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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A Evolução Anímica-Parte 1-Gabriel Delanne

 

ÍNDICEPARTE 1PARTE 2- PARTE3

Gabriel Delanne

A Evolução Anímica

CAPITULO I

A VIDA

SUMÁRIO: Estudo da vida. - Destruição orgânica. - Criação orgâ­nica. - Propriedades gerais dos seres vivos. - Condições gerais de manutenção da vida. - A umidade. - O ar. - O calor. - Condições químicas do meio. - A força vital. - Por que se mor­re. - A utilidade fisiológica do perispírito. - A idéia diretriz. - O funcionamento do organismo. - O papel psicológico do peris­pírito. - A identidade. - O sistema nervoso e a força nervosa ou psíquica. - Resumo.

CAPÍTULO II

A ALMA ANIMAL

SUMARIO: Os selvagens. - Identidade corporal. - Estudo das faculdades Intelectuais e morais dos animais. - A curiosidade. - O amor­-próprio. - A imitação inteligente. - A abstração. - A linguagem. - A Idiotia. - Amor conjugal. - Amor materno. - Amor do próximo. - O sentimento estético. - A gradação dos seres. - A luta pela vida. – Resumo.

CAPITULO III

COMO O PERISPIRITO PODE ADQUIRIR PROPRIEDADES FUNCIONAIS

SUMARIO: A evolução anímica. - Teoria celular. - Nos organismos, mesmo rudimentares, é preciso a presença do elemento perispiri­tual - Diferenciação das células originariamente idênticas desde a sua formação. - Movimentos que se fixam no invólucro. - Nas­cimento e desenvolvimento dos instintos. - A ação reflexa, o seu papel, Inconsciência e consciência. - Progressão paralela do siste­ma nervoso e da Inteligência. - Resumo.

CAPITULO IV

A MEMORIA E AS PERSONALIDADES MOLTIPLAS

SUMARIO: A antiga e a nova psicologia. - Sensação e percepção. - O Inconsciente psíquico. - Condições da percepção. - Estudo da memória.- A memória orgânica ou inconsciente fisiológico. – A memória psíquica. - A memória propriamente dita. - Os aspec­tos múltiplos da personalidade. - A personalidade. - As altera­ções da memória pela enfermidade. - Personalidade dupla. - História de Félida. - História da senhorita R. L. - O sonambulismos provocado. - Os diferentes graus do sonambulismo. - O esquecimento das existências anteriores. - Resumo.

CAPÍTULO V

O PAPEL DA ALMA DO PONTO DE VISTA DA ENCARNAÇÃO, DA HEREDITARIEDADE E DA LOUCURA

SUMÁRIO: A força vital. - O nascimento. - A hereditariedade. - Pangénese. - A hereditariedade fisiológica. - A hereditariedade psicológica. - A obsessão e a loucura. - Resumo.

CAPITULO VI

O UNIVERSO

SUMARIO: A matéria e o espírito. - A evolução cósmica. - A evolução terrestre.

CONCLUSÃO

NOTAS DE RODAPÉ

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INTRODUÇÃO

Constitui-se o Espiritismo de um conjunto de doutrinas filosóficas, reveladas pelos Espíritos, isto é, por inteligências que viveram na Terra. Seu estudo pode dividir-se em duas partes distintas, a saber:

1 - Análise dos fatos concernentes ao estabelecimento de comunicasses entre os vivos e os impropriamente chamados mortos;

2 - Exame das teorias elaboradas por esses ditos mortos.

A característica deste nosso fim de século é, não há negá-lo, uma evolução radical de idéias.

Partindo do materialismo, homens de alta envergadura científica lograram convencer-se de que o niilismo intelectual é a mais balofa das utopias. Hipótese contraditória de quantos conhecimentos se hão adquirido a respeito da alma, ela, de fato, nada explica da natureza e só produz um profundo desânimo e abastardamento das inteligências, em face do nada. As velhas crenças imortalistas, apoiadas no ensino religioso, dir-se-ia es­tarem quase desaparecidas; e, daí, a evidência de conseqüências lamentáveis a que assistimos, como resultantes da falta de um ideal coletivo.

É mais que chegado o tempo de reagir, vigorosamente, con­tra os sofismas dos pseudo-sábios que, orgulhosamente, decretaram a incognoscibilidade da morte. É preciso quebrar todas as resistências arbitrárias, impostas à perquirição do além, tão certo como o é podermos afirmar hoje que a sobrevivência e a imortalidade do ser pensante são verdades demonstradas com evidência inconfundível.

O Espiritismo chegou justo na sua hora. Diante das negações de um grosseiro cepticismo, a alma afirmou-se viva depois da morte, mercê de manifestações tangíveis, que a ninguém já fora licito contestar, sob pena de incidir na pecha, aliás justa, de ignorante ou preconceituoso.

Debalde tentaram, em começo, combater pelo sarcasmo a nova doutrina. Todos os ridículos foram inócuos, de vez que a verdade traz consigo o selo da certeza, dificilmente irreconhecível. Mudaram, então, de tática os negativistas, e pretenderam triunfar da nova ciência, organizando-lhe em torno à conjura­ção do silêncio.

A despeito das numerosas investigações tentadas por físicos e químicas eméritos, a ciência oficial fechou, obstinada, ouvidos e olhos aos fatos, que davam brilhante desmentido às suas asserções, e fez constar que o Espiritismo estava morto. Mas, essa é uma ilusão que importa desfazer, pois que o Espiritismo, ao presente, afirma-se mais do que nunca florescente. Iniciado com as mesas girantes, o fenômeno atingiu proporções verdadeiramente extraordinárias, respondendo a todas as críticas contra ele lançadas, mediante fatos peremptórios e demonstrativos da falsidade de quantas hipóteses imaginavam para explicá-lo.

A teoria dos movimentos espontâneos e inconscientes, preconizada por autoridades quais Babinet, Chevreul, Faraday, os Espíritos opuseram o movimento de objetos inanimados a se deslocarem sem contacto visível aos observadores, assim como o atesta o relatório da Sociedade Dialética de Londres.

A negação de uma força emanante do médium, responde William Crookes com a construção de um aparelho destinado a medir matematicamente a ação da força psíquica, a distancia. (1)

Para destruir o argumento predileto dos incrédulos - a alucinação -, as entidades do espaço consentiram em fotogra­far-se, demonstrando, destarte, e de maneira inconteste, a sua objetividade.

Possível, também, foram obterem-se moldes dos membros de um corpo fluídico temporariamente formado, e logo desaparecido; e essas impressões materiais subsistem, como documentação autêntica da realidade das aparições.

Entrementes, dava os Espíritos à medida do seu poder sobre a matéria, produzindo a escrita à revelia de todos os meios conhecidos e transportando, sem dificuldade, através de paredes, em ambientes fechados, objetos materiais. Davam prova, enfim, de sua inteligência e personalidade, tendentes a demonstrar que tiveram existência real na Terra.

De fato, muito se tem dito e escrito contra o Espiritismo; mas, todos que hão tentado destruí-lo só conseguiram revigorá-lo e engrandece-lo no batismo da crítica.

Todos os anátemas, todas as negações tendenciosas houve­ram de retrair-se e desaparecer, diante da avalancha de do­cumentos acumulados pela tenacidade dos investigadores. O fato espírita conquistou adeptos em todas as classes sociais.

Legisladores, magistrados, professores, médicos, engenhei­ros, não temeram proclamar a nova fé, resultante de um exame atento, quarto de uma longa experimentação.

Faltando apenas a essas manifestações o beneplácito das ciências, eis que obtiveram-nas pela voz de seus mais reno­mados expoentes. Na França, Alemanha, Inglaterra, Rússia, Itália, América do Norte, sábios ilustres deram a essas pesquisas um caráter tão rigorosamente positivo que já se não pode hoje recusar a autoridade de suas afirmações, mil vezes repetidas. Longa e porfiosa foram à luta, de vez que os espiritistas tiveram de combater os materialistas, cujas teorias se aniquilam em face de tais experiências, e, de contrapeso, as religiões, que sentem oscilar os seus dogmas seculares, ao embate irresistível dos desencarnados.

Em obra precedente (2), expusemos metodicamente o magnífico surto que a experimentação atingiu. Discutimos, ponto por ponto, todas as objeções dos incrédulos, estabelecemos a inanidade das teorias imaginadas para explicar os fenômenos, seja mediante as leis físicas atualmente conhecidas, seja pela sugestão ou alucinação, e, do nosso imparcial exame, o que resultou foi a inabalável certeza de que esses fenômenos precedem dos seres humanos que aqui viveram.

Na hora atual, nenhuma escola filosófica pode fornecer explicação adequada aos fatos, fora do Espiritismo.

Os teósofos, os ocultistas, os magos e evocadores outros de antanho, em vão tentaram explicar os fenômenos, atribuin­do-os a entidades imaginárias, ditas - Elementais ou Elemen­tares, cascas astrais ou inconsciente inferior: tudo hipóteses, irresistíveis a um exame sério, de vez que não abrangem todas as experiências e só complicam a questão, sem necessidade. Também, por isso, nenhum desses sistemas pôde propagar-se, e eclipsaram-se todos, tão prestes quanto abrolharam.

A sobrevivência do ser pensante impôs-se, desprendida de todas as escórias, magníficas em seu esplendor; o grande pro­blema do destino humano está resolvido; rasgou-se o véu da morte, e, através da ogiva aberta para o infinito, vemos irradiar na imortalidade os entes queridos, todos os afetos que acreditávamos extintos por todo o sempre.

Não vamos, pois, reexaminar aqui todas as provas que pos­suímos da sobrevivência, no pressuposto deita estar a sua demonstração.

Nosso objetivo, nesta obra, é estudar o Espírito encarnado, tendo em vista os tão lógicos ensinos do Espiritismo e as ultimas descobertas da ciência.

Os conhecimentos novos, devidos às inteligências extraterrenas, ajudam-nos a compreender toda uma categoria de fenômenos fisiológicos e psíquicos, que, de outro modo, se tornam inexplicáveis.

Os materialistas, com o negarem a existência da alma, pri­vam-se, voluntariamente, de noções indispensáveis à compreensão dos fenômenos vitais do ser animado; e os filósofos espiritualistas, por sua vez, empregando o senso íntimo como Instrumento único de investigação, não conheceram a verdadeira natureza da alma; de sorte que, até agora, não lhes foi possível conciliar, numa explicação comum, os fenômenos físicos e os mentais

O Espiritismo, facultando o conhecimento da composição do Espírito, tornando, por assim dizer, tangível a parte fluídica de nós mesmos, projetou viva luz nesses meandros aparentemente inabordáveis, de vez que permite abarcar em uma vasta síntese todos os fatos da vida corporal e intelectual, e mostram-nos as relações entre uma e outra, até aqui desconhecidas.

A fim de tornar mais compreensível o nosso pensamento, convém lembrar, em poucas palavras, as noções novas que da alma temos adquirido, e que servirão para fixar em alto-relevo a originalidade e grandeza da nova doutrina.

O ensino dos Espíritos foi, como sabemos, coordenado com superioridade de vistas marcante e lógica irrefragável, por Allan Kardec (3). Filósofo profundo, ele expôs metodicamente uma série de problemas relativos à existência de Deus, da alma, da constituição do Universo. Deu solução clara e racional à maior parte dessas questões difíceis, tendo o cuidado de for­rar-se de raciocínios metafísicos. Daí, o tomarmo-lo por guia neste sucinto resumo.

A alma, ou Espírito, é o princípio inteligente do Universo. Indestrutível, ao mesmo título que a força e a matéria, não lhe conhecemos a essência íntima, mas somos obrigados a reco­nhecer-lhe existência distinta, uma vez que as suas faculdades diferenciam-no de quanto existe. O princípio inteligente, do qual emanam todas as almas, é inseparável do fluido universal (4), ou por outra da matéria sob a sua forma original, primordial, o que vale dizer, em seu estado mais puros.

Todos os Espíritos, qualquer que seja o grau de seu pro­gresso, são, portanto, revestidos de uns invólucros invisíveis, intangíveis e imponderáveis. Perispírito é como se denomina esse corpo fluídico.

Com isso, o Espiritismo acarreta vistas novas e um novo ensino. Contrariamente à opinião comum, ele demonstra que a alma não é uma pura essência, uma como abstração ideológicas, uma entidade vaga, qual a crê os espiritualistas; mas, contrário, um ser concreto, dono de um organismo físico feitamente delimitado.

Se, no estado normal, a alma é invisível, pode, contudo, aparecer mediante condições determinadas, e com especificidade capaz de impressionar nossos sentidos.

Os médiuns vêem-na no espaço, sob a forma que retinha na Terra. Por vezes, ela chega a materializar-se de maneira a deixar lembrança duradoura de sua intervenção; e, neste caso, podemos, em resumo, dizer que, em se esquivando aos nossos sentidos, não deixa de ser, por isso, real e operante quanto o homem terrestre.

No decurso deste estudo veremos que, apesar da sua materialidade, o perispírito é tão eterizado que a alma não poderia atuar sobre a matéria sem o concurso de uma força, a que sé conveio em chamar fluido vital.

A finalidade da alma é o desenvolvimento de todas as faculdades a ela inerentes. Para consegui-lo, ela é obrigada a encarnar grande número de vezes, na Terra, a fim de acendrar suas faculdades morais e intelectuais, enquanto aprende a se­nhorear e governar a matéria. É mediante uma evolução ininterrupta, a partir das formas de vida mais rudimentares, até à condição humana, que o princípio pensante conquista, lentamente, a sua individualidade. Chegado a esse estágio, cumpre­-lhe fazer eclodir a sua espiritualidade, dominando os instintos remanescentes da sua passagem pelas formas inferiores, a fim de elevar-se, na série das transformações, para destinos sempre mais altos.

As reencarnações constituem, destarte, uma necessidade inelutável do progresso espiritual. Cada existência corpórea não comporta mais do que uma parcela de esforços determinados, após os quais a alma se encontra exausta. A morte representa, então, um repouso, uma etapa na longa rota-- da eternidade. Depois, é a reencarnação novamente, a valer um como rejuvenescimento para o Espírito em marcha. A cada renascimento, as águas do Letes propiciam à alma uma nova virgindade: desvanecem-se os erros, prejuízos, as superstições do passado. Paixões antigas, ignomínias, remorsos, desaparecem, o es­quecimento cria um novo ser, que se atira cheio de ardor e entusiasmo, no percurso da nova estrada. Cada esforço redunda num progresso e cada progresso num poder sempre maior. Essas aquisições sucessivas vão alteando a alma nos inumerá­veis degraus da perfeição.

Revelações são essas que nos fazem entrever as perspec­tivas do infinito. Mostram-nos a eternidade da existência a desenvolverem-se nos esplendores do cosmo; permitem-nos me­lhor compreender a justiça e bondade do imortal autor de todos os seres e de todas as coisas.

Criados iguais, todos temos as mesmas dificuldades a vencer, as mesmas lutas a sustentar, o mesmo ideal a atin­gir a felicidade perfeita. Nenhum poder arbitrário a predes­tinar uns à beatitude, outros a tormentos sem fim. Unidos, só o somos de própria consciência, pois ela é quem, ao retornarmos ao espaço, nos aponta as faltas cometidas e os meios de as repararmos.

Somos, assim, o árbitro soberano de nossos destinos; cada encarnação condiciona a que lhe sucede e, mal grado a lentidão da marcha ascendente, eis a gravitar incessantemente para alturas radiosas, onde sentimos palpitar corações fraternais, e entrarmos em comunhão sempre mais e mais íntima com a grande alma universal - A Potência Suprema.

Para dar a esses ensinos toda a autoridade que eles com­portam, é preciso mostrar que os Espíritos que no-los ditaram não se enganaram. É preciso verificar-lhes as afirmações, pas­sá-las ao crivo da razão, e, sempre que possível, ver se concor­dam com os modernos dados científicos.

No intuito de nos submetermos a esse programa e proceder com método, começaremos por estudar o papel da alma durante a encarnação.

Mostraremos a importância funcional do novo órgão deno­minado perispírito, e grato nos será constatar que a fisiologia e a psicologia se beneficiam de claridades novas, quando, no mecanismo da sua fenomenalidade, intermitimos o Espírito revestido do seu envoltório.

Preliminarmente, ensaiaremos determinar a natureza e as funções do perispírito. Bem conhecidas uma e outras, estudaremos, então, alguns problemas até hoje não resolvidos.

Interrogada a Ciência, no que diz respeito à evolução vital dos seres vivos, só nos dá, quando muito, vagas respostas, antes escapatórias. Por que se morre? Por que as mesmas forças que conduzem um organismo a completo desenvolvimento se tor­nam impotentes para mantê-lo nesse estado?

Por outro lado: - de onde provém à fixidez individual e típica dos seres vivos, não obstante o fluxo permanente de matéria que renova o organismo a cada instante?

Tais as primeiras questões que nos propomos resolver, intermitindo o perispírito em nossas pesquisas.

A seguir, tentaremos evidenciar que os fenômenos da vida vegetativa e orgânica necessitam, a seu turno, da presença de uma força agente e incessante, a fim de coordenar as ações reflexas do sistema nervoso, às quais são eles devidos.

Ressaltaremos, com toda a possível clareza, a característica psíquica desses atos, por demonstrar que todos eles têm uma finalidade inteligente, no sentido de concorrência para a conservação do indivíduo.

Daí, encaminhar-nos-emos ao estudo das faculdades propriamente ditas.

Não há quem ignore as inextricáveis dificuldades em que se debatem os filósofos, quando e sempre que se trata de ex­plicar a ação do físico sobre o moral, ou da alma sobre o corpo. Pois o conhecimento do perispírito elide, radicalmente, o pro­blema. E o faz porque lança sobre os processos da vida mental intensa claridade, permitindo compreender, nitidamente, a for­mação e conservação do inconsciente, fisiológico ou psíquico.

Em mostrar os matizes progressivos, que religam e retra­çam o instinto e a inteligência, expõem ao vivo o mecanismo' das ações cerebrais e as conexões recíprocas, existentes; explica por que a alma conserva unidade e identidade através de encarnações sucessivas, e dá, sobre as condições em que se verifi­cam e completam esses renascimentos, as indicações mais precisas.

Finalmente, o perispírito revela-se o instrumento indispensável para compreendermos a ação dos desencarnados nas manifestações espíritas.

Por aí se vê que esta nossa obra tem um duplo objetivo.

Em primeiro lugar, visa demonstrar que a doutrina está concorde com as modernas teorias científicas; e, em segundo, coluna tornar conhecido o papel físico de um órgão essencial à vida do corpo e da alma, cuja existência o público mal poderia suspeitar, por ignorada até agora; e, finalmente, objetiva evidenciar a importância considerável dessa descoberta.

