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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Agência de Notícias-Francisco Cândido Xavier

 

Índice do Blog 

 

 

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Livro: “Agência De Notícias” - Psicografia: Francisco Cândido Xavier

Autor Espiritual: Jair Presente

A  EVOLUÇÃO  DO  AMOR

Jair Presente

O Doutor Leonel de Souza

Dono de terra e dinheiro,

Trazia a cabeça em fogo,

Hora a hora, dia inteiro.

Tinha uma filha somente,

A jovem Ana Maria,

Que lhe dera ao coração

A presença da alegria.

Ela, porém, namorava

O jovem Joaquim Mutamba,

Sempre juntos, noite a noite,

Lembravam corda e caçamba.

Sabendo que os dois se amavam

Com manifesta loucura,

O pai ficou alarmado

E disse à filha, insegura:

- “Ana Maria, você

Não mais procure Joaquim,

Considere o seu romance

Um caso que chega ao fim.

Largue, filha, enquanto é tempo,

Esse Joaquim do pé torto,

Um varredor de cinema

Não tem onde cair morto...”

A filha pediu, no entanto:

- “Pai, rogo à sua bondade,

Quero casar com Joaquim,

Já temos intimidade!...”

O velho esmurrou a mesa,

Dando mostra de machão,

E asseverou, irritado:

- “Não aceito, não e não!...”

O pai buscou, no outro dia,

Um famoso pistoleiro...

Queria um tiro no moço,

Pagaria bom dinheiro.

O pistoleiro, maldoso,

Que era pobre, muito pobre,

Comunicou ao cliente:

- “Sinto fome do seu cobre...”

Semana passa semana,

E o pistoleiro com jeito,

Derrubou Joaquim, a tiros,

Num crime duro e perfeito.

Ninguém viu a cena triste...

No povo, apenas mumunhas.

Buscou a polícia, em vão,

Informes e testemunhas.

Ana Maria chorou

Por muitos e muitos dias,

Parecia torturada

Por íntimas agonias...

O pai cercou-a de mimos,

Sentindo arrependimento

E a moça continuava

Toda entregue ao sofrimento...

Notei com grande surpresa

Que ela trazia de lado,

Em todo passo do dia,

Mutamba desencarnado.

Quatro anos se passaram...

Veio o estouro de repente;

A jovem Ana Maria

Teve um novo pretendente.

Era um rapaz educado,

Um competente engenheiro...

O pai fez o casamento

Gastando muito dinheiro.

Morrer não fora vantagem,

De coração renovado,

A moça trouxera à luz

O primeiro namorado.

Decorridos onze meses

Surgiu a reviravolta...

Um pequenino nasceu...

Era Mutamba, de volta.

Tudo era festa em família,

Felicidade, alegria...

O genro e o sogro, contentes,

Beijavam Ana Maria.

O pequenino ante o seio

Sugava o leite com gana

E eu ficava refletindo

Nas tricas da vida humana.

O avô, vendo o neto ativo

Parecendo esfomeado,

Exclamava, todo dia:

- “Eta, menino danado!...”

A  HERANÇA

Jair Presente

- “Quero fazer caridade” –

Dizia Júlio das Graças,

Estou cansado de ver

Tanta penúria nas praças;

Vejo mães abandonadas,

Cujo estômago jejua,

Crianças esfarrapadas

Em tristes bandos na rua...

Se Jesus me der recursos,

Farei com muita alegria

Um lar onde os pobres tenham

O pão para cada dia.

Tanto Júlio falou nisso

Que o difícil sucedeu:

Júlio ganhou grande herança

De um tio que faleceu.

Era um antigo solteirão

Que não mostrava riqueza

E o povo considerava

Sovina por natureza;

Ao morrer, viu-se-lhe a vida,

Revelou-se-lhe o caminho...

Tinha mais de dois bilhões

E deixou tudo ao sobrinho.

Após reter a fortuna,

Alguns irmãos da cidade

Vieram a ele indagando

Dos votos de caridade.

Que faria, enfim, agora?

