são formados pelos sofrimentos.

Os homens de barro têm de batalhar a vida inteira, repelindo o Crime e o Pecado, mas inevitavelmente andarão atolados no pantanal da Dor e da Morte.

O que mais me pungia, depois de haver perquirido as lições dos sábios daí, era a inutilidade dos seus argumentos ante as determinações irrevogáveis do destino. Após haver atravessado as estradas da ignorância despretensiosa, no limiar do imenso palácio das experiências alheias, presumia encontrar a solução dos enigmas que confundem o cérebro humano. Mas, em todas achei o mesmo tormento, as mesmas ansiedades angustiosas.

Frente a frente ao pulso inflexível da Morte, toda a ciência do mundo é de uma insignificância irremediável.

Nesse particular, todo o portentoso edifício da filosofia de Pitágoras não valia mais que as extravagantes teorias doutrinárias propaladas no mundo.

Todos quantos laboram em favor do homem da Terra esbarram nos muros indevassáveis da Sombra. O Cristo foi o único que espalhou, na masmorra da carne, uma claridade suave, porque não se dirigiu à criatura terrena, mas à criatura espiritual.

Assombrava-me o espetáculo pavoroso do mundo, onde as leis, liberalíssimas para a aristocracia do ouro e severas em face dos infortunados que palmilham o caminho espinhoso com os pés descalços e feridos, refletem o caráter humano com os seus incorrigíveis defeitos.

E, despertando de longos pesadelos na porta de claridade da sepultura, a minha primeira inquirição, com respeito aos problemas que me atormentavam, foi uma pergunta dolorosa acerca dos contrastes amargos do mundo. Ainda aqui, porém, os gênios carinhosos da Sabedoria abençoam, a sorrir, os que os interpelam, porque a decifração dos enigmas das nossas existências está em nós mesmos. Apesar do destino inflexível, há uma força em nós que dele independe, como origem de todas as nossas ações e pensamentos. Somos obreiros da trama caprichosa das nossas próprias vidas.

As mãos, que hoje cortam as felicidades alheias, amanhã se recolherão como galhos - ressequidos nas frondes verdes da Vida.

As iniqüidades de um Herodes podem desaparecer sob o manto de renúncias de um Vicente de Paulo. O sensualismo de Madalena foi expurgado nos prantos amargosos da expiação e do arrependimento. Quando pudermos ver o passado em todo o seu desdobramento, depois de contemplarmos a Messalina em sua noite de regalados prazeres, vê-la-emos de novo, arrastando-se nas margens do Tibre, enfiada num vestido horripilante de negras monstruosidades.

Faltou-me na vida terrena semelhante compreensão, para entender a Verdade.

Que essa pobre mãe maranhense considere esses realismos que nos edificam e nos salvam.

E, como um anjo de Dor à cabeceira do seu filho, eleve o seu apelo ao coração augusto d’Aquele que remove as montanhas com o sopro suave do seu amor. Sua oração subirá ao Infinito como um cálice de perfume derramado ao clarão das estrelas que enfeitam o trono invisível do Altíssimo, e, certamente, os anjos da Piedade e da Doçura levarão a sua prece, como cândida oferta da sua alma sofredora, à magnanimidade daquela que foi a Rosa Mística de Nazaré. Então, nesse momento, talvez que o coração angustiado da mãe que chora, na Terra, se ilumine de uma claridade estranha e misericordiosa.

Seu lar desditoso e humilde será, por instantes, um altar dessa luz invisível para os olhos mortais. Duas mãos de névoa translúcida pousarão como açucenas sobre a sua alma oprimida e uma voz carinhosa, embaladora, murmurará aos seus ouvidos:

"Sim, minha filha!... ouvi a tua prece e vim suavizar o teu martírio, porque também tive um filho que morreu ignominiosamente na cruz."

( “Do Correio Paulistano”, 15 de junho de 1936.)

Recebida em Pedro Leopoldo (MG)

Por Francisco Candido Xavier

fim