A própria natureza das nossas investigações obriga-nos a respigar copiosamente em trabalhos recentíssimos de cientistas contemporâneos, e, fazendo-o, apraz-nos reconhecer que os esforços desses experimentadores, com a sua metodologia rigorosa, muito adiantaram aos nossos conhecimentos. A determinação, cada vez mais exata, do funcionamento vital dos seres animados, fornece preciosos apontamentos para o nosso estudo, e se, na verdade, desprezamos as conclusões materialistas desses mesmos sábios, é que temos também, por nossa parte, fatos irrefutáveis que demonstram, com certeza, a erronia das suas deduções.

O Espiritismo dá-nos a conhecer a alma; a Ciência nos descobre as leis da matéria viva. Trata-se, portanto, para nós, de conjugar os dois ensinos, mostrar que eles mutuamente se auxiliam, se completam, tornam-se mesmo inseparáveis e indispensáveis à compreensão dos fenômenos da vida física e intelectual, por isso que de tal concordância resulta, para o ser humano, a mais esplêndida de quantas certezas lhe seja facultado adquirir na Terra.

Não deixamos de reconhecer a própria incapacidade nossa à face de semelhante escopo, mas, por imperfeito que nos saia o esboço apresentado, esperamos alcançar que um verdadeiro cientista o retome e lhe dê, por si, todo o valor que ele comporta.

O essencial a estabelecer é que não existe incompatibilidade qualquer entre as novas descobertas e a realidade dos Espíritos, ou, por outra - que nada há de sobrenatural; que a existência de criaturas revestidas de um invólucro material pode conceber-se naturalmente, e que a influência dessas criaturas sobre o organismo é conseqüência lógica de sua mesma constituição.

Não ignoramos que as teorias aqui defendidas deveriam escorar-se em demonstrações experimentais, para tornarem-se absolutamente irrefutáveis. Entretanto, certo estamos de que essas experiências virão a seu tempo. Que nos baste, por agora, apresentar hipóteses lógicas que não colidam com os ensinos científicos, explicando todos os fenômenos e mostrando a grandiosidade da síntese exeqüível, quando e sempre que se conjuguem os conhecimentos humanos com as revelações espirituais. Não é dizer que baste o só concurso da física, da química, da mecânica e da biologia para explicar os fatos espíritas, pois essas manifestações, aparentemente tão simples, exigem, para serem compreendidas, o emprego de todos os conhecimentos humanos. Assim é que, estudando o funcionamento cerebral do médium em comunicação com os desencarnados, o Espiritismo afeta os problemas mais árduos da fisiologia e da psicologia.

A natureza particular das forças em jogo nas materializações torna-se objeto de profundas elucubrações para o sábio, de vez que o processo de atuação sobre a matéria, por parte dos invisíveis, difere radicalmente de tudo o que até agora conhecemos.

No dia em que a Ciência persuadir-se da veracidade da nossa doutrina, dar-se-á legítima revolução nos métodos até aqui utilizados. Pesquisas que apenas colimam a matéria elevar-se-ão para a alma. E o mundo verá entreabrir-se uma Era Nova; a Humanidade, regenerada por uma fé racional, avançara na conquista de todos os progressos que até hoje mal tem podido lobrigar.

Muito tempo defluirá, certo, antes que essas esperanças se realizem. Que importa? Nosso dever é aplainar o caminho aos pósteros. Tentemos, portanto, aproveitar as modernas desco­bertas, adaptando-as à Doutrina. Penetremos as profundezas do ser humano, em conexão com a fisiologia e aclarados pelo Espiritismo. Tornemos, por assim dizer, palpável a influência da alma, ora em estado consciente, ora em estado inconsciente, sobre todos os fenômenos vitais.

Escrutemos, minuciosos, as relações tão delicadas, quão im­portantes, do físico com o moral. Tentemos determinar as cone­xões da vida psíquica com os fenômenos orgânicos. Procuremos no homem o elemento que subsiste e identifica o ser, bem como a sede das faculdades da alma.

Por fim, resumindo todas as observações, ensaiemos con­ciliar, numa visão de conjunto, tudo o que afete corpo e alma com as conclusões a que houvermos chegado.

Essas as condições que nos guiaram na feitura deste livro. Não temos a pretensão de haver aclarado completamente todas as questões, mas acreditamos concorrer ao debate com documen­tos novos, e apresentar, sob mais compreensível prisma, fatos até agora obscuros e inexplicados. Esperamos, sobretudo, que deste nosso trabalho ressalte a convicção de que o Espiritismo é, positivamente, uma verdade, de vez que nos faculta a chave daquilo que a ciência humana é impotente para descobrir.

Gray, 10 de agosto de 1895.

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À minha estimada tia ANNETTE DELANNE,

Dedico este livro como teste­munho do meu amor, e como prova do meu reconhecimento pela ternura com que povoou minha infância.

CAPITULO I

A VIDA

SUMÁRIO: Estudo da vida. - Destruição orgânica. - Criação orgâ­nica. - Propriedades gerais dos seres vivos. - Condições gerais de manutenção da vida. - A umidade. - O ar. - O calor. - Condições químicas do meio. - A força vital. - Por que se mor­re. - A utilidade fisiológica do perispírito. - A idéia diretriz. - O funcionamento do organismo. - O papel psicológico do peris­pírito. - A identidade. - O sistema nervoso e a força nervosa ou psíquica. - Resumo.

Ao iniciar este estudo, convém entendermo-nos sobre a acepção do vocábulo - vida assaz tomado em sentidos di­versos. Às vezes, confere-se-lhe uma significação genérica, abstrata, para designar o conjunto de coisas existentes, quando se fala da vida universal; outras vezes, e mais comumente, empregamo-lo para caracterizar os seres animados.

Em fisiologia, por exemplo, a palavra vida corresponde a qualquer coisa de objetivo, como seja, para o ser animado, a faculdade de responder, por movimentos, a uma excitação exterior. Os filósofos, porém, que discorrem sobre a vida da alma, referem ao vocábulo uma significação inteiramente diversa, pre­tendendo com ele definir a espontaneidade da mesma vida, em contradita à definição precedente.

A fim de evitar toda e qualquer confusão, vamos estabele­cer uma distinção essencial entre as manifestações da alma, no estado de encarnação, e as que ela prodigaliza e acusa na sua existência incorpórea. As faculdades do Espírito, digamo-lo desde logo, são sempre as mesmas; mas, na Terra, elas têm exercício subordinado a condições orgânicas, por sua vez ligado ao e dependentes do meio exterior, tal como havemos de compro­var o breve trecho, ao passo que, no plano etéreo, nenhum entrave lhe restringe o jogo das faculdades psíquicas.

A vida será, logo, para nós, a característica dos seres orga­nizados que nascem, vivem e morrem. Atribuímo-la a uma modificação especial da energia: - as forças vitais, cuja natureza teremos o cuidado de bem definir, e cuja presença haveremos de reconhecer com os fisiologistas, sempre que verificarmos num ser o movimento reativo de excitação externa, ou seja, o fato de que esse ser é irritável.

Segundo a nossa forma de ver, a vida só existe em função da matéria organizada, e impossível fora descobri-Ia alhures, podendo dizer-se, sem paradoxo, que a alma não é vivente por­ que seja mais e melhor: - tem "existência integral", visto que, não sendo organizada, não se submete à morte.

A vida, em seus aspectos multifários, jamais deixou de ser um problema fascinante para todos os pensadores.

As diversas escolas filosóficas em desfile pelo mundo, cada qual por sua vez, procuraram investir a questão, e, consoante as idéias em curso de ocasião, deram-lhe soluções muito dispa­res. Mas, foi, a bem dizer, do último século a esta parte que os progressos alcançados em todos os setores do conhecimento humano permitiram abordar o problema a sério, e determinar­-lhe os limites. Uma visada rápida das condições necessárias à manutenção e ao desenvolvimento da vida impõe-se-nos, a fim de podermos saber se ela é devida a um princípio especial, ou se não passa de resultante das forças naturais, em ação permanente no mundo.

Estudo da vida

Vamos resumir os trabalhos mais recentes sobre o assun­to (5). Para todos os seres, a vida resulta das relações existentes entre a sua constituição física e o mundo exterior. O organismo é preestabelecido, pois que provém dos ancestrais, por filiação.

A ação das leis físico-químicas, ao contrário, varia segundo as circunstâncias. A essa oposição de forças, Claude Bernard denomina conflito vital. (6)

"Não é - diz ele - por uma luta contra as condições cósmicas que o organismo se mantém e se desenvolve, mas, muito ao contrário, por uma "adaptação", um acordo. O ser vivo não constitui exceção à grande harmonia natural, que faz que as coisas se adaptem umas às outras. Ele, o ser vivo, não rompe nenhum acordo, não está nem em contradição nem em luta com as forças cósmicas. Muito pelo contrário, ele faz parte do concerto universal, e a vida do animal, por exemplo, não passa de fragmento da vida total do Universo."

Esse conflito vital origina duas espécies de fenômenos:

1-Fenômenos de destruição orgânica, isto é, de desorgani­zação ou desassimilação;

2-Fenômenos de criação orgânica, indiferentemente cha­mados organização, síntese orgânica ou assimilação.

Destruição orgânica

Coisa curiosa são os fatos de destruição, porque são os mais aparentes, aos quais, geralmente, se liga à idéia de vida. A des­truição orgânica é, com efeito, determinada pela função do ser vivente. Quando, no homem ou no animal, sobrevém um mo­vimento, uma parte da substância ativa do músculo se destrói ou se queima; quando sensibilidade e vontade se manifestam, há um desgaste de nervos; quando se utiliza o pensamento, é porção de cérebro que se consome. Poder-se-á, então, dizer que jamais a mesma matéria serve duas vezes à vida. Realizado um ato, a matéria que lhe serviu à produção deixa de existir. Rea­pareça o fenômeno, é matéria nova que a ele concorre.

“A usura molecular é sempre proporcional à intensidade das manifestações vitais. A alteração material será tanto mais pro­funda ou considerável, quanto mais ativa se mostre à vida”.

“A desassimilação expulsa das profundezas do organismo substâncias tanto mais oxidadas pela combustão vital, quanto mais enérgico se verifique o funcionamento dos órgãos. Essas” oxidações, ou combustões, engendram o calor animal, produzem o ácido carbônico que se exala pelos pulmões, além de outros produtos eliminados por diferentes glândulas da economia. O corpo se gasta e sofre consumação e perda de peso, que tra­duzem e medem a intensidade das funções. Por toda parte, a bem dizer, a destruição físico-química liga-se à atividade funcional, e nós podemos encarar como axioma. fisiológico a seguin­te proposição: toda manifestação de um fenômeno vital liga-se, necessariamente, a uma destruição orgânica." (7)

Essa destruição é sempre devida a uma combustão, ou a uma fermentação.

Criação orgânica

Os fenômenos de criação orgânica são atos plásticos, que se completam nos órgãos em repouso, e os regeneram. A síntese assimiladora reúne os materiais e as reservas que o funcionamento deve despender. É um trabalho intimo, silencioso, nada havendo que o possa trair exteriormente.

A viveza com que se nos apresentam, externamente, os efeitos da destruição orgânica, ilude-nos a ponto de lhes cha­marmos fenômenos vitais, quando, na realidade, são letais, por isso que se engendram destruindo tecidos.

“Não somos impressionados pelos fenômenos da vida. A re­paração de órgãos e tecidos opera-se íntima, silenciosamente, fora de nossas vistas. Só o embriogenista, acompanhando o desenvolvimento do ser vivo, apreende permutas e fases reve­ladoras desse trabalho surdo. É aqui, um depósito de matéria; ali, uma formação de invólucro, ou núcleo; acolá, uma divisão, uma multiplicação, uma renovação”.

"Muito pelo contrário, os fenômenos de destruição, ou de morte vital, saltam-nos à vista e é por eles, aliás, que costu­mamos caracterizar a vida. Entretanto, quando se opera um movimento e um músculo se contrai; quando vontade e sensibilidade se manifestam; quando o pensamento se exerce; quando a glândula segrega, o que se dá é consumo de substância muscular, nervosa, cerebral: portanto, fenômenos de destrui­ção e morte." (8)

Em todo o curso da existência, essas destruições e criações são simultâneas, conexas, inseparáveis. Ouçamos sempre o emi­nente fisiologista:

"As duas ordens de fenômenos de destruição e criação, apenas se concebem separáveis e divisíveis, espiritualmente fa­lando. Por natureza, elas se encontram estreitamente ligadas e cooperam em todo o ser vivente numa entrosagem que jamais se poderia romper. As duas operatórias são absolutamente co­nexas e inseparáveis, no sentido de que a destruição é condicio­nal imprescindível da renovação. Os atos destrutivos são os precursores e instigadores daqueles por que as partes se res­tauram e renascem, ou seja, dos de renovação orgânica. Dos dois tipos de fenômenos, o que se poderia dizer o mais vital, o fenômeno de criação orgânica, está, portanto, de algum modo subordinado ao fenômeno físico-químico da destruição."

Propriedades gerais dos seres vivos

As propriedades gerais dos seres vivos, as que os distinguem da matéria bruta dos corpos inorgânicos, contam-se por quatro: organização, geração, nutrição e evolução.

Dessas quatro propriedades fundamentais, a Ciência não ex­plica claramente mais do que uma - a nutrição, se bem que, ainda aqui, o fenômeno mediante o qual as células selecionam, no sangue, os materiais que lhes são úteis, não está bem estudado.

Veremos dentro em breve que organização e evolução não podem ser compreendidas só pelo jogo das leis físico-químicas.

E, quanto à reprodução, se é certo que lhe conhecemos o mecanismo, a causa continua sendo um mistério.

Condições gerais de manutenção da vida

Todos os seres vivos têm necessidade, para manifestarem sua existência, das mesmas condições exteriores, e nada há que melhor demonstre a unidade vital, a identidade da vida nos se­res organizados, vegetais ou animais, do que a carência das qua­tro seguintes condições: 1.a umidade, 2.a calor, 3.a ar, 4.a uma determinada composição química do ambiente.

A umidade

Indispensável é a água na constituição do meio em que evolui o ser vivente. Como princípio constituinte, entra ela na composição dos tecidos, e, ao demais, serve para dissolver grande número de substâncias, sem as quais as reações químicas incessantes, de que é laboratório o corpo, não poderiam efetuar-se. A utilidade funcional da água evidencia-se, o bastante, pelos célebres jejuadores Merlatti, Succi e o Dr. Tanner, que pude­ram vingar longos períodos de 30 a 40 dias sem comer, mas, bebendo,água destilada. Experiências feitas com cães mostraram que eles resistiam durante 30 dias à privação de alimento, desde que se lhes dessa água. A subtração deste elemento ocasional, em certos roteiros, curiosos fenômenos de vida latente: esses animais, convenientemente privados de água, perdem todas as propriedades vitais, ao menos na aparência, e podem assim permanecer anos a fio. Desde, porém, que se lhes restitua um pouco de água, recomeçam a viver como antes, dado que a pri­vação não tenha ultrapassado certos limites. No homem, o coeficiente de água contida no corpo é de 90%, o que só por si representa o seu alto valor substancial na economia orgânica.

O ar

O ar, ou melhor, o oxigênio que lhe compõe a parte respirável, é necessário à maioria dos seres vivos, mesmo aos inferiores, quais as leveduras ou micodermas. Pasteur mostrou que os microrganismos originam fermentações, em se apropriando do oxigênio. Experiências feitas em coelhos evidenciaram que o animal sucumbe quando a proporção do oxigênio, de 21/104, diminui de 3 a 5/100.

O calor

É o terceiro dos elementos que entretêm os corpos vivos. Sabemos que a vida dos vegetais se mantém em correlação ínti­ma com a temperatura ambiente. O frio intenso congela os líquidos do organismo e desmancha os tecidos. Há, mesmo, para cada animal, uma temperatura média, correspondente ao má­ximo de vida. Os elementos do corpo, nos animais superiores, são assaz delicados, e os limites extremos, entre os quais a vida pode manter-se, são, a seu turno, convizinho. Não pode a tem­peratura interna do organismo descer abaixo de 20 graus nem se elevar acima de 45 graus, para os humanos, e de 50 graus, para as aves. Assim, nos animais superiores há uma temperatura média, que se mantém constante, graças a um conjunto de mecanismos governados pelo sistema nervoso. Sem essa fixidez, a função vital jamais poderia executar-se.

Condições químicas do meio

Para bem compreendermos o alcance dessa condição, é preciso não esquecer que denominamos organismo vivo tanto à célula componente dos tecidos vegetais e animais, como a esses mesmos vegetais e animais. De fato, a célula é bem um ser vivo: organiza-se, reproduz, alimenta-se e evolui, tal como o animal superior.

Após os trabalhos de Schleiden, em 1838, de Schwann, em 1839, de Prévost e Dumas, em 1842, de Kolliker, em 1844 e, mais tarde, de Max Schultze, sabe-se que, a partir da célula livre e única, por Haeckel chamada "plastídio", até o homem, todos os corpos vivos não passam de associações de células, idênticas em natureza e composição, mas gozando de propriedades dife­rentes, conforme o lugar ocupado no organismo.

Assim, os mais variados tecidos do corpo: ossos, nervos, músculos, pele, unhas, cabelos, córnea ocular, etc., formam-se de agregados celulares.

A seguir, veremos que a natureza oferece todos os graus de complexidade na reunião desses elementos orgânicos primá­rios, peculiares a todo ser vivente. Isto posto, voltemos à quarta condição. Além de calor, ar e água, torna-se indispensável que o meio liquido que banha as células contenha certas substân­cias indispensáveis à sua nutrição. Durante muito tempo se acreditou que tal meio variava conforme a natureza do ser. Investigações contemporâneas permitiram, porém, verificar que o meio era uniforme para todos os organismos vivos, devendo conter:

1.° - Substâncias azotadas, nas quais entram azoto, carbono, oxigênio e hidrogênio.

2.° - Substâncias ternárias, ou seja compostas dos três ele­mentos - carbono, oxigênio e hidrogênio.

3.° - Substâncias minerais, como sejam os fosfatos, a cal, o sal, etc.

Uma circunstância, a bem fixar, é que essas três espécies de substâncias, quaisquer que sejam as formas de que se revis­tam, são indispensáveis ao entretenimento da vida. Com essas matérias-primas fabricam os organismos tudo o que lhes aproveita à vida do corpo. Essas condições aqui estudadas devem realizar-se na esfera de contacto e influência imediata sobre a partícula vivente, entrando com ela em conflito.