Perguntou-lhe a comissão:

- “Um lar para os enjeitados

E velhos sem proteção?”

Respondeu Júlio, entretanto,

- “Meus amigos, o dinheiro

Que o tio me destinou

Não dá para um galinheiro.

Mais tarde, conversaremos,

Somos amigos leais...

Os dois bilhões de meu tio

Vêm a ser pouco demais.”

ABERTURAS

Jair Presente

O problema assim começa:

Uma frase de ironia,

O grito fora de tempo,

O gesto de grosseria;

A vibração deprimente

De todo olhar ofensivo,

O barulho inesperado

Da discussão sem motivo;

O fel da maledicência

Que da boca se desloca,

O apontamento infeliz,

O cochicho da fofoca;

A conversa muito alta,

A resposta de machão,

O melindre exagerado

Da ausência de educação;

A brincadeira sem graça

De qualquer toque eu assusta,

O veneno que se espalha

De toda palavra injusta;

A queixa de toda hora,

O choro sempre constante,

O vinagre da censura,

O riso desconcertante;

A voz de fera acuada

Que surge da irritação...

-          Eis algumas aberturas

Das tramas da obsessão.

ANOTAÇÃO  BREVE

Jair Presente

Meu amigo, ao responder-lhe

O confiante recado,

Reafirmo-lhe o refrão:

- “Cuidado! Muito cuidado!...”

Veja o relógio e trabalhe,

Fuja da hora perdida,

Atenda às obrigações

Que lhe competem na vida.

Não estou aconselhando,

Rogo a você que me entenda,

Também eu vivo em meus erros

Que nem cana na moenda.

Guarde calma e nada diga

Na hora da irritação,

Não queira a barra pesada

Que surge do palavrão.

Conserve tato e prudência,

Mantendo firmeza e raça;

E não beba cousa alguma

Do que lhe cheire a cachaça.

Não viva pedindo aos guias

Auxílio em muitas matérias,

Em muitas ocasiões

Os guias estão de férias.

Bate-boca não resolve,

Violência agora é onda,

Se alguém lhe dirige ofensas,

Afaste-se e não responda;

Na estrada de cada dia,

Cumpra o seu próprio dever,

Quando um problema aparece,

O momento é de aprender.

CARMELINO

Jair Presente

Uma história curiosa,

Encerrando muito ensino,

É a que vi acontecendo

Ao nosso irmão Carmelino.

Era ele um servidor

Que conquistou nosso apreço,

Viera no Grande Espaço

De um mundo que não conheço.

Passeava pela Terra,

Vendo as árvores copadas,

Adorava o sol no verde

Dos campos e das estradas.

Parava junto das flores,

Ficando feliz ao vê-las,

Dizia que todas elas

Eram irmãs das estrelas.

Supondo o mundo perfeito,

Solicitou ao seu Guia:

Queria viver na Terra,

Respirar um novo dia...

O amigo escutou com calma

E disse a ele: “primeiro,

Procure ficar uns dias

Em casa de um companheiro.

Uma semana somente

Com família de seu nível...

Depois, veremos sem pressa

Aquilo que for possível”...

Carmelino se instalou,

Em corpo espiritual,

No lar generoso e amigo

Do irmão José Juvenal.

Juvenal era casado,

Mulher, dois filhos e emprego,

Morava em cidade grande,

Mas vivia sem sossego.

Atencioso e distinto,

Servia num armazém,

Por residir no subúrbio,

Cedinho, tomava o trem.

A esposa ficava em casa,

Dando assistência aos meninos,

Que se espancavam com fúria,

Em gritos e desatinos.

Mas era grande o pampeiro

E a mulher a lastimar-se,

Hora a hora, dia inteiro...

Juvenal voltava à casa,

Muito além do anoitecer,

Depois de uma sopa leve,

Tinha contas a rever.

Sentava-se, acabrunhado,

A força se lhe esbatia,

Sentia-se fatigado

Das contas de todo dia.