Somos, então, levados a distinguir dois meios, a saber:

1. - O meio cósmico ambiente, ou exterior, com o qual estão em relação todos os seres elementares.

2. - O meio interior, que serve de intermediário entre o mun­do exterior e a substância viva.

Se quisermos bem considerar as partes verdadeiramente vivas dos tecidos, isto é, as células, notarão que elas se resguardam das influências ambientes; que se banha num liquido interior que as isola, protege e que serve de intermediário entre elas e o meio cósmico. Esse meio interior é o sangue.

Não, diga-se, o sangue in totum, mas o plasma sangüíneo, ou seja aquela parte fluida que compreende todos os líquidos intersticiais, fonte e confluente de todas as permutas endos­moticas

Absurdo não fora, então, dizer-se que o pássaro não vive no ar atmosférico, nem o peixe na água, nem a minhoca na terra.

Ar, água e terra são, por assim dizer, um segundo envol­tório do corpo, sendo o sangue o primeiro, visto ser ele que envolve imediatamente os genuínos elementos vitais - as células.

Não é, pois, de modo direto que o exterior influencia esses seres complexos, que são os animais superiores, qual se dá com os corpos brutos ou com os seres vivos mais simples.

Há um intermediário forçado que se interpõe entre o agente físico e o elemento anatômico. (9)

O que acabamos de ver, basta para mostrar que a vida física está na dependência do meio exterior, e que o velho adágio - mens sana in corpore sano - é de uma veridicidade abso­luta. Para que a alma possa manifestar as suas faculdades, sem constrangimento, preciso se lhe faz a integridade da subs­tância corporal.

Similitude do funcionamento vital em todos os seres viventes

Como haveremos de ver que o princípio inteligente tem, provavelmente, percorrido todos os organismos até atingir o humano, urge patentear desde logo a grande lei de unidades das manifestações vitais em toda a Natureza.

Não podemos, aqui, estudar os fenômenos de destruição e reconstituição dos tecidos orgânicos, mas devemos assinalar que as ações físicas ou químicas em jogo são as mesmas que operam na natureza inorgânica. Por muito tempo se acreditou que os corpos vivos gozavam, neste particular, de um privilégio especial. Hoje, porém, sabemos que tal não se dá, e que, físicos ou químicos, os fenômenos são idênticos, trate-se da matéria bruta ou de corpos orgânicos. O que varia são os processos postos em ação. Os resultados são contudo, os mesmos. Pode-se, também, afirmar que, em todos os graus da escala dos seres vivos, as operações da digestão e da respiração são as mesmas, e que o que difere são os aparelhos convocados a produzir tais resultados. Também idênticos é o modo de reprodução de todos os seres vivos, e essa notável similitude de funcionamento orgâ­nico prende-se à circunstância de deverem todas as suas propriedades a um elemento comum - o protoplasma.

Assim se denomina o conteúdo vivo da célula, o que cons­titui a sua parte essencial, o que nela verdadeiramente vive. Só no protoplasma, portanto, importa procurar a razão das pro­priedades de todos os tecidos. Nele residem todas as modalida­des possíveis, conservadas em estado latente, quando isolado sob a forma primitiva da monera. É diferenciando, é separan­do-lhe as propriedades, que as vamos reencontrar isoladas nos seres superiores.

O protoplasma é o agente de todas as reconstituições orgâ­nicas, isto é, de todos os fenômenos íntimos de nutrição. Além disso, o protoplasma contrai-se sob a ação dos excitantes, e pre­side, assim, aos fenômenos da vida de relação.

Pode-se, ainda, assinalar o sono como necessidade imposta a todos os seres vivos. Dorme a planta, como dorme o animal, e assim como no animal se completam as funções respiratórias, circulatórias, assimilatórias, enquanto ele dorme, o mesmo sucede com os vegetais, quando dormitam.

O sexo e o casamento são as condições que presidem à reprodução no mundo vegetal. São os estames, os órgãos masculinos, e o pistilo, o feminino; e o ovário, o órgão onde se formam as sementes.

Finalmente, os anestésicos, que atuam tão poderosamente nos animam, produzem nas plantas os mesmos efeitos, como a provarem a existência de um princípio rudimentar de sensibilidade nos vegetais.

Todos estes fatos demonstram, à evidência, o grande plano unitário da Natureza. Sua divisa é: unidade na diversidade, de sorte que, do emprego dos mesmos processos fundamentais re­sulta umas variações infinitas, que estabelece a fecundidade ines­gotável das suas concepções, de par com a unidade da vida.

A força vital

Até aqui só temos estudado o funcionamento da vida, a maneira pela qual o organismo vivo entra em conflito com o seu meio ambiente, mas nada sabemos ainda da natureza mesma dessa vida. Compreendem-se como, por exemplo, se exercem as funções digestivas, cumpre notar que é num apare­lho vivo que elas se operam, isto é, num organismo que produ­ziu, por processos peculiarmente seus, as matérias necessárias a essa combinação química; e, se as leis de afinidade são as mesmas no laboratório vivo como no mundo exterior, não deixa de ser por processos particulares, inteiramente diferentes dos que agem sobre a matéria bruta, que a vida opera.

Eis, a propósito, o que diz Claude Bernard, juiz competente nestes assuntos:

"Posto que os fenômenos orgânicos, manifestados pelos elementos dos tecidos, estejam todos submetidos às leis gerais da físico-química, não deixam, contudo, de completar-se com o concurso de processos vitais peculiares à matéria organizada, e, neste sentido, diferem, constantemente, dos processos mine­rais que produzem os mesmos fenômenos nos corpos brutos. Esta última proposição fisiológica, tem-a como fundamental. O erro dos físico-quimistas procede de não haverem feito essa distinção e acreditarem preciso religar os fenômenos apresen­tados por seres viventes, não apenas às mesmas leis, mas tam­bém aos mesmos processos e formas pertinentes aos corpos brutos." (10)

Tem, pois, a vida uns modos especiais, viventes, de proce­der, para manter o seu funcionamento; existe no ser organizado algo inexistente nos corpos inorgânicos, algo operante por métodos particulares, sui generis, e que não só fabrica, como repara os órgãos. A esse algo chamamos força vital.

Essa observação tem sido feita por muitos naturalistas. Stah1 imaginou, para explicar a vida, uma força vital extrínseca à matéria viva, seja uma espécie de substância imate­rial - a alma - (11), causa fundamental da vida e dos mo­vimentos que se lhe prendem. Foi partindo da falsa idéia de que as forças naturais estão em antagonismo com o corpo vivo que ele acreditou residir nessa força anímica à faculdade de resistência às influências destrutivas. Nada obstante haverem Descartes e Van Helmont sustentado doutrinas análogas, Stahl desenvolveu e levou tão longe a sua teoria que deve ser olhado como o fundador do animismo em fisiologia.

Stahl estabelecera uma diferença radical entre os fenôme­nos da natureza bruta e os da natureza viva. Conservaram esse fato interessante, mas abandonaram a teoria da alma. Não houve como deixar de recorrer a uma outra força fundamental, da qual dependem todas as manifestações de vida, nos vegetais como nos animais, designada por força ou princípio vital.

Essa força; que rege todos os fenômenos vitais, dá irritabi­lidade às partes contráteis de animais e plantas, ou seja, como vimos, a propriedade de serem afetadas pelos irritantes exteriores.

Admitiam, nos animais, a alma de Stahl, que, combinada ao princípio vital, presidia aos fenômenos intelectuais. Essa teoria teve como principais defensores, na França, Barthez; e, na Alemanha, Hufeland e Blumenbach.

A força vital de que falamos liga-se a esta última forma de ver, pois, de fato, cremos que haja uma força de natureza especial, que provê a matéria organizada do que inexiste na matéria bruta: - a irritabilidade; ela diverge, porém, desde logo, porque nós não vemos nessa força mais do que uma modi­ficação da energia, ainda desconhecida, modalidade da força universal, quais o calor, a eletricidade, a luz. Não fazemos dessa força umas entidades imateriais, surgidas ao acaso, sem antecedentes, ou melhor, uma criação sobrenatural.

Diferimos também dos vitalistas em não vermos entre os animais e o homem mais do que uma diferença de grau, não de natureza. Tudo o que existe na Terra provém de inumeráveis modificações da força e da matéria. A força vital deve entrar no quadro das leis gerais, e a nós compete evidenciar a sua pre­sença nos seres vivos.

Flourens parece compartilhar dessa opinião quando escreve: "Acima de todas as propriedades particulares e determi­nadas, há uma força, uns princípios gerais, comuns, que todas as propriedades particulares implicam e de que se fazem presumidas, e o qual, sucessivamente, pode ser isolado, destacado de cada uma, sem deixar de existir. Que principio será esse? Seja qual for, é essencialmente uno. Há uma força geral e una, da qual todas as forças particulares mais não são que expres­sões ou modalidades." (12)

Por que se morre?

Com Claude Bernard, temos constatado a originalidade de processos da matéria organizada para fabricação das substân­cias necessárias ao funcionamento vital, atribuindo essas pro­priedades aos órgãos dotados de uma virtude especial, inencontrável nos corpos brutos. A existência de uma força animante do organismo torna-se, porém, mais evidente ainda, ao exami­narmos a evolução de todos os seres vivos.

Tudo o que tem vida nasce, cresce e morre. É fato geral que quase não padece exceção (13). Mas, por. que morrer? Exce­tuando-se os casos de acidentes, ou de enfermidades que des­troem irremediavelmente os tecidos, como se dá que, mantendo constantes as mesmas condições gerais, indispensáveis ao entretenimento da vida, isto é, a água, o ar, o calor e os alimentos, o ser depereça até à dissociação total?

Dizer que os órgãos se gastam é indicar apenas uma fase da evolução, é demonstrar um fato. Neste caso, pergunta-se: mas, por que se gastam os órgãos, e por que se mantém per­feitos na idade viril, do mesmo passo que aumentam de energia na juventude?

São interrogativas diante das quais a ciência materialista emudece. Sem embargo, uma explicação se oferece e nós vamos expor.

Desde que admitamos na célula fecundada uma certa quantidade de força vital, tudo se torna compreensível.

A vida total de um indivíduo é o resultado de um trabalho a completar-se, trabalho esse mensurável pelas incessantes reconstituições da matéria desgastada pela função vital, e a força para isso necessária pode considerar-se como uma função con­tínua, que aumenta, atinge um máximo e baixa a zero.

Projetam-se no ar uma pedra, comunicamos à pedra a força dos nossos músculos. A pedra eleva-se rápida, a despeito da atração centrípeta, até que as duas forças contrárias se equilibrem. Depois, a atração predomina, a pedra cai, e, quan­do chega a ponto de partida, toda a energia a ela comunicada tem desaparecido.

Pode conceber-se que algo de analógico se passe com os seres vivos. O reservatório de energia potencial, proveniente dos genitores, e que se encontra na célula original, transforma-se em energia natural, à medida que organiza a matéria. De co­meço, a ação é assaz enérgica, a assimilação, o agrupamento das moléculas, ultrapassam a desassimilação, o indivíduo cres­ce; a seguir, vem o equilíbrio de perdas e ganhos: é a maturi­dade, a estabilidade do corpo, até que, chegada à senectude, esgotada a força vital, não mais suficientemente alimentados os tecidos, a morte sobrevém, o organismo desagrega-se, a matéria retorna ao mundo inorgânico.

Assim, pois, acreditamos haja uma certa quantidade de força vital distribuída por toda criatura que surge na Terra; e, como a geração espontânea não existe em nossa época (14), é por filiação que se transmite essa força, aliás, só manifesta nos seres animados.

Mas, não só na matéria e no seu condicionamento residem as propriedades da vida orgânica. Há que lhe presumir, ainda, uma força vital renovadora, ou seja, refletiva das partes des­truídas. Daí, o absoluto erro dos sábios, que imaginam surpreender o segredo da vida em promovendo a síntese da matéria orgânica. Suponhamos que, em conseqüência de manipu­lações químicas, tão sábias e complicadas quanto as possamos imaginar, e movimentando todos os agentes físicos - calor, ele­tricidade, pressão, etc. -, chegássemos a fabricar protoplasma artificial...

Mas... a vida? Tê-la-ia tal produto? Não, certo, porque o que caracteriza a vida é a nutrição reparadora do dispêndio. Essa massa protoplásmica há de ser inerte, insensível às excitações exteriores, qual se não dá com a massa viva. Mas, ainda supondo que assim não fora, só pudéramos justificá-lo em detrimento da estrutura íntima, destruindo-se. Essa massa artificial poderia subsistir a título precário, mas, uma vez exausta, não haveria como se reproduzir, não viveria mais.

Citamos o protoplasma porque ele representa a matéria ?simples por excelência; mas, se tomássemos uma célula, a complicação aumentaria, visto que a célula tem forma determinada e a Ciência é absolutamente incapaz de explicar essa forma, como veremos dentro em breve.

Aqui, importa definir precisamente o que pensamos, para que fique bem clara a nossa concepção.

Máquina delicada e complexa é o corpo humano; os tecidos que o formam originam-se de combinações químicas muito instáveis, devido aos seus componentes; e nós não ignoramos que as mesmas leis que regem o mundo inorgânico regem os seres organizados. Assim, sabemos que, num organismo vivo, o tra­balho mecânico de um músculo pode traduzir-se em equivalente de calor; que a força despendida não é criada pelo ser, e lhe provém de uma fonte exterior, que o provê de alimentos.

A utilidade fisiológica do perispírito

Estabelecemos de princípio, por experimentações espiríticas, que os Espíritos conservam a forma humana, e isto não só por se apresentarem tipicamente assim, como também porque o perispírito encerra todo um organismo fluídico-modelo, pelo qual a matéria se há de organizar, no condicionamento do corpo físico.

Vamos consolidar essa grande verdade estudando o desenvolvimento uniforme de cada ser, segundo o seu tipo particular, e mostrando, depois, a necessidade do duplo fluídico para hierarquizar a matéria e diferenciar-lhe as propriedades, segundo as necessidades dos diferentes órgãos.

Em primeiro lugar, vejamos a força que modela a matéria.

Idéia diretriz

Em cada ser, desde a sua origem, pode comprovar-se a exis­tência de uma força que atua na direção fixa e invariável, se­gundo a qual se edificará o plano escultural do recém vindo, ao mesmo tempo em que o seu tipo funcional.

Na formação da criatura vivente, a vida não fornece como contingente senão a matéria irritável do protoplasma, matéria amorfa, na qual é impossível distinguir que mínimo rudimento de organização, ó mais insignificante indício do que venha a ser o indivíduo. A célula primitiva é absolutamente idêntica em todos os vertebrados. Nada se lhe encontra que indique o nas­cimento de um ser que não outro, de vez que a composição é sempre uma e única para todos.

E forçoso admitir, portanto, a intervenção de um novo fator que determine as condições construtivas do edifício vital.

Precisamos recorrer ao perispírito, pois ele é que contém o desenho prévio, a lei onipotente que servirá de regra inflexí­vel ao novo organismo, e que lhe assinará o lugar na escala mor­fológica, segundo o grau de sua evolução no embrião que se executa essa ação diretiva. Eis aqui, com efeito, a marcha do fenômeno, na opinião de Cl. Bernard:

“Quando consideramos a evolução completa de um ser, vemos claramente que sua existência é resultante de uma lei orgânica que preexiste numa idéia preconcebida e se transmite por tradição orgânica de um a outro ser. No estudo experimental dos fenômenos de histogênese e organização, poder-se-ia encon­trar justificativa às palavras de Goethe comparando a natureza a um grande artista. É, na verdade, que a natureza e o artista procedem por maneira idêntica na manifestação da idéia criadora. No desenvolvimento do embrião vemos, antes de tudo, um simples esboço, precedente a toda e qualquer organização. Os contornos do corpo e dos órgãos são, antes, simples lineamentos, a começarem pelos aprestos orgânicos provisórios que hão de servir de aparelhos temporários ao feto. Nenhum tecido ainda se distingue. Toda a massa apenas se constitui de células plasmáticas e embrionárias. Entretanto, nesse bosquejo está traçado o desenho ideal de um organismo ainda invisível, e que tem assinado a cada”. partícula e a cada elemento o seu lugar, a sua estrutura e as suas atribuições. Lá onde hajam de estar vasos sangüíneos, nervos, músculos, ossos, etc., as células embrionárias se transformam em glóbulos de sangue, em tecidos arteriais, venosos, musculares, nervosos, ósseos."

Então, o ilustre fisiologista define, assim, o que pensa:

"O que diz essencialmente com o domínio da vida e não pertence à química, nem à física, nem ao que mais possamos imaginar, é a idéia diretriz dessa atuação vital. Em todo o gérmen vivo há uma idéia dirigente a manifestar-se e a de­senvolver-se na sua organização. Depois, no curso de toda a sua vida, o ser permanece sob a influência dessa força cria­dora, até que morre quando ela não mais se pode efetivar. É sempre o mesmo princípio de conservação do ser que lhe reconstitui as partes vivas, desorganizadas pelo exercício, por acidentes ou enfermidades." (15)

Tomemos, por exemplo, várias sementes de espécies dife­rentes. Analisando-as quimicamente, não poderemos encontrar a menor diferença em sua composição: temo-Ias absolutamente iguais.

Plantemo-las, após, no mesmo terreno, e veremos cada qual submetida a uma idéia diretiva -especial, diferente da de sua convizinha. Durante a vida da planta, essa idéia diretriz con­servará a forma característica da planta, renovar-lhe-á os tecidos segundo o plano preconcebido, e conforme ao tipo que lhe foi de origem assinado.

Sendo a matéria primária idêntica para todas as plantas, como idêntica é a força vital para todos os indivíduos, importa exista uma outra força que origine e mantenha a forma. Ao perispírito atribuímos esse papel, no reino vegetal, como no animal.

Essa idéia diretriz nós a encontramos tangivelmente realizada no invólucro fluídico da alma. Ela é que corporifica a matéria, vela pela reparação das partes destruídas, preside às funções gerais e mantém a ordem e a harmonia no turbilhão das permutas incessantemente renovadas.

O funcionamento orgânico

Chamamos mui particularmente a atenção do leitor para este ponto, talvez um tanto abstrato, mas de capital importância para a nossa teoria.

Se, precedendo à vida fetal, comprovamos a necessidade do perispírito para modelar a matéria, melhor ainda lhe com­preendemos a importância, ao examinarmos o conjunto das funções do organismo animal, sua autonomia, e a solidariedade que as reúne - todas - em sinergia de esforços tendentes à conservação do ser.

A irritabilidade, sinal distintivo da vida, pertence ao protoplasma celular. Na série dos seres que se hão escalonado da maneira ao homem, a célula primitiva diversificou-se, especifi­cou-se, por maneira que cada tecido evidenciou uma das propriedades desse protoplasma. Entretanto, os atos e as funções vitais não pertencem senão a órgãos e aparelhos, ou seja o conjunto de partes anatômicas. A função é uma série de atos ou fenômenos agrupados, harmonizados, colimando um resultado.

A digestão, por exemplo, requer intervenção de uréia série de órgãos, tais como a boca, o esôfago, o estômago, o intesti­no, etc., postos sucessivamente em atividade para transformar os alimentos.

Vemos, portanto, que, para desempenho da função, inter­vêm atividades inúmeras de elementos anatômicos; mas, a fun­ção não é a soma bruta das atividades elementares de células justapostas, porque se compõem e perpetuam uma pelas outras, harmonizadas e entrosadas de molde a concorrerem para um resultado comum.

O resultado entrevista pelo Espírito constitui o laço e a unidade. É ele quem promove a função.

Esta, a função, é, pois, algo de abstrato e intelectual, de modo algum representado, materialmente, por qualquer das propriedades elementares.

Há uma função respiratória, uma função circulatória, mas não há, nos elementos múltiplos que nelas concorrem, uma propriedade respiratória ou circulatória. Tem a laringe uma fun­ção vocal, mas não há nos músculos propriedades vocais, e assim por diante.

O corpo de um animal superior é organismo complexo, for­mado por um agregado de células diversamente reunidas, no qual as condições vitais de cada elemento são respeitadas, mas cujo funcionamento subordina-se ao conjunto. É como se dissemos - independência individual, mas obediente à vida total.

Cada órgão tem sua vida própria, sua autonomia, pode desenvolver-se e reproduzir, independente de outros tecidos. Autônomo, no sentido de não apropriar, nem dos tecidos vizinhos, nem do conjunto, as condições essenciais de sua vida, porque estas, ele as possui em si mesmo, por sua natureza protoplásmicas. Por outro lado, liga-se ao conjunto por sua função, ou pelo produto desta.

Uma simples comparação far-nos-á melhor compreender esse duplo caráter dos órgãos.

Figuremos o ser complexo, animal ou planta, qual uma cidade com a sua fisionomia especial, que a distingue de todas as outras. Os habitantes dessa cidade representam os elementos anátomo-orgânicos: todos esses habitantes vivem, respiram, alimentam-se do mesmo modo e possuem as mesmas faculdades gerais do homem - (autonomia dos órgãos, quanto as condi­ções essenciais à vida).

Entretanto, cada qual tem seu ofício, sua indústria, aptidões ou talentos, mediante os quais compartilha da vida social e dela, depende - (subordinação de cada órgão ao conjunto, par seu funcionamento) .

O pedreiro, o padeiro, o açougueiro, o industrial, o artesão, fornecem produtos tanto mais variados e copiosos, quanto mais alto for o grau de progresso da sociedade em apreço.

E o que se dá com o animal complexo.

O organismo, a exemplo da sociedade, é de tal modo cons­truído que as condições da vida elementar, ou individual, sejam respeitadas. Tais condições são as mesmas para todos, mas, sem embargo, cada membro depende, até um certo limite, por sua função, do lugar que ocupa no organismo, no grupo social. A vida é, pois, comum a todos, e só as funções são distintas.

Essas funções tão variadas, que se harmonizam para con­correr vida total , são necessariamente dirigidas por uma força consciente do fim a realizar. Não é o acaso que preside a essa tão sábia multiplicidade, a essa coordenação, pois os mesmos órgãos, as glândulas por exemplo, não obstante constitutiva­mente semelhantes entre si, fornecem secreções variadas, conforme o lugar que ocupam no organismo.

Ha, portanto, uma hierarquia nesses aparelhos, uma ordem preestabelecida e rigorosamente mantida no curso da vida.

Ora, esse estatuto vital não está impresso na matéria mutável, permutável, incessantemente renovada; antes, reside nessa estrutura fixa, invariável, que denominamos duplo fluídico.

Esse perispírito, cuja realidade a experiência tem demonstrado, é indispensável à estabilidade do ser vivente, no meio de toda essa complexidade das ações vitais, dessa efervescência perpétua e resultante da cadeia_ de decomposições e recomposições químicas ininterruptas na trama, enfim, de nervos, músculos, glândulas a se entrecruzarem, a circularem, a se in­terpenetrarem de líquidos e gases, em desordem aparente, mas da qual sairá, contudo, a mais estupenda regularidade.

As Grande operações de digestão, da respiração, das secreções; as ações tão variadas dos sistemas nervos-motores, sensi­tivos, ganglionares, não serão perturbadas. Cooperando, sem tréguas, para entreter o meio orgânico, elas lhe fornecem os materiais da síntese assimiladora, e todas essas ações tão multiplicadas, tão diversas, e, todavia, tão constantes, se completam, a despeito da renovação ininterrupta de todas as moléculas que formam esses variados órgãos.

As matérias novas, carreadas pelos alimentos, parecem dar tes­temunho de uma inteligência perfeita quanto aos fins colima­dos; mas, quando consideramos que todas essas moléculas são passivas, desprovidas de qualquer espontaneidade, somos necessariamente levados a indagar da força que dirige esses inume­ráveis produtos químicos, utilizando as suas propriedades pe­culiares na manufatura grandiosa da harmonia vital.

Retomando o exemplo anterior, é como se cada indiví­duo - pedreiro, padeiro, etc. - sucumbisse depois de haver feito uma só vez a sua tarefa, e fosse imediatamente substituído por um homem qualquer.

Haveria necessidade de alguém que indicasse ao substituto o que lhe cumpria fazer, o gênero de trabalho a ele destinado. Isso que, no plano social, só poderia conseguir-se mediante prévia educação, a natureza o realiza de improviso.

Todas as moléculas orgânicas, semelhantes entre si, vão realizar tarefas diferentes, segundo a colocação que tiverem no organismo.

É que a função pertence a um conjunto e não às unidades que o compõem. Esse conjunto resulta de uma lei que se liga à sua própria estrutura, mantida esta pela idéia diretriz que con­formou, externa e internamente, o indivíduo, pelo perispírito.

Uma circunstância capital, que jamais devemos esquecer, é que, real e positivamente, todas as partes do corpo se transmudam sem cessar. Não há no ser humano a mais insignifi­cante partícula de tecido que não seja passível de substituição e renascimento perpétuo.

Já dissemos que a mesma matéria jamais aproveita duas vezes à manifestação vital, e que, ao fim de poucos anos, toda a matéria foi integralmente renovada. Nem uma só molécula antiga subsiste, todos os membros dessa república cederam o lugar aos sucessores, e, sem embargo, as funções jamais se interromperam, a vida continuou a engendrar, na mesma ordem imperturbável, os fenômenos de sua evolução, de vez que a sua lei orgânica. reside no corpo incorruptível e imponderável - o perispírito.

Deveras surpreendente é o pauperismo das conclusões a que chegam inteligências robustas, quando afrontam esses fenômenos, cuia explicação se lhes torna impossível, para ficarem adstritos a idéias preconcebidas. Aqui temos um, não dos menores, Maudsley, ao esbarrar de frente com a identidade pessoal, persistente através do turbilhão vital. Vejamos como ele se safa da dificuldade:

“Se me viessem assegurar que não há uma só partícula do meu corpo de há trinta anos; que a sua massa mudou radical­mente e que absurdo é, neste caso, falar de identidade, tor­nando-se imprescindível presumir o corpo habitado por uma entidade imaterial, que lhe mantenha a identidade pessoal através das mudanças perpétuas e dos acasos estruturais - eu responderia que as pessoas que me conheceram, dos tempos de moço até hoje, não têm, mais do que eu mesmo, a certeza cons­ciente da minha identidade e, todavia, dela estão convencidos, quanto eu mesmo, ainda que me tivessem pelo maior menti­roso deste mundo, e não acreditassem em uma só palavra do meu testemunho subjetivo. Diria, mais, que essas pessoas estão igualmente convictas da identidade pessoal dos seus cães ou dos seus cavalos, cujo testemunho subjetivo é nulo na espécie, e, finalmente, que, atribuindo-me uma substância imaterial, é forçoso admitir tenha ela sofrido tantas mudanças que me dei­xam inseguro de que algo lhe reste do”. que”. fora a trinta anos, de sorte que, na melhor das intenções, não vejo a necessidade, ou o benefício, a tirar da suposta identidade, ao meu ver supérfluas."

O benefício? - mas, é justamente o de explicar o que sem ela se torna incompreensível.

E comum esta objeção: se todo o organismo é radicalmente destruído para dar lugar a outro, o segundo será semelhante, mas não idêntico ao primeiro. E, neste caso, a persistência mnemônica, por exemplo, é inexplicável. O nosso filósofo responde que, uma vez que os outros o reconhecem, é que ele não mudou. É a famosa história da faca de Janot, a que tiraram sucessivamente a lâmina e o cabo, e ficou sendo a mesma para quantos a contemplavam, posto que radicalmente mudada.

Maudsley diz, simplesmente, na espécie: "todo o mundo reconhece a faca de Janot, logo, é quanto basta para que seja ela mesma".

Confessemos que, para um filósofo, esse raciocínio não é lá grande coisa e que ele poderia ter encontrado algo melhor. Depois, aquela premissa de que, existente a alma, já não po­deria ser a mesma... Mas, em suma, por que não? Não o diz, nenhuma explicação nos fornece a respeito. São simples afir­mativas que em nada afetam o problema e, antes, evidenciam a impotência em que se encontram os materialistas, quando abor­dam as questões inerentes à alma e ao seu papel no corpo humano.

De fato, como não compreender a necessidade de um orga­nismo fluídico, não submetido às mutações materiais, a fim de conservar e aplicar as leis orgânicas, cuja continuidade necessárias está em oposição à mobilidade e à instabilidade características das ações vitais?

Por que prodígio se manteria o tipo individual? Em que parte do corpo se guardariam tradições raciais, hereditárias? Em que recanto misterioso do móvel edifício haveriam de refu­giar-se os caracteres, tão constantes e inalteráveis, que diferen­ciam os seres entre si, tanto do ponto de vista individual como do zoológico?

O perispírito não é concepção filosófica imaginada para dar conta dos fatos; é um órgão indispensável à vida física, reconhecível pela experimentação. Foi no estudo da materialização dos Espíritos que o seu papel se revelou, pondo em destaque as suas propriedades funcionais. Essa descoberta explica fenômenos que a ciência registrava apenas, sem poder justificá-los.

Esse esboço do ser, preexistente a toda organização, essa reparação perpétua dos tecidos, mediante regras fixas, essa ordem que se não altera, apesar dos sucessivos afluxos de ele­mentos novos, essa evolução cuja lei domina, em todo o curso da vida, o conjunto das trocas materiais, de modo a modificá-las profundamente conforme a idade; tudo isso se torna compreensível com a teoria espírita. Sem ela, ao invés, indecifrável obscuridade se estende sobre todos os fenômenos que de tão perto nos tocam. Admita-se a existência do perispírito, e tudo se esclarece e se compreende; a lógica dos fatos torna-se evi­dente é uma explicação racional no lugar do mistério, descoberta que nos leva a dar um passo a mais no conhecimento tão difícil de nós mesmos.

Até aqui, não encaramos senão o lado material da questão, mas, do ponto de vista anímico, a necessidade do papel do perispírito insinua-se com tal autoridade, que não haveria como recusá-lo. É uma convicção de brecha fácil, desde que estude­mos a vida. intelectual do homem.

O papel psicológico do perispírito. - A identidade

A vida psíquica de todo ser pensante apresenta uma con­tinuidade assecuratória de sua identidade. É por não sentirmos lacuna em nossa vida mental, que nos certificamos de ser a mesma, sempre, a individualidade em nós residente. A memória religa, de forma ininterrupta, todos os estados de consciência, da infância à velhice. Sob a forma de lembranças, podemos evocar eventos do passado, dar-lhes vida fictícia, julgar-lhes as fases, dar-nos conta de que, mal grado todas as vicissitu­des, lutas, abalos morais, desfalecimentos ou triunfos da vontade, é sempre o mesmo eu que odiou ou amou, gozou ou sofreu. Numa palavra: - que somos idênticos.

Enfim que parte do ser reside essa identidade?

Evidentemente, no espírito, pois é ele que sente e quer. Na Terra, as faculdades intelectuais estão ligadas, em suas mani­festações, a um certo estado do corpo, e o cérebro é o órgão pelo qual o pensamento se transmite ao exterior. O cérebro, porém, muda perpetuamente, as células dos seus tecidos são incessantemente agitadas, modificadas, destruídas por sensações vindas do interior e do exterior. Mais do que as outras, essas células submetem-se a uma desagregação rápida, e, num período assaz curto, são integralmente substituídas.

Como conceber, então, a conservação da memória, e, com esta, a identidade?

De nossa parte, não hesitamos em crer que o perispírito, ainda aqui, representa um grande papel, evidenciando a sua necessidade, visto como os argumentos que validamos, para o mecanismo fisiológico, melhor ainda se aplicam ao funcionamento intelectual, bem mais intenso e variado que as ações da vida vegetativa ou animal. Dessas duas ordens de fatos, bem comprovados, resulta: a renovação incessante das moléculas e a conservação da lembrança, que as sensações e os pensamentos registrados não o são apenas no corpo físico, mas também no que é imutável - no invólucro fluídico da alma. Eis como se pode representar o fenômeno.

Todo o mundo sabe que para termos uma sensação faz-se preciso que um dos órgãos dos sentidos seja excitado por um movimento vibratório, capaz de irritar o nervo correspondente.

O choque recebido propaga-se até ao cérebro, onde a alma toma conhecimento dele, por um fenômeno dito de percepção, Mas, nós sabemos que, entre o cérebro e a alma, está o perispírito, que aquele choque deve atravessar, deixando-lhe um traço.

Com efeito, ao mesmo tempo em que é percebida a sensação - o que se dá no instante em que a célula cerebral entra a vibrar -, o perispírito, que transmitiu ao espírito o movimento, registrou-a.

A célula pode, então, desaparecer, cumprida a sua tarefa. A que lhe deva suceder será formada pelo perispírito, que lhe imprimirá os mesmos movimentos vibratórios que recebera. Des­tarte, a sensação será conservada e apta a reaparecer, quando o queira o espírito.

Importa, necessariamente, assim seja, pois a certeza do trabalho molecular do cérebro é absoluta. Pode-se até medir a intensidade da atividade intelectual pela elevação de tempe­ratura das camadas corticais, e pelas perdas excrementosas conseqüentes.

O substrato material é incessantemente destruído e reconstituindo.

Não fosse o perispírito uma espécie de fonógrafo natural, a registrar sensações para reproduzi-Ias mais tarde, impossível se tornaria adquirir conhecimentos, pois o novo ser, aquele que incessantemente substitui o antigo, nada conhece do passado.

Lógico é, pois, admitir que o perispírito tem grande importância do ponto de vista psíquico, e nada há nisso que nos deva surpreender, por isso que, em suma, ele faz parte da alma e lhe serve de agente junto à matéria.

O sistema nervoso e a força nervosa ou psíquica

Temos assinalado a existência, no homem, de enorme quantidade de ações vitais, completando-se simultaneamente, e trabalhando cada órgão com autonomia própria, mas fiéis à comodidade e solidárias no conjunto de que são partes.

Tal coordenação de elementos tão diversos é obtida mediante os diferentes sistemas nervosos, cuja rede abarca todo o corpo.

Inútil lembrar, longamente, que todos os órgãos da vida, vegetativa - coração, vasos, pulmões, canal intestinal, fígado, etc. -, por estranhos que sejam uns aos outros e por absorvidos que pareçam em suas necessidades peculiares, estão, contudo, jungidos a estreita solidariedade, devida aos sistemas grande-simpático e ganglionário, cuja ação regular escapa à vontade.

Para que as funções se completem, sem tréguas, importa exista uma estabilidade que mal se ajusta à mobilidade característica dos atos voluntários.

Entretanto, este sistema não fica isolado no ser; revela-se ao espírito por sensações de bem ou mal-estar, quais a fome e a sede, e, às vezes, por impressões mais nítidas, quando a enfermidade atinge um órgão.

Os fenômenos gerais da vida orgânica têm como regulador o sistema nervoso cérebro-espinhal, isto é, os nervos sensitivos, os motores, a coluna vertebral e o cérebro.

A fisiologia tem estudado e demonstrado as respectivas funções desses órgãos. Chegou-se a isolá-los por diferentes pro­cessos, reconhecendo-se que a vida psíquica tem um território bem determinado. Onde situar a sede da atividade psíquica?

A experiência fornece-nos, a propósito, indicações precisas. Tomemos qualquer vertebrado inferior, uma rã por exem­plo. Vemo-la saltar, coaxar, tentar fugir; sua atividade cerebral, por mais restrita que a suponhamos, se exerce por movimento de luta e defesa, numa agitação incessante.

Pois bem: - podemos, de chofre, suprimir todas essas manifestações, bastando destruir, a estilete, o sistema nervoso central. (16)

Muda-se logo a cena. O animal que gritava, saltava, deba­tia-se, defendia-se, tornou-se massa inerte, que nenhuma exci­tação pode revelar. Não mais movimentos, nem espontâneos nem reflexos.

Entretanto, o coração continua a bater, e os nervos e músculos motores são excitáveis pela eletricidade: - todos os aparelhos, todos os tecidos estão vivos, salvo o aparelho central destruído.

Suprimiu-se o aparelho adequado às manifestações intelec­tuais, o princípio inteligente não mais pode utiliza os fenômenos psíquicos desapareceram.

O nervo motor que põe em relação cérebro e músculos devem conduzir algo da célula central a esse músculo que se contrai à sua influência. Por idêntica maneira, a sensação, carreada pela fibra nervosa sensível, deve ser transmitida por algo que modifica o estado da célula central.

Podemos-nos determinar a natureza desse algo e dizer o que ele seja? Questão posta tantas vezes, ainda não pôde ser deslindada. No intuito de forrar-se a embaraços, comumente se apela para a ação do nervo. Mas, quem diz ação nervosa não aclara grande coisa quanto à natureza dessa tal ação.

Os físicos pretenderam, contudo, reduzir essa influência a um agente físico outro, e era, então, a eletricidade que se apre­sentava naturalmente, de vez que, quando se subtrai um músculo à influência da vontade transmissível pelo nervo mo­tor, pode-se, perfeitamente, substituir esta ação pela eletri­cidade.