Eram contas de armazém,

Concertos de geladeira,

Exigências da farmácia,

Cobranças da costureira.

Eram contas do colégio,

Pedidos do entregador,

Listas das compras de casa

E preços do encanador.

Folheava novas contas,

Detalhes da prestação

Do aparelho que comprara

Com nova televisão.

Eram contas do padeiro

E notas da leiteria,

Todas mostravam aumento,

Subindo, dia por dia.

Finda a semana de estudo,

Carmelino veio a nós,

Parecia birutado,

De olhar distante e sem voz.

Veio o Guia recebê-lo,

Dizendo-lhe: Carmelino,

Você viverá na Terra,

Ganhará novo destino...

Está você satisfeito?

Seu novo berço estou vendo”...

Mas Carmelino, em silêncio,

Chorou e fugiu correndo...

CASO  DE  VITORINO

Jair Presente

Disse o Guia:”Vitorino,

A mais importante norma

De sublimar a existência

É a nossa própria reforma.

Não se descuide. Inda agora,

Ouça o aviso do Além,

Ninguém consegue elevar-se

Sem renovar-se no Bem.”

Respondeu o interpelado,

Humilde, baixando o olhar:

- “Repito-vos, caro Guia,

Eu prometo melhorar.”

Muito embora, Vitorino

Fosse ao grupo de oração,

Fora do grupo, era ele

A própria contradição.

Negociando ouro e jóias,

Bebia sempre onde ia.

Transtornado, de repente,

Insultava e discutia.

Mantinha a esposa e dois filhos,

No entanto, chegando em casa,

Era um ébrio renitente,

Mostrando os olhos em brasa...

Espancava a companheira

Pobre louco em desatinos,

Em seguida ao quebra-quebra,

Espancava os dois meninos.

Ameaçava os parentes,

Rixava por frase à toa,

Chegando a noite das preces

Parecia outra pessoa.

No grupo, o guia amoroso,

Continuava a falar,

Vitorino respondia:

-  “Eu prometo melhora.”

-          

No outro dia, a mesma nota,

Era a pessoa insegura,

Bebia constantemente,

Quase atingindo a loucura.

Vitorino possuía

Outra casa e outra mulher,

Gritando para os vizinhos:

“Tenho a vida que eu quiser...”

Essa infeliz criatura,

Se o bebum aparecia,

Também sofria, humilhada,

Injúria e pancadaria.

A essa mulher Segunda-feira

Ele chamava de “estepe”,

Era uma jovem doente,

Magrinha que nem ganzepe.

Chegando a noite das preces,

Eis o Guia a aconselhar,

Ele, porém, só dizia:

-          “Eu prometo melhorar.”

-          

Mas os anos transcorreram,

Aos tragos, sem intervalo,

Assustado, certa noite,

Viu a morte a procurá-lo.

Todo encolhido no leito,

Sofria grande aflição,

Terríveis e fortes dores

Em torno do coração.

Ele pediu: “Morte amiga,

Deixe-me, quero sarar,

Se tenho errado no mundo

Eu prometo melhorar...”

Disse a Morte: “Não se queixe,

Entenda, prezado amigo,

Não me venha com promessas

Seu caso agora é comigo!...

Você teve muitas chances,

Muito dinheiro e conforto,

Você continua vivo

Mas o seu tempo está morto!...”

Vitorino estarrecido,

Notou a morte ao seu lado,

Depois em breves momentos

Estava desencarnado.

No outro dia, grande enterro,

Descia por flórea rampa

E duas mulheres tristes

Chorando na mesma campa.

CONCURSO  DE  SAMBA

Jair Presente

Foi num concurso de samba.

O nosso amigo Ribeiro

Entre os demais concorrentes,

Estava sendo o primeiro.

Moças e moços de fama,

Após ligeira merenda,

Afastavam-se da festa

Largando-se da contenda.

Ribeiro continuava

E, escorado na moringa,

De hora em hora, reclamava

Um grande copo de pinga.

A equipe dos musicistas,

Composta de gente amiga,

Doava substitutos

A quem mostrasse fadiga.