Entretanto, essa teoria é indemonstrável no estado atual da ciência (17). Interrompido o filete nervoso, por seccionamento, a corrente elétrica ainda continuará pelas partes condutoras convizinhas, ao passo que a menor lesão, fisiológica ou anatô­mica, impede a influência nervosa de transmitir-se ao músculo.

A influência nervosa é, pois, uma ação especial, um agente fisiológico distinto de qualquer outro. Difere da força vital, como vimos na experiência da rã, cuja vida vegetativa e movi­mentos automáticos persistem, apesar da supressão da influên­cia neuropsíquica, tal como sucede aos membros paralisados que continuam vivos, não obstante subtraídos à influência da vontade.

Os recentes trabalhos de Crookes e de Rochas demonstra­ram, experimentalmente, a existência dessa força nervosa.

O célebre físico inglês publicou as investigações feitas com Honre. (18)

Utilizando instrumentos de mensuração, exatos quão deli­cados, ele mediu essa força atuante sobre objetos inanimados sem contacto visível.

Com A. de Rochas, vimos como essa força pode exteriori­zar-se, confirmando, assim, as experiências de Crookes.

Há, portanto, uma notável progressão entre a evolução do principio inteligente e as forças que lhe servem para manifes­tar-se no organismo vivo.

Nos seres inferiores, nos quais não há funções diferen­ciadas, só a força vital se revela; mas, com o desenvolvimento do organismo e a especificação das propriedades protoplásmi­cas, aparece o regulador, o coordenador das ações vitais: o sistema neuroganglionar, sempre acionado pela força vital. Finalmente, prosseguindo a evolução, os fenômenos da vida psíquica assumem importância mais a mais crescente, o siste­ma cérebro-espinhal organiza-se e surge uma diferenciação es­pecial da energia: - a força nervosa, que afetará especialmente a vida intelectual.

Mais tarde, veremos o papel que ela representa na vida psíquica, e como as suas modificações determinam os estados sonambúlicos e as alterações outras na personalidade.

Resumo

Dos estudos parcialmente feitos neste capítulo, resulta que, consoante a frase enérgica dos teólogos, é a alma que condi­ciona o corpo, isto é, que o modela sob um plano preconcebido, tanto quanto o dirige por meio do perispírito.

A forma humana, ressalvadas as alterações próprias da idade, conserva o seu tipo, apesar do afluxo incessante de ma­téria que passa pelo corpo. Destarte, assemelha-se a uma rede, entre cujas malhas se insinuam as moléculas. Esse retículo fluídico contém, igualmente, as leis do mecanismo vital, e fica estável através do turbilhão das ações físico-químicas, que des­troem e reconstroem, incessantemente, o edifício orgânico.

Compõe-se, portanto, o ser humano de três elementos dis­tintos: a alma com o seu perispírito, a força vital, e a matéria.

A força vital representa aqui um duplo papel: dá ao proto­plasma suas propriedades gerais, e ao perispírito o grau de materialidade necessária para que ele possa manifestar as leis que oculta, enfim, fazendo-as passar da virtualidade ao ato.

A grande autoridade de Claude Bernard, a quem consul­tamos muitas vezes, vem, ainda neste ponto, confirmar a nossa forma de ver. Eis como ele se exprime em seu livro - Investi­gações sobre os problemas da Fisiologia:

“Há - diz - como que um desenho vital, que traça o plano de cada ser e de cada órgão; de sorte que, considerado isoladamente, cada fenômeno orgânico é tributário das forças gerais da natureza, a revelarem como que um laço especial, parecendo dirigidos por alguma condição invisível na rota que perseguem, na ordem que as encadeia”.

“Assim é que as ações químico-sintéticas da organização e da nutrição se manifestam como se fossem animadas por uma força impulsiva governando a matéria; fazendo uma química apropriada a um fim, e pondo em jogo os reativos cegos dos laboratórios, à maneira dos próprios químicos”.

"E essa potência de evolução, imanente no óvulo, que nos limitamos a enunciar aqui, que constituiria, só por si, o quid proprium da vida; pois é claro que essa propriedade do ovo, a produzir um mamífero, uma ave, ou um peixe, não é nem física, nem química."

A vida resulta, portanto, evidente da união da força vital com o perispírito, dando aquela a vida, propriamente dita, e este as leis orgânicas, concorrendo à alma com a vida psíquica.

Destes três fatores, só um é sempre e por toda parte identifico - a vida. O Espírito, transitando pela matéria vivente, e as primitivas eras do mundo, conseguiram, paulatinamente, a transformação progressiva e aperfeiçoada. Cremos seja ele o agente de evolução das formas orgânicas e, daí, a razão do rito, conservando-lhe as leis. Nem foi senão lentíssima e progressivamente que essas leis se lhe incrustaram na con­textura.

Havemos de ver de que modo um movimento, voluntário de início, pode tornar-se habitual, maquinal, e, por fim, auto­mático e inconsciente . . . Este o lado fisiológico. A mesma coisa ocorre com as manifestações intelectuais, dado o paralelismo das duas evoluções. e difícil, em primeiro lugar, representam umas matérias fluídicas, invisíveis, imponderáveis, agindo sobre a matéria, para ordená-la mediante leis; nada obstante, pode­mos encontrar analogias que permitem fazer uma idéia, assaz aproximada, dessa espécie de ação.

Conhecemos em física um instrumento chamado eletroímã, que nos vai servir de comparação. Compõe-se ele, principalmen­te, de um cilindro de ferro destemperado e dobrado em forma de ferradura, à volta do qual se enrola, à direita e à esquerda dos respectivos ramos, um longo fio de cobre isolado. As extremidades de ferro chamam pólos do eletroímã.

Fazendo passar uma corrente elétrica no fio de cobre, o ferro se imanta e conserva essa propriedade por tanto tempo quanto dure a ação elétrica. Se voltarmos o aparelho de modo a ficarem os pólos no ar, colocando por cima um cartão delgado e polvilhado com limalha de ferro, veremos que esta se ordena espontaneamente em linhas regulares, a formar desenhos variá­veis e correspondentes à forma dos pólos. A essas figuras deu-se o nome de fantasma ou espectro magnético, e às aglomerações de limalha chamaram-se linhas de força, por isso que traduzem objetivamente a ação dás forças magnéticas.

Temos, assim, um exemplo material do que ocorre com todo ser animado.

Umas forças invisíveis, imponderáveis - o magnetismo - agindo sem contacto sobre a matéria - a limalha. Em nosso tempo, a eletricidade representa o papel da força vital, o eletroímã o do perispírito, e a limalha representam as moléculas componentes dos tecidos orgânicos.

Podem formar-se no ímã pólos secundários, chamados pontos conseqüentes, de sorte que também eles produzem espectro secundários, que, misturando-se aos primeiros, origi­nam as mais complicadas figuras.

O magnetismo é bem uma força imponderável, pois que um ímã capaz de elevar um peso vinte e três vezes maior que o seu, nem por isso pesa mais do que antes de ser imantado.

Comparando-se a ação do perispírito sobre a matéria à do eletroímã sobre a limalha, podemos fazer uma idéia do seu modo operatório. Concebe-se que lhe seja possível modelar a substância do ser embrionário, de feição a imprimir-lhe a forma exterior, fadada ao tipo específico, ao mesmo tempo em que facetar os órgãos interiores: - pulmões, coração, fígado, cérebro, etc., propiciados às funções vitais.

O espectro magnético não forma senão um desenho no cartão, desenho que figura um agregado feito na esfera da in­fluência magnética; entretanto, se pudéssemos dispor, em torno dos pólos e em forma de leque, uma série de cartões, veria o espectro magnético a estender-se e a formar um campo mag­nético em todas as direções. É o que se dá com o perispírito, com a só diferença de serem internas as suas linhas de força, ou, por melhor comparar: - o corpo físico é o espectro magnético do perispírito.

São simples os desenhos formados pelos pólos do eletro­ímã, porque simples é o movimento molecular do ferro. No envoltório fluídico, esse movimento é muito complexo, e, daí, uma grande diversidade nos seres vivos. Da mesma forma que a ação magnética se mantém enquanto a corrente elétrica circula no fio de cobre, mantém-se vivo o corpo enquanto haja força vital animando o perispírito.

Podemos levar ainda mais longe a analogia. As proprie­dades magnéticas do ferro brando permanecem latentes, enquanto à eletricidade não as desperta, orientando as moléculas metálicas.

Assim, dormitam, também, as propriedades organogênicas do perispírito, por assim dizer, enquanto a alma pervaga no espaço e não se tornam ativas senão sob a influência da força vim. A razão aí está de poderem os Espíritos, em suas manifestações, reconstituir um corpo temporário, acionando o mecanismos perispiritual, desde que um médium lhes forneça a força vital e a matéria indispensável a essa operação.

Temos, em suma, que uma força imponderável - a eletri­cidade - determina, por indução, o nascimento de outra força imponderável - o magnetismo -, que tem ação diretiva sobre a matéria bruta. No ser vivente, a força vital age sobre o perispírito e este pode, então, desenvolver suas propriedades, que são, qual o vimos, a formação e reparação do corpo físico.

Como o perispírito é matéria, tem forma bem determinada e é indestrutível, podemos conceber-lhe modificações sucessivas de movimento atômico, correspondendo a modificações e complicações cada vez maiores no seu modus operandi. Por outras palavras, vale dizer que, começando por organizar formas rudimentar, pôde, após longa evolução de milhões de anos e de inumeráveis reencarnações, dirigir organismos mais e mais delicados e aperfeiçoados, até chegar aos humanos. Alma e perispírito forma um todo indivisível, constituindo, no conjunto, as partes ativa e passiva, as duas faces do princípio pensante. O invólucro é as partes materiais, a que tem por função reter todos os estados de consciência, de sensibilidade ou de vontade; é o reservatório de todos os conhecimentos, e, como nada se perde na natureza, sendo o invólucro indestrutível, a alma tem memória integral quando se encontra no espaço.

O perispírito é a idéia diretora, o plano imponderável da estrutura orgânica. É ele que armazena, registra, conserva todas as percepções, todas as volições e idéias da alma. E não somente incrusta na substância todos os estados anímicos determinados pelo mundo exterior, como se constitui a testemunha imutável, o detentor indefectível dos mais fugidios pensamentos, dos sonhos apenas entrevistos e formulados.

E, enfim, o guardião fiel, o acervo imperecível do nosso passado. Em sua substância incorruptível, fixaram-se as leis do nosso desenvolvimento, tornando-o, por excelência, o conservador, de nossa personalidade, por isso que nele é que reside a memória.

A alma jamais abandona o invólucro, sua túnica de Nesso, mas bálsamo consolador também.

Desde períodos multimilenares em que a alma iniciou as peregrinações terrestres, sob as formas mais ínfimas da cria­ção, até elevar-se gradativamente às mais perfeitas, o perispírito não cessou de assimilar, por maneira indelével, as leis que regem a matéria, pois à medida que o progresso se realiza as criações multifárias do pensamento formam bagagem crescente, qual tesouro incessantemente abastecido. Nada se destrói, tudo se acumula nesse perispírito tão imperecível e incorruptível como a força ou a matéria de que saiu. Os espetáculos maravilhosos que nossa alma contempla, as harmonias sublimes que se dilatam nos espaços infinitos, os esplendores da arte, tudo se fixou em nós, e nós para sempre possuímos o que pudemos adquirir. O mínimo esforço é levado mecanicamente ao nosso ativo, nada se perde, e assim é que lenta, mas seguramente, galgamos a escada do progresso.

Com a morte do homem, quando o despojo mortal se lhe decompõe; quando os elementos que o conformaram entram no laboratório universal, a alma subsiste integral, completa, conservando o que fez sua personalidade, isto é, a memória, e, o que mais é: - não apenas a da última encarnação, porque a de todas as que tenha experimentado.

Panorama imponente e severo que se lhe desenrola à vista, no qual ela pode ler os ensinamentos do passado e discernir os deveres do futuro.

Agora, queremos estabelecer como pôde o perispírito adqui­rir as suas propriedades funcionais, passando e repassando em sucessivas reencarnações pelo tamis da animalidade.

Preciso é, portanto, demonstrarmos a unidade do princípio pensante no homem e no animal, e estabelecermos que não há transições bruscas entre um e outro; que a lei de continuidade não se interrompe, que o homem não constitui um reino à parte no seio da natureza, e que só mediante uma evolução contínua, por esforços consecutivos, chega a atingir o ponto culminante na criação.

CAPÍTULO II

A ALMA ANIMAL

SUMARIO: Os selvagens. - Identidade corporal. - Estudo das faculdades Intelectuais e morais dos animais. - A curiosidade. - O amor­-próprio. - A imitação inteligente. - A abstração. - A linguagem. - A Idiotia. - Amor conjugal. - Amor materno. - Amor do próximo. - O sentimento estético. - A gradação dos seres. - A luta pela vida. - Resumo,

O problema da origem do homem é um dos mais difíceis de abordar aqui na Terra. Colocados, como nos encontramos, num estágio de civilização avançada, temos a impressão de que um abismo nos separa dos outros seres. Tem o homem, de fato, conquistado o cetro do mundo: submeteu à sua vontade toda a natureza, p~ ando montanhas, unindo mares, secando pântanos, desviando rios, dirigindo a vegetação em sentido mais útil ou agradável às suas conveniências, domando os animais aproveitáveis - ele, o homem, soube utilizar todas as forças vivas .e capazes de lhe aumentarem o bem-estar.

Os caminhos de ferro transportam-no longe, sem fadiga; a eletricidade conduz-lhe o pensamento aos confins do globo e adapta-se' a todos os usos domésticos; o balão permite-lhe explorar altas camadas atmosféricas, ao mesmo passo que mergulha,.pela mineração, nas entranhas do solo. (19)

Diante de resultados que tais, atingidos pelo seu gênio, propende o homem a crer-se formado de essência diversa e superior à dos animais, havidos por incapazes de qualquer pro­gresso. (20)

As religiões, que não passam, em última análise, de quime­ras antropomorfas, têm estimulado, ingenuamente, essas ten­dências, fazendo do homem a imagem material da divindade, e da alma um principio, uma causa especial, completamente diferente de quanto existe no mundo.

Entretanto, examinada de mais perto, essa magnífica inte­ligência.está bem longe de ser perfeita, e faz-se preciso certa parcela de parcialidade e de orgulho para imaginar que cria­turas que se massacram ferozmente em combates sangrentos, sem outro ideal que o de semear desolação e morte entre vizi­nhos, representem a Inteligência infinita que governa o cosmo.

O esplendor de nossos progressos materiais não deve obscurecer nossa modesta origem. Os ensinos da História aí estão para mostrar que o desenvolvimento intelectual foi, so­bretudo, obra dos séculos.

A noite morna da Idade Média de há muito cessou, para que não deslembremos o passado e, ao demais, se é certo que uma fração da Humanidade avançou, menos não o é que muitos de nossos semelhantes ainda jazem embotados na ignorância, vítimas de paixões bestiais, como a mostrar-nos o percurso da evolução humana.

Os selvagens

Ao lado da civilização, vegetam seres degradados que mal poderemos chamar homens (21). Entre essas tribos caracteri­zadas por inferioridade inaudita, costuma dar-se preeminência Diggers (Pau-Entaw), índios repelentes, de uma selvajaria extrema, que habitam cavernas da Serra Nevada e são julga­das pelos naturalistas mais fidedignos como inferiores, de graus, ao orangotango. O missionário A.-L. Krapf, que algum viu de perto os Dokos do Sul de Kafa e Qurage, na Abissínia, conta (22) que estes selvagens têm todos os traços físicos de grande inferioridade.

Não sabem fazer fogo nem cultivar o solo. Sementes e raízes, arrancadas à unha, constituem a alimentação usual, e felizes se consideram quando podem pilhar um rato, um lagarto, uma serpente. Assim, erram pelas florestas, incapazes de construir uma choça, abrigando-se sob o arvoredo. Ignoram, mais ou menos, o pudor e apenas toleram efêmeros laços familiares, tão certo como as mães abandonarem o filho, ao termo da lactação. (23)

Os Tarungares (Papuas da Costa oriental) visitados pelo Dr. Meyer, são de um selvagismo inaudito. Completamente nus e privados de todo sentimento moral, antropófagos invetera­dos, chegam, por vezes, a exumar cadáveres a fim de os devorar. Que diríamos nós se os macacos assim procedessem?

Os Weddas do Ceilão são de pequena estatura, de um tipo abjeto, as fisionomias repulsivas, bestiais. A conformação craniana apresenta traços que a aproximam da dos macacos: - nariz chato, prognatismo agudo, à feição de focinho, dentadura sa­liente. Vivem como animais e mal se abrigam em furnas rupes­tres, quando faz, o tempo. Tal como os Boschimans, tam­bém constroem uma espécie de ninho. O missionário Moffat informa que esses ninhos se assemelham aos dos Antropóides. De fato, sabemos que o orangotango de Sumatra e de Bornéu agasalha-se, em noites frias, construindo um ninho de folhagem.

O sábio e consciencioso naturalista Burmeister opina que muitos selvagens do Brasil se comportam como animais, pri­vados de qualquer inteligência superior.

O doutor Avé-Lallement, que, na sua viagem ao norte do Brasil, em 1859, teve ocasião de observar várias tribos ame­ríndias, compara esses selvagens aos macacos domesticados. "Adquiri - afirma ele - a convicção de existirem também macacos bímanos."

Esta comparação, talvez um tanto exagerada, ressalta, nada obstante, de quase todas as narrativas dos viajantes. O célebre explorador W. Baker diz dos Kytches e dos Latoukas, (africa­nos) que eles mal se diferenciam dos brutos. Verdadeiros ma­cacos - acrescenta. La Gironnière, ao percorrer as montanhas de Luçon (uma das Filipinas), ficou impressionado com o ca­ráter simiesco dos Aetas, cuja voz e gestos dir-se-iam de per­feitos macacos. Darwin, na viagem do "Beagle", chegou a espantar-se quando avistou os Fueguinos.

"Ao contemplar tais seres - escreve -, é difícil acreditar sejam nossos semelhantes e conterrâneos... À noite, cinco ou seis criaturas dessa espécie, nuas e mal protegidas das intempéries de um clima horrível, deitam-se no solo úmido, enco­lhidas sobre si mesmas e confundidas como verdadeiros brutos."