Ribeiro continuava

Tomando conta da praça,

Dançando e gesticulando,

Alimentado à cachaça.

Decorridas vinte horas,

Num grito desabalado,

Ribeiro caiu no chão...

Estava desencarnado.

Um médico trazido a exame,

Discreto, falou à parte,

Explicando a conhecidos,

Quanto à suspeita de enfarte.

O morto, de nosso lado,

Olhando o corpo no chão,

Clamava: “Jesus me valha,

Mártir São Sebastião.”

Depois, conheceu conosco

Um colega, seu amigo...

Chorando, exclamou: “Manoel,

O samba acabou comigo!...”

Manoel que lhe fora par

No Roçado do Vai-Vem,

Falou a ele: “Ribeiro,

Samba não fere a ninguém...

Quem te roubou vida e força,

Não foi samba, nem foi ginga.

Dança e música são nossas,

Quem te matou foi a pinga.”

DIA  DA  CRIANÇA

Jair Presente

Dia da Criança,

Tempo de esperança.

Menino que brinca e rola

Não esqueça da escola.

Em todos os locais,

Respeite os seus pais,

Não estrague, nem fira

As plantas e animais.

Menino abelhudo,

Não fuja do estudo.

Menino na estrada

Não atire pedrada.

Menino catarrento,

Não fique no vento.

Menino da favela,

Muitas vezes sem lar,

Peça o apoio de alguém,

Mas não busque furtar.

Veja as suas lições,

Por dentro de casa,

Não fique na rua,

Que a rua é uma brasa.

Seja você quem for,

Nunca perturbe a ninguém.

Criança, Criança,

Você é a esperança

Do mundo que vem.

DIA  DOS  PAIS

Jair Presente

Casimiro era bom pai...

E pai sempre é o companheiro

Que trabalha todo dia

Para cavar o dinheiro

Para que tanta moeda?

Ouço a pergunta, assim rasa...

Não respondo... Pai é sempre

O grande esteio da casa.

É a compra em supermercado,

Levando o caro de mão,

É a conta da leiteria,

Da luz, do gás e do pão.

É a despesa no colégio

De quatro filhos pequenos,

O preço da condução,

Sempre mais, nunca menos.

É o pagamento ao dentista,

É a grana da costureira,

O preço das aulas-extras

À criançada matreira.

É a prestação em aumento

Do pequenino lugar

Que lhe conserva a família

Na bênção do próprio lar.

É a cobrança da farmácia

Das encomendas do mês,

O pobre, em sabendo quanto,

Coça a cabeça outra vez...

É a verba particular

Que deve trazer em mão,

Para os freqüentes concertos

Da velha televisão.

É o cobre ao cabeleireiro,

A conta do eletricista,

As notas do verdureiro

Com pagamentos à vista...

Casimiro chega em casa,

Cansado, suor na testa...

Trabalhara no domingo

Mas achou o lar em festa.

Encontrou seus velhos pais,

Entre vizinhos em bando,

A esposa, o bolo mais rico

E a meninada cantando...

Sem graça, saudou a todos,

E, ao encostar-se na mesa,

O pobre via a festa,

Meditava na despesa.

Os quatro filhos cantavam:

-          “Todo pai tem seu dia,

Viva o papai sempre amigo

E viva a nossa alegria!...

Viva o papai sempre amado

E viva o nosso vovô!...”

Mas a pensar em despesas,

Casimiro desmaiou.

IRMÃOS  DA  MESMA  FAIXA

Jair Presente

Era um hábito sem pausa...

Fosse ilusão ou capricho,

O médium Joaquim de Souza

Curtia o jogo do bicho.

Não era pessoa falsa,

Não era mau companheiro,

Demonstrava apenas fome

De dinheiro e mais dinheiro.

Na manha de cada dia,

Em pensamento profundo,

Perguntava a Irmão Rosalvo

Que lhe fora irmão no mundo...

- “Que bicho teremos hoje?”