Aí temos como é insignificante a diferença do homem para o macaco. Distingue-se o nosso ramo por qualquer coisa de verdadeiramente especial? A história natural e a filosofia demonstram que, nem do ponto de vista físico, nem do intelectual, não há diferença essencial. Que, entre o mais inteligente dos animais - o macaco, e o mais embrutecido dos homens haja diferenças, ninguém o negaria, ou o macaco seria um homem.

Tais diferenças, contudo, não passam de graduações ascen­dentes de um mesmo princípio, que vai progredindo a propor­ção que anima organismos mais desenvolvidos.

Estabeleçamos claramente, com exemplos, essa grande ver­dade. (24)

Similitude dos organismos humana e animal

Já sabemos que os elementos componentes dos tecidos de os seres vivos são substancialmente idênticos na composição, e, assim, que a carne de um animal, seja qual for, não se gingue da nossa. O esqueleto dos vertebrados não varia sensivelmente. A noção de um tipo uniforme tornou-se hoje banal. Sabemos todos que há sempre vértebras encimadas de um crânio mais ou menos volumoso, dois membros articulados ao tórax, dois outros à bacia: isso, tanto no homem como no macaco, na águia como na rã.

Sob esse aspecto considerada, a semelhança é tal, que, por mais estranhável que pareça, poder-se-ia conceber viver um homem com um coração de cavalo ou de cachorro. A circulação sanguínea far-se-ia em um, como em outro. Poderíamos atri­buir ao homem um pulmão de vitelo, a respirar com a mesma facilidade peculiar ao seu pulmão. O sangue, que nos parece elemento capital da vida, apresenta a mesma identidade no boi, no carneiro, no homem, e os médicos legistas ainda não encontraram método seguro que lhes permita dizer, com certeza, se a nódoa sangüínea de um pano é de origem humana ou animal.

Coração, pulmão, fígado, estômago, sangue, olhos, nervos, músculos, ossatura, é tudo análogo no homem como nos verte­brados. Há menos diferença entre um homem e um cão, do que entre um crocodilo e uma borboleta.

Diariamente as descobertas dos naturalistas estabelecem, sobre bases mais sólidas, esta profunda verdade que Aristóteles - grande mestre de coisas naturais - magistralmente exprimiu: a natureza não dá saltos. Perpétuas transições ocor­rem entre os seres vivos.

Do homem ao macaco, deste ao cão; da ave ao réptil e deste ao peixe; do peixe ao molusco, ao verme, ao mais ínfimo dos colocados nas fronteiras extremas do mundo orgânico com o mundo inanimado, nenhuma passagem é brusca. O que se dá é sempre uma degradação insensível. Todos os seres se tocam, formam uma cadeia de vida, que só nos parece interrompida, pelo desconhecimento das formas extintas ou desaparecidas, Nessa hierarquia dos seres, o homem reivindica o primeiro lugar a que tem, certo, incontestável direito; mas, isso não o coloca fora da série, e quer simplesmente dizer que ele é o mais aper­feiçoado dos animais.

Não só é impossível fazer do homem um ser destacado do reino animal, como devemos conceituá-lo também ligado aos seres inferiores, visto que, entre animais e vegetais, não há delimitação concebível.

Certo, o vulgar bom senso, como diz Charles Bonnet, dis­tinguirá sempre um gato de uma roseira; mas, se quisermos avançar no estudo dos processos vitais que diferenciam o ani­mal da planta, havemos de ver que não existem mais caracteres próprios do animal que faltem à planta. Porque, de um lado, há plantas que, como as algas, se reproduzem por meio de corpúsculos agilíssimos, e, de outro lado, animais que, no decurso de longa existência permanecem imóveis, aparentemente insen­síveis, sem terem mesmo, como a sensitiva, a faculdade de sub­trair-se às hostilidades exteriores. Ao homem é impossível viver de maneira diferente dos outros animais.

O sangue lhe circula do mesmo feitio, o ar é respirado nas mesmas proporções, mercê de idêntico mecanismo. Os alimen­tos são da mesma natureza, transformados nas mesmas vísce­ras, mediante as mesmas operações químicas, pois, como temos visto, as condições indispensáveis à manutenção da vida são idênticas para todos os seres.

O nascimento não é fenômeno particular. Nos primeiros períodos de vida fetal, é impossível distinguir o embrião hu­mano do canino, ou de outro qualquer vertebrado.

A monera que haja de produzir o "rei da criação" é, origi­nariamente, composta de um simples protoplasma, como a de qualquer vegetal.

A morte é também a mesma para toda a série orgânica. Idêntica nas causas, como nos resultados, ou seja, a desorga­nização da matéria viva, em retorno ao grande laboratório da natureza.

Resumindo: reconhecemos, com os sábios, que, por seus caracteres físicos, o homem em nada se distingue do animal, e que vã tem resultado a tentativa para estabelecer uma linha que lhe permita atribuir-se um lugar privilegiado Resta-nos examinar se as faculdades intelectuais e morais são de natureza particular e se bastam para criar um abismo intransponível entre a animalidade e a humanidade.

Estudo sobre as faculdades morais e intelectuais dos animais

Podemos estabelecer, como princípio, a impossibilidade de conhecer os fenômenos psíquicos ocorrentes no íntimo do indi­víduo por forma outra que não observando as manifestações exteriores de sua atividade. Se ele executar atos inteligentes, concluiremos que possui uma inteligência; se tais atos forem da mesma índole dos que observamos nos homens, deduziremos que essa inteligência é similar à da alma humana, de vez que, na criação, somente a alma é dotada de inteligência.

Ora, como os animais possuem, não apenas a inteligência, mas, também, o instinto e a sensibilidade; e considerando o axioma que diz que todo efeito inteligente tem uma causa inte­ligente; assim como a grandeza do efeito é diretamente pro­porcional a potência da causa, temos o direito de concluir que a alma animal é da mesma natureza que a humana, apenas diferenciada no desenvolvimento gradativo.

Freqüentemente, falando-se de inteligência animal, corre-se o risco de não ser compreendido. Algumas pessoas figuram-se que, para demonstrar a existência de faculdades intelectuais ou morais da espécie animal, importa estabelecer que os animais possam, sensivelmente, memória, discernimento, etc., no mes­mo grau que possuímos, o que, aliás é impossível, tão certo como ser o seu organismo inferior ao nosso.

Outros imaginam que admitir tal princípio equivale a re­baixar a dignidade humana.

Nós, entretanto, não vemos o que perder com esse paralelo, só a nós favorável, pois é incontestável que um dado animal não pôde, nem poderá jamais encontrar a lei das proporções definidas, ou escrever O Sonho duma noite de verão.

Trata-se, simplesmente, de assentar que, se o homem é mais desenvolvido que o animal, nem por isso deixa de ser uma verdade que a sua natureza pensante é da mesma ordem, em nada difere essencialmente e sim, apenas, em grau de manifestação.

Eis algumas narrativas de molde a evidenciar algumas faculdades dos animais, tais como: atenção, julgamento, racio­cínio, associação de idéias, memória, imaginação. (25)

Inteligência e reflexão

Certa feita um abegão, através da sua janela, lobriga de madrugada uma raposa a conduzir o ganso apresado. Chegan­do rente ao muro, alto, de 1m20, a raposa tentou de um salto transpô-lo, sem largar a presa. Não o conseguiu, porém, e veio ao chão, para insistir ainda em três tentativas inúteis. Depois, ei-la assentada, a fitar e como que a medir o muro. Tomou, então, o partido de segurar o ganso pela cabeça, e, levantan­do-se de encontro ao muro, com as patas dianteiras, tão alto quanto possível, enfiou o bico do ganso" numa frincha do muro. Saltando após ao cimo deste, debruçou-se jeitosamente até re­tomar a presa e atirá-la para o outro lado, não lhe restando, então, mais que saltar por sua vez, seguindo o seu caminho. (26)

Que os animais refletem antes de tomar decisão, é o que acabamos de verificar com esta nossa raposa. Como este, outros casos análogos poderíamos citar. Mas, neles, a ação é muito mais demorada que em nós. Vejamos: Um urso do Jardim Zoológico de Viena, querendo colher um pedaço de pão que flu­tuava fora da jaula, teve a idéia engenhosa de revolver a água com a pata e formar uma corrente artificial.

Flourens conta que, por serem assaz numerosos os ursos do Jardim das Plantas, resolvera-se eliminar dois deles.

Com tal intuito, lançaram-lhes bolos envenenados com ácido prússico, mas eis que eles, apenas cheiraram o alimento letal, puseram-se em fuga. Ninguém os suporia capazes de regressar e, contudo, atraídos pela guloseima, ei-los agora a em

Empurar os bolos com as patas para a bacia do fosso, onde os Depois, farejavam atentos e, à medida que o tóxico o evaporava, apressava-se a comê-los. Tal sagacidade valeu­-lhes a vida, foram perdoados.

Um elefante esforçava-se, debalde, para captar uma moe­da junto da muralha, quando, de súbito, pôs-se a soprar e, com isso fez deslocar-se e rolar a moeda até o ponto em que ele se encontrava, conseguindo-o admiravelmente. (27)

Erasmus Darwin atesta-nos estes dois fatos:

Certa vespa dispunha-se a transportar a carcaça da mosca, quando notou que as asas ainda presas à mesma carcaça lhe dificultavam o vôo. Que fez, então, nossa vespa? Pousou, cortou as asas da mosca e liderou-se mais facilmente com o despojo.

Um canguru, perseguido pelo cão, prestes lançou-se ao mar, e aí, sempre acossado de perto, avançou na agua até que só a cabeça emergisse. Isso feito, aguardou o inimigo que nadava ao seu encontro, agarrou-o, mergulhou-o, e tê-lo-ia infalivelmente afogado, se o dono não acudisse a socorrê-lo.

Citaremos, ainda, um traço curioso da inteligência de um macaco. (28)

Eu estava assentado com a família junto da lareira - diz Torrebianca -, enquanto os criados assavam na cinza as cas­tanhas.

Um macaco de grande estimação por suas diabruras lá estava a cobiçá-las, impaciente, e, não vendo como pescá-las sem queimar-se, ei-lo que se atira a um gato sonolento, com­prime-o vigorosamente contra o peito e, agarrando-lhe uma das patas, dela se serve, à guisa de bastão, para tirar as casta­nhas do borralho comburente.

Aos miados desesperados do bichano, todos acorrem, en­quanto algoz e vítima debandam, um com o seu furto, outro com a pata, queimada.

O curioso, acrescenta Gratiolet, é que, diante disso, o Br. Torrebianca concluiu que os animais não raciocinam.

"Confesso - diz o espiritualista e religioso Agassiz - que não saberia como diferençar as faculdades mentais de urna criança das de um chimpanzé." (29)

A curiosidade

Esta faculdade é muito desenvolvida, mesmo nas espécies menos inteligentes, quais os peixes, os lagartos, as calhandras. Ela cresce de ponto nos patos selvagens, nos cabritos monteses, nas vacas.

Superabunda, irresistível, nos macacos, indiciando já uma característica da curiosidade humana, ou seja, o desejo de compreender, de penetrar o sentido das coisas. O macaco possui a faculdade de "exame atento".

O macaco, como bem advertiu M. H. Fol, sabe, de fato, “absorver-se completamente no exame de um objeto, passando horas a fio para compreender um mecanismo, e chegando, mes­mo, a esquecer o alimento e tudo que o rodeia”.

Ora, observa Romanes, quando um macaco assim procede, não há que admirar seja o homem um animal científico. Essa faculdade de exame atento tem, evidentemente, como base pri­mária, a curiosidade, mas já de muito lhe sobreleva: - é uma das mais altas expressões da inteligência, a que visa o próprio aperfeiçoamento".

O amor-próprio

Os cães não roubam o alimento de seu dono (Agassiz) e demonstram satisfação quando aplaudidos. Sanson (30) diz estar provado, por fatos inúmeros, que o cavalo de corrida é suscetível de emulação e experimenta o orgulho da vitória. Tal o caso de Forster que, depois de um tirocínio longo e sempre invicto, ao ver-se uma vez na iminência de ser batido por Elèphant, já perto do poste de chegada, precipitou-se num salto desesperado e agarrou com os dentes o rival, no intuito de conjurar uma derrota jamais conhecida. E não foi sem muito que conseguiram seqüestrar-lhe a presa. Outro cavalo, em lições semelhantes, também agarrou o rival peloas charretes

O elefante, o cachorro, o cavalo, mostram-se assaz sensí­veis ao elogio; e, assim como o antropóide, também teme o ridículo, enfadam-se quando se lhes faz zombaria.

M. Romanes relata, a propósito, uma curiosa observação. Divertia-se o seu cão a caçar as moscas que pousavam na vi­draça, e, como muitíssimas se escapassem, ele, Romanes entrou a chacotear, esboçando um sorriso irônico a cada insucesso.

Foi quanto bastou para envergonhar o cão, que fingiu, de repente, ter apanhado uma mosca e esmagá-la de encontro ao solo. O dono, porém, não se deixou iludir, e, verberando-lhe a impostura, viu que ele partia a ocultar-se sob os móveis, du­plamente envergonhado.

A imitação inteligente

Da imitação inteligente não faltam exemplos, e tanto mais dignos de nota, quando atestam uma certa noção das relações de causa e efeito, de uma consciência da causalidade.

O orangotango e o chimpanzé, por exemplo, pronto desco­brem o 'meio de abrir as fechaduras. O macaco de Buffon aprendera, por si mesmo, a utilizar-se de uma chave. A bugia Maluca, do Jardim Zoológico de Dresde, querendo ficar livre para sair à vontade da sua gaiola, imaginou roubar e esconder cuidadosamente a respectiva chave. Cães, cabras, gatos, apren­deram por si mesmos, sem qualquer educação prévia, a tocar uma campainha ou abrir uma porta. Apontam-se vacas, mulas, jumentos, que manejaram ferrolhos para abrir porteiras.

O professor Hermann Foi conta que, na vacaria-modelo de Lancy (perto de Genebra), pouco depois de instalar-se no pátio um bebedouro, foi preciso mudar-lhe a torneira por outra só utilizável à chave, mas chave que o vaqueiro teve de carre­gar sempre consigo, porque o gado logo aprendera a manejá-la. O mesmo aconteceu em Turim, na vacaria ali instalada por Henri Bourrit.

Nos macacos, a imitação inteligente é comumente desenvol­vida ao extremo. Vários se hão visto que tiveram a idéia espontânea de cavalgar cachorros. Boitard cita um macaco roloway, que gostava de cavalgar um cão vagabundo, e Le Vaillant refere caso idêntico, de um bugio.

A abstração

A faculdade de abstrair, isto é, de tomar conhecimento dos objetos e determinar-lhes as qualidades sensíveis, quais sejam; amarelo, verde, mole, duro, rugoso, liso, etc.; a pedra, o animal, a árvore, etc.; a espécie de animal - cão, gato, homem; tal espécie de homem, bem ou mal vestido, etc.; todas essas idéias abstratas os animais as possuem, pois, assim como assinala M. Vulpian (31), é evidentemente sobre estas idéias que se exercem a sua memória, a sua reflexão, o seu raciocínio. Eles podem mesmo elevar-se à compreensão de umas tantas realidades metafísicas, como o tempo, o espaço, etc.

"Os animais têm um tal ou qual sentimento da extensão, diz Gratiolet, visto que caminham e saltam com precisão. Têm­-no do tempo decorrido, porque o sentem; do presente, porque o gozam; e até do futuro, porque há casos de previsões, temo­res, esperanças. Mas, tudo isso não passa de idéias concretas, que jamais se elevam ao grau da verdadeira abstração."

O naturalista Fisher certificou-se, mediante engenhosas experiências (Revue Scientifique, 1884), que os macacos mais inteligentes possuem a noção do número e sabe muito bem avaliar o peso.

Não é novidade que a pega pode contar até cinco, pois quando os caçadores é em número menor ela não voa, até que eles se afastem. Temos assim que, neste particular, a pega se mostra superior a muitos selvagens.

A linguagem

A linguagem articulada é apanágio do homem. Foi graças a esse poderoso instrumento de progresso que ele pôde desenvolver-se, enquanto os outros seres permaneceram quase esta­cionários. Diga-se, contudo, que os animais da mesma espécie podem se Comunicar entre si. O cão doméstico possui uma estrutura , que não a de seus ancestrais selvagens. Darwin nota que nos cães domésticos, temos o ladrido da impaciência, como se dá em caçadas; o da cólera - um rugido; o grunhido ou uivo desesperado do prisioneiro; o da alegria, quando vai a passeio, e finalmente o da súplica, para que se lhe abra a porta

A linguagem expressa por sinais ou gestos é muito desen­volvida nos animais que vivem agregados, como os cães selva­gens, os cavalos em liberdade, os elefantes, formigas, castores, abelhas, etc­

É incontestável que esses animais se compreendem. Vêem­-se, algumas vezes, as andorinhas deliberarem antes de tomar um roteiro. Sendo, porém, simples, primitivas as suas idéias, e não podendo amplificá-las pela linguagem articulada, nem coordená-las para tirar delas todo o partido desejável, é claro que se não aperfeiçoam senão com lenteza inaudita, parecen­do-nos por isso imutáveis. Contudo, uma observação atenta faz-nos ver que os instintos variam conforme as novas condi­ções criadas para os animais.

As faculdades intelectuais também aumentam com exer­cícios reiterados, sobretudo nas espécies em contacto com o homem.

A Idiotia

Se fizermos um confronto da suspensão do desenvolvimento da inteligência humana e o que ocorre com os animais, facialmente veremos que a diferença não é substancial Quando a função do espírito e tolhida pela conformação defeituosa do organismo, a alma só pode manifestar-se no exterior pelas for­mas rudimentares da inteligência. O idiotismo é disso uma prova flagrante(32).Como sabemos os idiotas dividem em três classes: completos, secundários, imbecis.

1 - Os idiotas são reduzidos ao automatismo criaturas inertes, despidas de sensibilidade, falta-lhes até instinto animal. Olhar parado, inexpressivo, não têm paladar nem olfato, não sabem comer por si, preciso se torna levar-lhes o alimento à boca e à garganta, para provocar a deglutição. Alguns há que comem com mais facilidade, mas engolem, sem distinguir, tudo o que apanham - terra, seixos, pano, fezes, etc. Temos, assim, que os idiotas desta categoria estão abaixo dos cães, dos elefantes ou dos macacos. E, contudo, são homens. A alma, assim aprisionada num invólucro inerte, deve suportar largo e cruel martírio, pela impossibilidade de movimentar seus órgãos insubmissos.

2 - Os idiotas de segundo grau têm instintos, mas a faculdade de comparar, julgar, raciocinar, é neles mais ou menos nula. Estão mais próximos dos animais, mas ainda se lhes não equiparam.