Após ligeiro intervalo,

A voz do irmão respondia:

-   “Pegue o camelo e o cavalo.”

Joaquim seguia o conselho,

Promovia grande aposta:

Depois, vinha o resultado

Grande soma por resposta.

Chegava a manhã seguinte,

Concentrava-se com fé...

- “E hoje?” O irmão sugeria:

- “Pegue a cabra e o jacaré.”

Na manhã imediata,

Joaquim regressava à treta:

- “E hoje?” O irmão informava:

- “Pegue o tigre e a borboleta.”

Meses e meses passaram...

Joaquim tinha o ouro à vista,

Embora médium, subira

A grande capitalista.

Certa manhã, disse a voz:

- “Joaquim, melhore o seu taco,

Entregue tudo o que tenha

No peru e no macaco.”

Joaquim atendeu, de pronto...

Pôs as somas que ajuntara

Nos dois bichos referidos

Que a voz do Além lhe apontara.

Nesse dia, entrou em prova;

Com grande consternação,

Viu que os bichos não vieram,

Vieram gato e pavão.

Joaquim errava, magoado,

Da sala para a cozinha...

Estava pobre... Perdera

A fortuna que detinha.

Ansioso, foi ao quarto,

Entrou em prece e pediu:

- “Irmão Rosalvo, esclareça!...

O que é que você viu?

Atenda! Peço socorro,

Fale, irmão!... Pois estou fraco!...

Por que o gato e o pavão

Sem peru e sem macaco?”

A voz, porém, lhe explicou:

- “Não sou o seu companheiro,

Não sou seu irmão Rosalvo,

Eu sou a mãe do banqueiro...”

Meus irmãos, temos na terra

Um trio de fel e fogo...

Tem três nomes conhecidos:

- Ambição, cachaça e jogo.

LOUVORES  ESQUECIDOS

Jair Presente

Desejo fraternalmente,

Sem argumentos compridos,

Falar sem bronca ou censura

Dos louvores esquecidos.

Estamos sempre dispostos

A mostrar nossos respeitos

Aos donos de campeonatos

E às almas de nobres feitos.

Mas na existência terrestre

Não vemos quaisquer ensinos

Para aplaudir grandes gestos

Que temos por pequeninos.

Louvemos os companheiros

Do trato de cada dia

Que conversam em voz baixa,

Evitando gritaria.

Louvemos nossos irmãos

Que, com esmero feliz,

Não se esquecem do banheiro

Para assoar o nariz.

Louvemos todos aqueles

Que atendem à obrigação

De não deixar lixo algum

Estatelado no chão.

Louvemos as amizades

Que no mundo, às vezes louco,

São afáveis e discretas,

Ouvem muito e falam pouco.

Louvemos nossos cupinchas,

Amigos da educação,

Que não falam de excrementos

Nas horas de refeição.

Louvemos qualquer pessoa

De zelo sempre maior,

Na higiene e na limpeza,

Fazendo a vida melhor.

PARA  HOJE

Jair Presente

Do bem que sonhes fazer

Não teças conversa vã...

Ações no bem? Não vaciles,

Nem guardes para amanhã.

A carta por escrever,

Uma ofensa a perdoar,

Algum pequeno dever

Que não se deve adiar...

Uma visita ao doente,

Alguma doce lembrança,

A gentileza da hora,

Uma frase de esperança...

Algum socorro ao amigo

No dia da provação,

O calor da simpatia

Num leve aperto de mão...

Agindo de alma sincera,

Nunca retardes o bem.

A Morte é um anjo de Deus

Mas não espera a ninguém.

PETITÓRIO

Jair Presente

Deus nos livre de cair

Nos esculachos da rua,

Dos grudes e dos apertos

De quantos entram na pua;

Da jogada que nos faça

Tombar em vexame ou fria,

De tomar um pilecão,

Tendo a barriga vazia;

De dar uma paquerada

Sem apoio no dendém,

De companheiro fajuto

Que faz que vem mas não vem;

De viver em caixa-baixa,

Caindo pelas tabelas,

De gatinhas enturmadas

Sem sabermos quem são elas;

De festanças e garrafas,

Onde há gente de nota,

De gaturamo enrustido

Que nos desonra a patota;

De congesta e de chupão,

De caboclo mamador,

Da pessoa de mão grande

De trombada e suador...