3 - Temos, enfim, os imbecis: são os que possuem ins­tintos e determinações raciocinadas. Capazes de abstrações fí­sicas muito simples, não podem, contudo, elevar-se a noções quaisquer de ordem geral, ou superior, ficando mais ou menos nivelados aos animais. O mesmo sucede com os cretinos. Esses estados precários da inteligência, podem aproxima­-los aos da nossa infância, dado que, até o terceiro ano, a crian­ça revela-se inferior aos grandes símios. Vale dizer que, do ponto de vista intelectual, a puerícia, a idiotia e o cretinismo facul­tam-nos o exemplo tangível e flagrante da evolução humana.

A evolução

Se tivermos bem de vista os fatos citados, a respeito dos selvagens, compreenderemos melhor ainda a marcha ascen­dente do princípio pensante, a partir das mais rudimentares formas da animalidade, até atingir o máximo do seu desenvolvimento no homem.

Os povos primitivos aí estão, como vestígios que demonstra as fases do processo transformista. Não esqueçamos que estes seres, que se nos figuram tão degradados, são, ainda assim, su­periores ao nosso ancestral da época quaternária, e poderemos, então, compreender que não há diferença essencial entre a alma animal e a nossa. Os diversos graus observados nas manifesta­ inteligentes, à medida que remontamos à série dos seres animados, são correlativos ao desenvolvimento orgânico das for­mas. Tanto mais o corpo se torna flexível, maneável, quanto mais as partes se lhe diferenciam e mais facilidades encontra a inteligência em exercitar-se, de sorte que, assim, sobe, da movera ao homem, sem hiatos nem solução de continuidade assinalável.

Havendo focalizado o desenvolvimento intelecto-animal, ve­remos agora que, no concernente aos sentimentos, eles nos oferecem surpreendente analogia.

Amor conjugal - Amor materno

Buffon adverte-nos que as aves representam tudo quanto se passa num lar honesto. Observam a castidade conjugal, cuidam dos filhos o macho é o marido, o pai da família, e o casal, por débil que seja, mostra-se valoroso até ao sacrifício de morte, em se tratando de defender a prole.

Não há quem ignore o zelo da galinha na defesa dos pin­tainhos. Os animais ferozes: - tigre, lobo, gato selvagem, todos têm por suas crias o mais terno afeto (33). Darwin, Brahm, Leuret, citam exemplos curiosos desse sentimento tão vivo. Aqui estão dois exemplos capazes de varrer qualquer dúvida a respeito:

Leuret conta que um macaco, cuja fêmea lhe morrera, cuidava solicito do filhote, pobre rebento esquálido, enfermi­ço. À noite, tomava-o ao colo para adormecê-lo, e, durante o dia, não o perdia de vista um instante. De resto, entre os macacos, os órfãos são sempre recolhidos e adotados com carinho, tanto pelos machos como pelas fêmeas.

Uma bugia (cinocéfalo), notável por sua bondade, recolhia macaquinhos doutras espécies e chegava a furtar cachorros e gatos pequenos, que lhe faziam companhia. Certa feita, um gatinho adotado arranhou-a, e ela, admirada, deu prova inteligência examinando-lhe as patas, e, logo, com os dentes, aparou as garras.

Amor do próximo

O Sr. Ball relatou na Revue Scientifique o seguinte fato, por ele testemunhado:

O cão de fila aventurava-se adentro do lago congelado, quando, súbito, se quebrou o gelo e ele resvalou na água, tentando em vão libertar-se. Perto, flutuava um ramo e o fila se lhe agarrou, na esperança de poder alçar-se. Uma terra-nova que, distante, assistira ao acidente, decidiu-se, rápido, a prestar socorro. Meteu-se pelo gelo, caminhando com grande precaução, e não se aproximou da fenda mais que o suficiente para agarrar com os dentes a extremidade do ramo e puxar a si o compa­nheiro, destarte lhe salvando a vida.

"A previdência, a prudência e o cálculo mostram-se, diz o , Senhor Ball, de um modo evidente neste ato, tanto mais notável, quanto absolutamente espontâneo. Os animais são, comumente,” suscetíveis de educação, e sua inteligência desenvolve-se em convívio com o homem. Mais interessante, porém, é acompanhá-los em sua evolução pessoal, e constatar que são capazes, por assim dizer, de evolver por si mesmos. Neste particular, o nosso terra-nova elevou-se, por instantes, ao nível das inteligências humana, e, no tocante à observação e ao raciocínio, em nada inferior ao que um homem faria em tais conjunturas."

Refere Darwin que o capitão Stransbury encontrou num lago salino do Utah um velho pelicano completamente cego e aliás muito gordo, que devia o seu bem-estar, de longa data, ao tratamento e assistência dos companheiros.

O Sr. Blyth me informa - diz ele - ter visto corvos indígena alimentando dois ou três companheiros cegos, e eu mesmo conheço caso análogo, com um gato doméstico.

O Sr. Burton cita o caso curioso de um papagaio que to­mara a seu cargo uma ave de outra espécie, raquítica e estro­, piada.

Assim é que lhe limpava a plumagem e procurava defen­dê-la de outros papagaios, soltos no jardim.

Mas, o fato mais demonstrativo é o seguinte: " Boussanelle, capitão de cavalaria do an­tigo regimento de Beauvilliers, comunica o seguinte: - Em 1757, um cavalo do meu esquadrão, já fora do serviço devido à idade, Teve dentes inutilizados a ponto de não poder mastigar o seu sua aveia. Verificou-se, então, que dois outros animais, que ficavam à esquerda e à direita, dele passaram a cuidar, retirando o feno da manjedoura e colocando-lho à frente, de­pois de Mastigado. O mesmo faziam com a aveia, depois de bem triturada. Esse curioso trabalho prolongou-se por dois meses, e durara, certo, se lá ficara o velho o companheiro. Aí têm - acrescenta o narrador - o testemunho de toda uma companhia oficiais e soldados." (34)

O sentimento estético

Muito se tem presumido que o sentimento do belo seja apanágio da espécie humana. Entretanto, sabemos que as aves femininas são muito atraídas pela beleza de plumagem dos ma­chos, tanto quanto por seu canto melodioso. Nem poderíamos duvidar que sejam uns tantos sons musicais compreendidos por muitos animais. Romanes viu um galgo acompanhar certa canção com latidos brandos. O cão do professor J. Delboeuf acompanhava regularmente, com a voz, um contralto na ária de A Favorita.

O asseio é modalidade da estética e nós podemos assinalá-lo nas aves que limpam o ninho, nos gatos que fazem a sua toilette coai minúcias, e, principalmente, nos macacos.

Espetáculo curioso - diz Cuvier - o das macacas a con­diz as crias ao banho, lavá-las apesar dos seus gritos, enxugá-las e será-ias, dispensando-lhes, na limpeza, tempo e cuidados que, em muitos casos, nossas crianças poderiam invejar.

Mas, onde o sentimento do belo e do confortável atinge o mais alto grau é, certamente, nas aves jardineiras da Nova­ Guine (35). Estes pássaros, da família das paradíseas, não se contentam com um simples ninho, pois constroem, fora da mo­radia ordinária, verdadeiras casas de recreio, que se tornam atestados de bom gosto. Tais construções, reservadas aos adultos que a elas vão para entregar-se a brincos e deleites amorosos, apresentam grande variedade ornamental e as paradíseas gozam, realmente, o luxo de que se rodeiam. Cabanas há que atingem dimensões consideráveis. Têm o formato de quiosques com passadiços cobertos. Há uma espécie que constrói a casinholas colorida de frutos e conchinhas. As mais apuradas re­quintam em dar a essas mansões de prazer um luxo ainda maior, selecionando as conchas, preferindo pedras rútilas, penas de papagaio, retalhos de pano, tudo, enfim, que encontrem de mais vistoso. O pavimento é feito de varinhas entrelaçadas. Contudo, não haja vacilação em conceder supremacia a Arreblyornis inornata, cujas construções valem por verdadeiras ma­ravilhas, cercadas de uns jardinzinhos artificiais, feitos com musgo disposto em tabuleiros, e decorado, com muita arte, com flores constantemente renovadas, bem como frutos de matizes fortes, seixos e conchas brilhantes, etc.

A gradação dos seres

Poderíamos, aqui, mostrar, também, que os sentimentos morais, como "o remorso, o senso moral, a idéia do justo e do injusto", encontra-se em gérmen em todos os animais, podendo manifestar-se em ocasiões oportunas. Para que o leitor me­lhor firme a sua convicção, indicamos-lhe as precitadas obras, Certo de que um estudo atento demonstrar-lhe-á não existir, entre a alma do homem e a do animal, mais que uma diferença de graus, tanto do ponto de vista moral, como do intelectual. ao agente imortal que anima todos os seres é sempre uno e único. De início, manifestando-se sob as mais rudimentares formas, nos últimos estádios da vida vai, contudo, aperfeiçoan­do-se pouco a pouco, ao mesmo passo que se eleva na escala dos seres. Nessa longa evolução, desenvolve as faculdades laten­tes e as mia de modo mais ou menos idêntico ao nosso, à medida que se aproxima da humanidade.

Vede como o grande naturalista Agassiz, em que pese às suas idéias religiosas, proclama a identidade do princípio pen­sante no homem e no animal:

“Quando se combatem, ou quando se associam para um fim comum; quando se advertem do perigo ou socorrem outro; na tristeza como na alegria, eles manifestam impulsos e atitudes da mesma índole dos havidos por atributos morais da espécie humana”.

"A gradação das faculdades morais, nos tipos superiores e no homem, é tão imperceptível que, para negar aos animais uma certa dose de responsabilidade e consciência, é preciso exagerar, em demasia, a diferença entre uns e outro." (36)

Com efeito, não podemos conceber por que houvesse Deus criado seres passíveis de sofrimentos, sem lhes outorgar, ao mesmo tempo, a faculdade de se beneficiarem dos esforços que fazem por se melhorarem. Se o princípio inteligente que os anima fosse condenado a permanecer eternamente nessa con­dição inferior, Deus não seria justo, com o favorecer o homem em detrimento de outras criaturas. A razão diz-nos que tal não poderia suceder, e a observação demonstra a identidade substancial entre a alma dos brutos e a nossa. De resto, tudo se liga e se entrosa intimamente no Universo, desde o átomo insignificante ao sol gigantesco, pendurado no espaço; desde a simples monera ao Espírito superior, a sobrepairar sereno nas regiões da eternidade.

A evolução da alma

Supondo que a alma se tenha individualizado lentamente por um processo de elaboração das formas inferiores da natu­reza, a fim de atingir gradativamente a humanidade, quem se não sentirá maravilhado de tão grandiosa ascensão?

Através de mil modelos inferiores, nos labirintos de uma escalada ininterrupta; através das mais bizarras formas; sob a pressão dos instintos e a sevícia de forças inverossímeis, a cega psique vai tendendo para a luz, para a consciência escla­recida, para a liberdade. . ,

Esses inúmeros avatares, em milhares de organismos dife­rentes, devem dotar a alma de todas as forças que lhe hajam de servir mais tarde. Eles têm por objeto desenvolver o envoltório fluídico, dar-lhe a necessária plasticidade, fixando nele as leis cada vez mais complexas que regem as formas vivas, criando-lhes, assim, um tesouro, mediante o qual possam, um dia, manipular a matéria, de modo inconsciente, para que o Espírito possa operar sem o entrave dos liames terrestres.

Quem recusará ver nos milhões de existências a palpita­rem no Planeta a elaboração sublime da inteligência, prosse­guindo incessante na extensão indefinita do tempo e do espaço?

São as eternas leis da evolução que arrastam o princípio inteligente a destinos cada vez mais altanados, para um futuro sempre melhor, desdobrando-se em panorama de renovadas perspectivas, a partir da idade primária aos nossos dias.

Para quem quer que se disponha a interrogar a natureza, admirar a obra da vida em seus aspectos cambiantes, o quadro é grandioso pela multiplicidade das manifestações. É um desfile mágico de meios imprevistos, de metamorfoses multifárias, de umas originalidades maravilhosas, capazes de confundir a mais rica imaginação.

A natureza tem recursos tão inesgotáveis que o homem jamais poderia enumerá-los.

Apesar das ativas investigações dos sábios, mal grado à legião de observadores debruçados para o mistério da criação, o mistério escapa-lhes pela infinidade da produção, ou pelo esplendor da fecundidade. Entretanto, os tesouros prodigalizam­dos indiciam, demonstram uma tendência para o belo, para o melhor, para o progresso, enfim. É a marcha avante e através da matéria caliginosa - a rígida matriz que importa abrandar, moldar, dominar. É o impulso para a onipotência radiante, para a luz, para a consciência universal.

Quem poderá pintar os meandros incontáveis desse painel eterno, as veredas múltiplas e tortuosas dessas existências que se desenrolam na profundeza do solo e dos mares, como nas camadas atmosféricas? Contudo, nesse caleidoscópio cintilante, e mal grado à infinita diversidade das formas, nota-se uma idéia geral, uma vontade definida, um plano assentado.

Não foi o acaso que gerou essas espécies animais e vegetais. No seu desfile, a conseqüente possui sempre algo mais que a antecedente e, quando a Ciência nos desvenda os quadros su­cessivos dessas transmutações, é que vemos a inapreciável ri­queza nelas contida, a ampliar-se sempre. Quanta majestade nessas fases de transição! Que grandeza nessa marcha lenta, porém firme, para chegar ao homem, florescência da força cria­dora jóia que resume e sintetiza todo o progresso, elo de todas as formas, colônia viva, hierarquizada de todas formas de vida, pois que nele concorrem, e se prestam auxilio todos os reinos. A estrutura óssea é o mundo mi­neral melhorado, vitalizado! Os sais, inertes in natura estão vivos, mutáveis e permutáveis, mas conservando em seu trânsito, o caráter essencial - a solidez!

Depois, é o mundo vegetal nas células que apresentam variedade e opulência incapazes de serem ultrapassadas por planta. Em seguida, é o reino animal que fornece sucessivamente os melhores órgãos, nos quais encontramos o esboço de aperfeiçoamento, de espécie em espécie, até atingir o tipo definitivo da humanidade. O sistema nervoso é que tomou a direção do todo orgânico, disciplinou elementos dispares, hierarquizou-os em função de sua utilidade, estimulando ou sustando-lhes a ação. Sempre variável na sua atividade, ele vela por todos os pormenores e mantém ordem e harmonia no concerto tão complexo de todas as forças vitais.

Por fim, radia na cimeira a inteligência que tanto lutou para desprender-se de suas formas inferiores. Ainda entorpe­cida pela viagem através das formas subalternas, guarda em ai as impressões do instinto que foi, por tão longo tempo, a sua única manifestação exterior. Os tesouros do intelecto, esses abrolham mais demoradamente, através da crosta dos apetites.

O egoísmo, o pensamento do ego engendrado pela lei de conservação, cuja suserania predominara até então, vai diminuir pouco a pouco, pois que no reino animal a maternidade já im­plantou na alma o sentimento de amor, embora sob as mais rudimentares. Entretanto, esses tênues lampejos, que mal estriam o sonho animal, irão aumentando de intensi­dade e mais irradiando, até que se tornem nas almas evoluídas a luz rutilante, o farol tutelar que nos guie em meio às trevas da ignorância.

Como foi que se completou essa gênese da alma? Por quais metamorfoses terá passado o princípio inteligente antes de atingir a humanidade Eis o que o transformismo nos ensina. Graças ao gênio de Lamarck, de Wallace, de Haeckel e de todo um exército de sábios naturalistas, nosso passado foi exumado das entranhas do solo.

Os Arquivos da terra conservaram ossaturas de raças extintas, e a Ciência reconstituiu a nossa linha ascendente, a partir da atualidade, em sentido regressivo, até os períodos multimilenares que presenciaram a eclosão da vida no Planeta.

Uma vez liberto das peias de uma religião feita de ignorâncias, o espírito humano senhoreou-se do seu tesouro. Des­prendido dos temores que travaram as pesquisas dos antepas­sados, o homem ousou abordar o problema da própria origem e lhe encontrou solução. É um fato capital, de conseqüências morais e filosóficas incalculáveis. A Terra deixou de ser aquele mundo misterioso que a varinha de um mágico fez explodir urre dia, equipado de animais e plantas, pronto para receber o seu suserano - o homem.

Hoje, a razão esclarecida faz-nos compreender o quanto essas fábulas atestam de ignorância e de orgulho! O homem não é um anjo decaído, a lamentar a perda de um paraíso ima­ginário, não deve submeter-se à férula dos representantes de um Deus parcial, caprichoso e vingativo, nem carrega pecado original algum que o estigmatize do berço. Tampouco de outrem depende a sua sorte.

Chegou o dia da libertação intelectual, a hora da renova­ção soou para todos os que ainda se curvam sob o guante do terror dogmático. O Espiritismo aclarou o nosso futuro a des­dobrar-se pelos céus infinitos. Graças a ele, sentimos palpitar a alma de nossos irmãos, entrevemos outras humanidades ce­lestes.

Remontamos às espessas trevas do passado para estudar a nossa juventude espiritual e não encontramos, em parte alguma, esse fantástico tirano que a Bíblia tão tetricamente descreve.

Em toda a criação nada existe de ilógico, de arbitrário, que venha destruir a grandiosa harmonia das leis eternas.

Não há necessidade de apelo ao milagre para explicar a criação: é bastante observar as forças universais em seu cons­tante atividade. As formas, tão diversificadas, dos seres vivos, animais ou vegetais, são, todas elas, devidas a duas causas permanente, que jamais deixaram de atuar e continua a mani­festar o seu poder: - a influência do meio e a lei de seleção, o que vale dizer - a luta pela vida.

A luta pela vida

O solo regurgita de colônias vivas e até nas regiões desérticas nas álgidas solidões polares, nos areais abrasados, tanto quanto nos mais altos píncaros rochosos, por toda parte, enfim, a vida manifesta-se desbordante. Por toda parte seres que nascem, crescem e morrem.

Se alguma coisa pode causar-nos admiração é o equilíbrio perfeito que impera nesse formigamento de seres diversamente dotados pela Natureza. Por toda parte os seres vivos se tocam, se comprimem, se abraçam, se alimentam uns dos outros, e quer nos parecer não haja, em nosso globo, um só lugar que eles não tenham invadido. Parece-nos que a vida atingiu o máximo de sua expressão, e, no entanto, tudo nos leva a coligir que assim é há milhares de séculos. Conta-se por períodos mi­lenários a luta dos seres vivos, disputando-se o solo, a água, o ar do nosso mundículo. (37)

Quando consideramos a prodigiosa fecundidade de algumas espécies animais, ou vegetais, aterra-nos a perspectiva da inva­são que resultaria do integral desenvolvimento de seus óvulos.

O bacalhau, por exemplo, que é muito prolífico, chega a produzir até 4.872.000 ovos. Uma pequena truta, pesando uma libra alemã, põe 6.000 ovos, mais ou menos. O Sr. G. de Sedlitz baseia-se nesses dados para fazer um cálculo curioso.

Supondo que uma truta forneça 3.000 descendentes fêmeas (estimativa assaz baixa), e que essa reprodução prossiga, sem obstáculos por cinco gerações, às trutas, após 25 ou 30 anos, seriam bastantes para cobrir a superfície terráquea, as razões de 10 trutas por pé quadrado. Na oitava geração, teremos um volume igual à massa planetária. Que se faça o cálculo com o salmão (80.000 óvulos), a cavala (500.000), o esturjão comum (1 a 2.000.000) - e compreender-se-á a necessidade de causas destrutivas, assaz enérgicas, para impedir a invasão de mares e rios. (38)

Mas, é sobretudo no mundo dos infusórios que essa mul­tiplicação se tornaria espantosa, se nada lhe bloquearia o surto. Assim, que há vorticelas cissíparas que se multiplicam a cada hora, com rapidez vertiginosa. Um só desses minúsculos seres daria, em treze dias, um número equivalente a 91 cifras!

Ehremberg calculou que um microscópico galional, (galional jerruginea) engendra, por cissiparidade, 8 milhões de indiví­duos em 48 horas, e 140 bilhões em 4 dias!

As bactérias da lepra, do tifo, da pneumonia, etc., prolifi­cam com celeridade terrificante. No espaço de uma hora, esses bacilos engendram dois novos rebentos, e assim por diante, em progressão geométrica, de sorte que, ao fim de três dias, haverá nada menos de 47 trilhões de monerianos! Segundo Davaine, um simples pique inoculante de uma única bactéria pode, den­tro de 72 horas, determinar o nascimento de 71 milhões de indivíduos.

Finalmente, Cohn estimou que, ao quinto dia, o oceano se letaria com a prole de uma só bactéria, se as condições ecológicas a isso se prestassem. Felizmente, para nós, elas e raro se encontram no corpo humano.

As plantas oferecem-nos os mesmos exemplos de prolife­ração progressivamente formidável. Um campo que produza trigo em abundância, com as espigas pressionadas entre si, não poderia nutrir maior número delas; por isso, e contendo cada uma das espigas várias sementes, importa que grande parte das novas pereça. E a lei inelutável. Em nosso orbe, a evolução se processa por meio de lutas renascentes. Seja ela surda e quase imperceptível, como no reino vegetal; ou seja ostensiva e terrível, como entre os grandes carnívoros, não deixa de operar, incessante, em todos os graus da escala.

Uma necessidade inelutável combate à fecundidade pela destruição e todas essas ações simultâneas redundam na sobrevivência ­do mais apto a suportar a luta pela vida.

Nem sempre os mais bem aparelhados são os que resis­tem as mudanças térmicas, tais como invernos rigorosos e tórri­do não permitirão subsistam senão os capazes de resistir A essas alternativas extremas. A fome, as enfermidades, é que se conjugam para uma seleção rigorosa entre as vivas, e só às mais robustas é dado subsistir e transmi­tir aos descendentes as qualidades assecuratórias de sua posteridade.

Desde o aparecimento do protoplasma no seio dos mares primitivos, desde que as primeiras mônadas manifestaram fenômenos vitais, essa luta jamais teve um hiato, e sempre, e por toda parte, prossegue, imperturbável, no facetamento dos organismos, com uma perseverança implacável. Dessa concor­rência encarniçada é que resultou a vitória dos melhores, dos mais aptos, dos mais robustos.

E foram esses esforços perpétuos do ser, reagindo às in­fluências destrutivas no afã de adaptar-se ao meio para lutar com os seus inimigos, que engendraram o progresso evolutivo das formas e das inteligências.

A seleção natural. atua, exclusivamente, conservando e acentuando as variações acidentais, vantajosas ao indivíduo nas condições do ambiente em que é chamado a viver.

Resulta , pois, da seleção, que toda forma vivente deve aperfeiçoar sempre, relativamente, pelo menos, ao seu modo de existir Ora, esse contínuo aperfeiçoamento dos seres organizado deve, inevitavelmente, conduzir ao progresso geral do organismo em todos os seres disseminados na superfície da terra. Podemos, então, concluir com Darwin, dizendo:

“Assim é que a guerra natural, a fome e a morte, originam diretamente o efeito mais admirável que possamos conce­ber: - a formação lenta dos seres superiores. Há grandeza em prismar assim a vida e seus diversos poderes, que animam originariamente muitas ou uma única forma, sob o influxo do criador. E enquanto o planeta continuou a preencher ciclos perpetuos adstrito às leis fixas da gravitação, essas formas se”. desenvolveram, inumeráveis, e, cada vez mais belas, mais maravilhosas, seguirão desenvolvendo-se num evoluir sem fim."

Se a doutrina evolucionista encontrou tantos adversários, é que o preconceito religioso deixou vinco profundo nos espíritos, nativamente rebeldes, ao demais, a toda novidade. É que nos temos habituado a ver por toda parte o dedo de Deus, a interessá-lo em nossos negócios, a fazer da vontade divina um macio travesseiro para a nossa ignorância. Em lugar de procurar na própria natureza a causa de suas transformações, era sempre mais cômodo atribuí-Ias a uma intervenção sobrenatural, que dispensava longos e fatigantes estudos.

Certos naturalistas, observando seres aproximados da série animal, incapazes de fecundação por cruzamentos, concluíram pela imutabilidade das espécies.

A teoria transformista, porém, leva-nos a compreender que os animais contemporâneos não são mais que os últimos produtos de uma elaboração de formas transitórias, desaparecidas na voragem dos tempos, para deixar remanescer apenas os atuais.

As devassas da paleontologia aí estão a descobrir, todos os dias, as ossadas de animais pré-históricos, que formam os elos dessa cadeia infinda cuja origem se confunde com a da própria vida. E, como se não bastara demonstrar essa filiação pelos fósseis, a Natureza encarregou-se de fornecer um exemplo em cada nascimento. Todo animal que nasce, reproduz no inicio da sua vida fetal, todos os tipos anteriores pelas quais passou a raça antes dele

E como que uma história sumária e resumida da evolução dos seus ancestrais, e ela estabelece, irrevogavelmente, o parentesco animal do homem, em que pesem todos os protestos mais ou menos interessados.

Resumo

Temos que é inútil e anticientífico imaginar teorias mais ou menos fantasistas para explicar os fenômenos naturais, quando podemos recorrer à Ciência para compreendé-los.

A descendência animal do homem impõe-se com evidência ominosa a todo pensador imparcial. Somos, evidentemente, o último ramo aflorado da grande árvore da vida, e resumimos, Acumulando-os, todos os caracteres físicos, intelectuais e morais ­assinalados isoladamente em cada um dos indivíduos que perfazem a série dos seres.

Que se considerem os animais como existindo de maneira invariável desde a origem das idades, ou que os acreditemos derivados uns dos outros, menos certo não é que os espécimes da nossa época se ligam entre si de modo tão íntimo, que po­demos passar do homem à célula mais simples, sem encontrar­mos soluções de continuidade.

Do ponto de vista anímico, as manifestações do espírito em todos os seres são graduadas de modo a identificar umas progressões ascendentes, que se vai acentuando maiormente, à proporção que nos aproximamos da humanidade.

De modo que, posto exista entre os antropóides e a selva­gens grandes diferenças intelectuais, não variam elas, contudo, senão no grau das manifestações, e não bastam para fazer crível no animal uns princípios diferentes do conhecido no ho­mem. Estudar esse princípio, determinar o mais exatamente possível como o pode desenvolver-se; mostrar, em seguida, as modificações que o tornam mais apto, em cada passagem ter­rena, a dirigir organismos de mais a mais aperfeiçoados, tal será o objeto do capítulo seguinte.

CAPITULO III

COMO O PERISPIRITO PODE ADQUIRIR PROPRIEDADES FUNCIONAIS

SUMARIO: A evolução anímica. - Teoria celular. - Nos organismos, mesmo rudimentares, é preciso a presença do elemento perispiri­tual - Diferenciação das células originariamente idênticas desde a sua formação. - Movimentos que se fixam no invólucro. - Nas­cimento e desenvolvimento dos instintos. - A ação reflexa, o seu papel, Inconsciência e consciência. - Progressão paralela do siste­ma nervoso e da Inteligência. - Resumo.

A Natureza é a grande mestra. Só ela contém a verdade, e todo aquele que saiba vê-la, com olhar filosófico, desven­dar-lhe-á os secretos tesouros ocultos aos ignorantes. As leis que regem a evolução proteiforme da matéria física ou vivente atestam que nada aparece súbita e perfeitamente acabado.

O sistema solar, o nosso planeta, os vegetais, os animais, a linguagem , as artes, as ciências, longe de traduzirem rebentos espontâneos, são antes o resultado de longa e gradual ascensão, a Partir das mais rudimentares formas até às modalidades hoje conhecidas.

Lei geral e absoluta, dela não poderia aberrar a alma hu­mana constituir uma exceção. Essa alma, vemo-la, passa na terra pelas mais diversas fases, desde as humílimas e incipientes concepções dos silvícolas, até as esplêndidas florações do gênio nas nações civilizadas.

Deverá nosso exame retrospectivo deter-se aí? Deveremos crer que essa alma, que manobra no homem primitivo um orga­nismo tão complicado, tenha podido, de súbito, adquirir propriedades tão variadas e tão bem adaptadas às necessidades do indivíduo?

Deverá nossa indução limitar-se aos seres que tenham exatamente os nossos mesmos caracteres anatômicos?

Eis o que não cremos, pois as transições insensíveis que nos levamos fisicamente do homem à matéria, nós as encontram no domínio intelectual, com as mesmas degradações sucessivas, tal como precedentemente demonstramos. É, pois, no alvor da vida inteligente que precisamos fixar-nos para encontrar, senão a origem da alma, ao menos o ponto de partida aparente da sua evolução através da matéria.

Intencionalmente dizemos - "o ponto aparente de parti­da", visto não podermos concluir legitimamente pela existência da inteligência senão onde ela se manifesta com certeza.

Ora, como o sistema nervoso é o órgão indispensável a essa manifestação, ligado que está, intimamente, à vida anímica, segue-se que estudemos os organismos partindo dos pri­meiros vestígios de uma organização nervosa.

Também nos determina a proceder assim à circunstância de nos aparecer à alma indivisível no homem, e nada autorizar a supor que outro tanto não ocorra na série animal; os pri­meiros lampejos do instinto tornam-se os sinais reveladores de sua atuação, embora seja, talvez, possível remontar mais alto para ver, na irritabilidade e na mobilidade, expressões inferio­res da alma.

Mas, ainda recusada a hipótese, fora bastante, no assunto, partir dos animais relativamente simples como os zoófitos, para compreender como pôde o perispírito adquirir sucessivamente, mediante transformações incessantes, as suas propriedades funcionais.

Apesar das copiosas provas acumuladas no capítulo anterior, no intuito de mostrar a identidade do princípio que dirige o animal e o homem, julgamos útil estabelecer experimentalmente a existência do perispírito animal.

São fatos respigados na obra do Sr. Dassier (39), autor que ninguém dirá suspeito de simpatias pelo Espiritismo. Mais valor, por isso mesmo, tem o seu testemunho.

“Em fins de 1869, achando-me em Bordéus, diz ele -, en­contrei, à noite, um amigo que se dirigia a uma sessão de mag­netismo,. e que me convidou a acompanhá-lo”.

"Anuí, desejoso de ver de perto o magnetismo, que até então só conhecia de nome. A sessão nada apresentou de notável: era a repetição do que ocorre comumente nas reuniões desse gênero. Uma jovem criatura, parecendo muito lúcida, oficiava de sonâmbula e respondia às perguntas que lhe dirigiam. Um fato inesperado surpreendeu-me, contudo. Ia a meio a sessão, quando um assistente, percebendo uma aranha no assoalho, esmagou-a com o pé.” Alto lá! - gritou logo a sonâmbula - está vendo evolar-se o Espírito da aranha!" Sa­bemos que, na linguagem dos médiuns, o vocábulo Espírito corresponde ao que eu chamaria fantasma póstumo.

- Qual a forma desse Espírito? - perguntou o magneti­zador.

- A mesma da aranha - respondeu a sonâmbula."

O Sr. Dassier não soube, a princípio, como interpretar a resposta.

Ele não admitia qualquer espécie de alma no homem e muito menos num animal. Não tardou, entretanto, mudasse de pensar, por isso que cita inúmeras manifestações póstumas de animais, e sempre sob as mesmas formas que tiveram na Terra. E ele acredita possível até o desdobramento de certos ani­mais, durante a vida terrestre.

Seja, porém, qual for a sua forma de ver, o indubitável já agora é que a chamada luz ódica de Reichenbach (40), o duplo fluídico da vidente de Prévorst (41), o fantasma póstumo do Sr. Dassier, outra coisa não é que o perispírito, ou seja, o invólucro da alma; e que, tanto nos animais, como no homem, o principio pensante é sempre individualizado no fluido universal.

Se bem que esta questão tenha sido pouco estudada até ao presente, possível foi verificar, com os médiuns videntes, que a alma animal não é destruída pela morte.

A Revue Spirite de 1894 relata o caso de um cão fielmente descrito por um vidente, quando seu dono, o conde de Luvoff, recordava o devotamento do animal. A essas demonstrações de saudade, o belo animal cabriolava de alegria, feliz por ver-se alvo das reminiscências do antigo dono.

Ainda nessa Revista (1865), depara-se-nos a narrativa desta manifestação póstuma:

“Ultimamente, por volta da meia-noite, achando-me deitado, mas vígil, ouvi, como se partisse dos pés da cama, o grunhi­do característico da cadelinha, quando lhe apetecia qualquer coisa. A impressão foi tão nítida que cheguei a estender o braço fora do leito, como se quisesse atraí-la e acreditasse na realidade das suas carícias”.

"Ao me levantar, de manhã, contei o episódio à minha mu­lher, que me disse: - também ouvi a mesma coisa, não uma, porém duas vezes. O grunhido parecia vir da porta do quarto. A primeira idéia que me veio foi a de não estar morta a nossa pobre bichinha e que, fugindo da casa do veterinário, procurava o nosso teto. Nossa filha, então enferma e ocupando a alcova materna, também afirma que percebeu o mesmo grunhido."

Aqui, não cabe a hipótese alucinatória, de vez que o fenômeno é identicamente percebido por três pessoas separadas. Se o princípio inteligente do animal sobrevive, se o animal tem, de fato, uma individualidade, possível se torna aplicar­--lhe as mesmas regras que dirigem a alma humana.

Por meio do Espiritismo, verificamos, experimentalmente, a necessidade da reencarnação para a alma humana, e a lei de continuidade, que temos assinalado em todos os seres viventes, nos induz a crer que o animal não se forra ao imperativo da mesma necessidade. Assim, o principio inteligente viria sucessivamente utilizar organismos cada vez mais aperfeiçoados, à medida que se tornasse mais apto a dirigi-los. Podemos ofere­cer duas provas dessa nossa perspectiva, por confirmarem a teoria da encarnação animal.

Os monistas, que negam a existência da alma, pelo menos como realidade distinta do organismo, recorreram- veja-se bem - a hipóteses, a afirmativas puramente conjeturais, quan­do houveram de defrontar-se com uns tantos fenômenos que as propriedades da matéria só por si não explicariam. Assim é que dotam a matéria, não só a do sistema nervoso, mas toda ela, da memória, que é faculdade essencialmente consciente. Eles que, tão acrimoniosos, censuram aos espiritualistas o abuso da metafísica, imaginam uma metafísica menos compreensível que a de Platão, de Bossuet ou de Descartes! Deixemos, contu­do, falarem os fatos.

Assim se exprime Viana de Lima:

“A invencível repugnância, o instintivo horror inconsciente que ainda nos inspiram uns tantos animais inofensivos, e cujo aspecto nos deveria antes causar indiferença; esse temor, essa repulsão inatos não podem, em dados casos, explicar-se senão ., pela hereditariedade da memória orgânica, provindo de ante­passados que houvesse, mui freqüentemente, sofrido malefícios desses animais. Ser-nos-ia fácil aqui transcrever inúmeros fatos roborantes do asserto, mas vamos contentar-nos com um exemplo da mesma índole, assaz instrutivo e menos conhecido, e que, ao demais, tem sido verificado por diversos observadores”.

"Se levarmos a uma estrebaria um molho de palha servida em jaula de leões, ou de tigres, e, com essa palha, fizermos a cama dos cavalos, vê-los-emos, tão logo sintam o cheiro da palha, tomarem-se de terror pânico e tentarem fugir.”Lay­cock, o primeiro a relatar o fato, diz que incontáveis gerações de cavalos domésticos deveriam ter sucedido os seus ancestrais selvagens, expostos aos ataques destes representantes da raça felina.”Entretanto, estes nossos cavalos domésticos, nascidos em nossas cocheiras e dos quais se pode assegurar não terem tido, jamais, uma prova experimental do perigo (não tendo mesmo avistado qualquer fera), ainda reconhecem o almíscar dos terríveis inimigos dos seus ancestrais." (42)

Não é, decerto, a matéria viva desses cavalos que ressente a impressão terrificante, visto que, das remotíssimas épocas do cavalo selvagem até o presente, a matéria do corpo físico foi completamente renovada, sem que reste dela um átomo, e isso um milhão de vezes. As moléculas extraídas da alimentação, feno, cereais, etc., moléculas que integram a forma do cavalo contemporâneo, não conhecem o leão ou o tigre, pois que elas não têm consciência. Como, então, explicar o pavor desses animais? Se admitirmos a existência de um princípio inteligente no animal, e que esse princípio se revista de um perispírito no qual se armazenem os instintos, as sensações, e que a memória provenha de uma revivescência desses instintos e sensações, tudo se torna compreensível.

As mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Os animais domésticos outros não são que os mesmos selvagens de outrora, em cujos perispírito o almíscar das feras desperta lembrança de sofrimentos, quiçá de morte. Daí, o seu terror. No homem, o sentimento instintivo de repugnância por uns tantos animais, como os répteis, provém das camadas mais profundas do "eu", são as sensações experimentadas pelo ser

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