Não sei escrever de letra,

Nem orar, como e nem quando!...

Ouça, meu Deus, o que sinto

E não o que estou falando...

PROMESSA  E  MUDANÇA

Jair Presente

- “Enfim” – clamou Nico Alceu

ante o Grupo e o Dirigente –

“Conforme a nota dos Guias

Serei médium claramente.”

E acrescentou, exaltado,

- “Servir em quaisquer recantos!...

Esse é o meu grande ideal,

Mas não serei como tantos...

Já conheci vários médiuns,

Atuando em nossa estrada,

Começaram em promessas

E muita fanfarronada.

Planejaram grandes obras,

Assumindo compromisso,

Mas fugiram, de repente,

De todo e qualquer serviço...

Trocaram ação e luz por prazer;

Foram eles desertores

Que nunca pude entender...

Eu, porém, quero trabalho,

Em favor dos desvalidos,

Sem cansar-me de atendê-los

Nos mais estranhos pedidos...

Terei o meu lar aberto,

No amor à mediunidade

A todos os que precisem

De paz e de caridade.”

No outro dia, ei-lo em tarefa,

Verbo calmo e gesto brando...

Falava por ele um Guia

E o pessoal foi chegando...

Inspirava compaixão

Ver tantas provas e crises!...

O médium modificou-se,

Diante dos infelizes.

Estava desencantado,

Falava com rispidez,

Sofredores que chorassem

Com ele não tinham vez.

Passadas quatro semanas,

O Diretor descontente,

Recebeu dele uma carta,

Dizia achar-se doente.

Em vão, buscaram amigos

Visitar o irmão Alceu...

Mudara o médium de Vila,

Nunca mais apareceu.

REUNIÃO COM JESUS

Jair Presente

Vale a pena observar

Os inimigos da luz

Quando procuram secar

O serviço com Jesus.

É justo considerar

Que a obra desse teor

Reclama cooperadores

Quais vigas de paz e amor.

Iniciou-se na Terra

O Evangelho em ação

Com Jesus e doze amigos,

Reunião a reunião.

Por isso é que os companheiros

Unidos em compromisso,

Quanto possível não falhem

Ao conjunto de serviço.

Os inimigos da luz

Agem de carga cerrada

Exatamente no dia

Em que a tarefa é marcada.

Na hora em que os tarefeiros

Precisam sair de casa,

Eis que o entrave aparece

Que os afasta ou que os atrasa.

É o beliscão na coluna,

É o boato que entristeça,

É a visita inesperada,

A antiga dor-de-cabeça.

É uma criança que cai

Pedindo mais atenção,

É o engano de um parente

Provocando discussão.

É a chave que se perdeu,

É o vizinho dando tecos,

É um recado sem sentido,

É o fígado em pandarecos...

Que todos os companheiros,

Estejam firmes, serenos,

Superando os veneninhos

Que surgem de outros venenos.

Que cultivem paz e calma,

Com bondade e paciência,

A reunião com Jesus

É tempo de resistência.

Meus amigos, não se prendam

A esse ou aquele galho,

Ante a Seara do Cristo,

Que ninguém falte ao trabalho.

SOVINICE

Jair Presente

Era um caso singular

O caso de João Monteiro,

Capitalista aos quarenta,

Só procurava dinheiro.

Vivia sempre isolado.

Segregação incomum,

Não cultivava amizades

Nem tinha parente algum.

E usando rasteira e treta,

Prendia com papelada

Muita gente na gaveta.

Se alguém lhe rogasse auxílio,

Considerava, brigão:

- “Para todo petitório

A minha resposta é não.”

Senhoras vinham a ele

Falando em beneficência,

Necessitavam de apoio

Para os irmãos em carência.

João dizia com sarcasmo:

- “Não desejo compromisso,

Se alguém é doente e pobre,

Eu nada tenho com isso...”

Se um menino aparecesse,

Pedindo a esmola de um pão,

Gritava: - “Saia daqui!

Menino sujo é ladrão...”

A mendigo que surgisse

Rogando-lhe algum café,

Exclamava, zombeteiro:

- “Passe bem, fique como é...”

Se alguém lhe adiava os juros

Na data prefixada,

Ouvia-lhe os desaforos,

Sofria-lhe a mão pesada.

Certa noite, João em sonho

Viu a morte... Parecia

Ver um anjo estranho e lindo

A dizer que o buscaria...

Ele pensou na fortuna

Que retinha com cuidado,

Sobressaltou-se, chorou

E implorou, acabrunhado:

- “Grande Morte, grande dama,

Preciso ainda viver;

Deixe-me... Venha mais tarde...

Tenho muito que fazer...”

Disse a Morte, brandamente:

- “O seu pedido é perfeito,

Mas o seu tempo é chegado

E o que se fez está feito.

Você me chama por grande,

Como se eu fosse rainha,

No entanto, entre as criaturas,

Sou fraca e pequenininha...”

João acordou, assustado,

Vestiu-se, pôs o boné;

Ao calçar-se, um prego solto

Feriu-lhe um dedo do pé.

Logo, logo, o dedo inchado

Impunha-lhe muita dor...

Fez banhos, colou emplastros,

Mancando foi ao doutor.

Mas tudo acabou, em vão...

Com várias radiografias,

O tétano levou João

Simplesmente em cinco dias...

TAREFA  FRUSTRADA

Jair Presente

Fora ele um grande herói

Na abastança de outros dias...

Agora, doente e velho,

Agonizava Matias.

Gemia, desamparado,

Quem tanto estendera o bem...

Febril, tinha sede e frio

Mas não surgia ninguém.

Orara e dizia, humilde:

- “Jesus é o refúgio meu!...”

E quem devia ampará-lo

Naquela hora era eu...

Abnegados mentores

Que lhe escutaram a prece,

Enviaram-me a servi-lo

Em tudo quanto eu pudesse.

Caia a noite. Cheguei

Ao pequeno pardieiro,

No intuito de auxiliar

Ao querido companheiro.

Depois de assustado, ao vê-lo

Exposto na tábua nua,

Dispus-me a buscar-lhe amparo,

Mesmo fosse, rua em rua...

Pedi, em prece, aos amigos

De minha pobre existência

Que me fizessem andar

Em minha antiga aparência;

Passados breves instantes,

Entrei na licença rara:

Achava-me, tal qual eu fora:

- Corpo igual ao que deixara.

Tentando obter apoio

Que reanimasse o velhinho,

Memorizando endereços,

Fui à casa de Antoninho.

Tinha nele um grande amigo,

Falei do velho doente,

Ele gritou, espantado:

- “Você é o Jair Presente?

Embora você me lembre

Um cara amigo já morto,

Não tenho qualquer auxílio

Para os pobres sem conforto...”

Corri procurando o Sérgio,

Ele exprimiu-se, zombando:

“Se eu pudesse dar esmolas

Não vivia trabalhando...”

Saí, apressadamente,

Para a casa do Dirceu,

Ele, porém, me falou:

- “Auxílio? Primeiro eu...”

Modificando o roteiro

Procurei por Dona Clara,

Ela me disse: “Não tenho!...

A vida está muito cara...”

Tudo em vão... Sempre pedindo,

Fui a vinte moradias...

Não encontrei um vintém

Para socorro ao Matias.

Regressei, desiludido,

Ao pardieiro isolado,

Para ver como estaria

Passando o pobre coitado...

Cheguei chamando o doente...

Tudo silêncio e vazio...

Matias, naquele instante,

Morrera aos golpes do frio.

UM  CASO  DE  OBSESSÃO

Jair Presente

Dos casos que tenho visto,

O de Antonico Vicente

É uma história como tantas

Para educar muita gente.

Dono de imensa fortuna,

Era um sovina acabado,

Quem lhe pedisse um favor

Saía desanimado.

A mendigo que rogasse

A esmola de algum vintém,

Sarcástico, respondia:

- “Espera o ano que vem.”

Um dia, chegou, no entanto,

Em que Antonico mudado,

Apareceu, de repente,

Plenamente obsedado.

Cantava, chorava e ria,

Falava em estranhas crises,

Transformara-se num pouso

De espíritos infelizes.

Conduzido a um centro amigo,

A fim de obter socorro,

Ele chegou a clamar:

-   “Não agüento!... Sei que morro!”

-          

Depois de preces e passes,

Veio o Guia acalentá-lo...

Antonico, de improviso,

Melhorou quase de estalo.

Por quatro meses de bênção,

Voltou a ser folgazão,

Largou as más influências,

Curou-se da obsessão.

Era, porém, sempre o mesmo...

Nada de agir para o bem

Fosse qual fosse o pedido,

Não amparava a ninguém.

Findos dez meses de paz,

Disse-lhe o guia: “Antonico,

Não deixe de trabalhar,

Recorda que és forte e rico.”

-  “Que fazer?” – perguntou ele...

Disse o Guia – alma sincera –

“Socorre aos necessitados,

A caridade te espera.

Abandona a sovinice!...

Meu amigo, escuta e pensa.

Auxilia as boas obras

Sem aguardar recompensa.

O tempo segue e não pára”...

Atende, meu companheiro,

Distribui na caridade

Um tanto de teu dinheiro!...”

Mas, ouvindo esses conselhos,

Antonico, sem razão,

Xingou a beneficência

E entrou em perturbação.

Por muitos anos, bradou:

- “A ninguém darei meu cobre...”

Antonico alimentava

O medo de ficar pobre.

E gritou até morrer

No Sítio de João do Zorro,

Comendo barro e clamando:

-  “Não aguento! Sei que eu morro!...”

UM  MÉDIUM

Jair Presente

“O que vem a ser um médium?”

Esta pergunta travessa

Demonstra que você traz

Muitos grilos na cabeça.

O médium é uma pessoa

Que trabalha, luta e sente,

Alegra-se, sofre e chora

Qual acontece com a gente.

Costuma ter batedeira,

Desarranjos de bexiga,

Dor nos rins, urina solta,

Fraqueza e dor de barriga...

De estômago delicado,

Muitas vezes, sente azia,

Vesícula complicada,

Engulho e disenteria.

Sempre que coma demais

Dos pratos que tem à mão,

Aflige-se em mal-estar

Ou geme na indigestão.

Tem febre e dor-de-cabeça

Quando apanha resfriados,

Quase sempre, traz no corpo

Os nervos destrambelhados.

Em amor, tem simpatias

Como acontece a qualquer

Se é mulher, pensa no homem,

Se é homem, pensa em mulher.

Necessita, nesse assunto,

De instrução e de doutrina,

Porque amor, em qualquer tempo,

Não dispensa a disciplina.

Se você quer ser um médium,

Conserva a fé que não cai,

Agarra-te a Jesus Cristo,

Aprende a servir e vai...

VOTO  DE  AMIGO

Jair Presente

Recebi a sua carta

Na qual encontrei o ensejo

De escrever-lhe esclarecendo

Aquilo que lhe desejo.

Não posso dizer-lhe tudo

Quanto quero e mais me agrade,

Peço a Jesus que lhe dê

A luz da felicidade.

Mas alguns pontos ligeiros

Posso aqui assinalar,

Por tratarem claramente

De seu próprio bem-estar.

Deus o livre de ambição

Sobre as posses do vizinho,

Das palavras mal faladas,

Das tentações do caminho.

Deus o livre do costume

De pular cerca ou porteira,

De qualquer moça fogosa,

De mulher alcoviteira.

Peça a Jesus que o socorra

Com recursos naturais,

Peça o que se faz preciso,

Mas não peça o que é demais.