Translate

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Bazar da Vida-Francisco Cândido Xavier

 

Índice do Blog 

www.autoresespiritasclassicos.com

clip_image002

BAZAR DA VIDA

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

ESPÍRITO DE JAIR PRESENTE

CORTA ISSO

Quem deseja o dom da paz

Que auxilia e reconforta,

Ouça o conselho da vida:

-“Corta isso, corta, corta...”

É que a paz simples e viva

Para instalar-se na mente,

Nenhuma ilusão aceita,

E peso nenhum consente.

É por isso que cortar

Significa o dever

De buscar-se o necessário

E quanto ao resto: “esquecer”.

Olvida as rixas de casa;

A incompreensão do vizinho;

O amigo que se afastou;

Os entraves do caminho;

Qualquer desgosto passado;

A provação já vencida;

O parente atrapalhado;

A fala mal- entendida;

A camisa fuchicada;

O paletó sem botão;

A parede descascada;

O conserto do portão;

A poeira desatada;

A fogueira do sol quente;

O vento do temporal

Que desabou de repente;

O copo de jeribita;

O café antigo e morno;

O bolo queimado e cru;

Os desarranjos do forno;

As promessas de mandraca;

Qualquer serviço mal-feito;

A condução atrasada;

A conversa sem proveito...

Se você procura paz,

Que o tranqüilize, a contento,

Não carregue bagatelas

No campo do pensamento.

Por isso, é que a vida, quando

A nossa idéia se entorta,

Está sempre repetindo:

- “Corta isso, corta, corta!...”

2

UMA FRASE AMIGA

Não prossiga descuidado

No passo com que vai indo...

Veja ao redor de você

Os tristes que vão seguindo...

A quem lhe peça consolo

Nunca recuse a esperança,

É muita gente sofrendo

Nas trevas da insegurança.

Aquele homem robusto,

Que empina a cabeça erguida,

Não poderia contar

As mágoas que traz na vida.

Aquela mulher bonita...

Quem sabe? É a bela doente,

Que procura por socorro

De algum médico eminente.

Cada pessoa se ocupa

Do que se lhe faz preciso;

Demonstre a própria bondade,

A começar do sorriso.

Siga sempre auxiliando,

Na escola viva do Bem,

Não sonegue o seu concurso,

Nunca despreze a ninguém.

Se você não crê na força

Da frase amiga em ação,

Olhe o pedaço de vela

Acesa na escuridão.

3

PARA SERVIR E AMAR

Amigo, você me pede

Para que o livre das crises,

Queixando-se amargamente

Dos momentos infelizes;

Diz haver chorado tanto

Que hoje é um pobre sofredor,

Arrastando a dura carga

De desenganos do amor.

Decerto, você julga em mim

Um companheiro eminente,

Mas sou apenas Jair,

O amigo Jair Presente;

Um pequeno servidor,

Procurando sem alarme,

Entre as pedreiras da vida

O processo de encontrar-me.

Você sabe: a evolução

Não aparece de estalo...

Sinceramente, não sei

O modo de consolá-lo.

Sabendo, porém, que a dor

É disciplina de lei,

Anoto para conversa

Um caso que acompanhei.

Junto a uma estrada de barro

Em que eu fazia ida e vinda,

Via sempre admirado

Uma cana nobre e linda.

Dava gosto vê-la enorme

A balançar-se no vento

E pensava: “o que seria

Do seu tronco suculento?”

Certo dia, veio um homem

E atacou-a de facão,

Depois, cortou-a aos pedaços

Sem que eu soubesse a razão.

Ao valente cortador

Que estava de boa veia,

Supliquei para segui-la

E, atônito, acompanhei-a.

Ela foi largada a um canto,

Depois, levada à moenda,

Foi triturada, de todo,

Para o açúcar na fazenda.

A cana altaneira e bela

Tinha um dever a cumprir:

Submeter-se à moenda

Para a missão de servir.

A vida é assim, meu caro,

Para ter o dom de amar,

Qualquer pessoa no mundo

Há de sofrer e chorar.

Se você chora, recorda

Que Deus cuidará de si.

Lembra o episódio da cana;

Amar é sempre isso aí.

4

ANOTAÇÃO

Era um dia de saudade...

Na mágoa que me afligia,

Intentava minorar

A minha melancolia...

Para isso, demandei

Sem aflição, sem alarme,

Antigos afetos meus

A fim de reconfortar-me.

Primeiro, quis abraçar

Os meus queridos parentes,

Estavam todos cansados,

Tão tristes, quanto doentes.

Busquei prezado colega...

Achei-o... Encontro irrisório,

Tinha um filhinho com febre

E a esposa num sanatório.

Lembrei-me de um companheiro

Que era forte, qual um touro...

Ao fim de uma cirurgia

Estava de sonda e soro.

Quis ver uma namorada

Dos meus caminhos de moço;

Casara-se... Tinha filhos,

O corpo era pele e osso.

Visitei um companheiro

Que muito me distraía,

Depois de duro acidente

Caíra em paralisia.

Procurei outro cupincha

De distração e cinema;

Dos pés até a cabeça,

Todo ele era eczema...

De tantos dos meus colegas,

As provas vinham a rodos,

Dentre quantos procurara,

Eu era o melhor de todos.

Orando, rememorei

Muitas lições de Jesus;

Cada qual de nós na vida

Vive atado à própria cruz.

Então pensei: nosso mundo

Não está fora da Lei.

Deus que o fez, Deus que o conserve,

Que eu, por mim, de nada sei.

5

SEQÜESTRO

No sentido de ampliar

Os pensamentos do Bem,

É que ouso comentar

A lição que vi do Além.

A viúva nobre e rica,

Dona Cecília Trindade,

Tinha um filho e duas filhas

Com destaque na cidade.

Certo dia, junto ao filho,

Tão pálida quanto a cera,

Mostra-lhe Dona Cecília

A carta que recebera.

Era um texto repulsivo

De cruel seqüestrador

Que lhe falava na escrita

Com menosprezo e rancor.

Que ela atendesse sem falta,

No que se punha a intimá-la

Cinqüenta milhões, não menos,

Ou, então, a morte à bala...

Que colocasse o dinheiro

Por entre jornais em monte,

Certa noite, em certa hora,

Debaixo de antiga ponte.

Nada dissesse à polícia,

Que agisse de “lábio mudo”,

Nada falasse a ninguém,

Se não mudaria tudo...

Rogava ao filho conselho

Contra o esperto marginal,

Esperando recorrer

Ao tato policial.

Mas o moço respondeu:

-“Escute, mamãe querida,

Nisso tudo, apenas vejo

A bênção de sua vida.

É preciso resguardar

Seus santos cabelos brancos,

Essa quantia é migalha

Do que já possui nos bancos.

Convém se evite a polícia,

Ponha o dinheiro em jornais

E fique livre de vez

Da mira de marginais”.

Mas a senhora, ao contrário,

Foi à polícia em segredo,

Pediu providências claras,

Falando firme e sem medo.

Orientada, a capricho,

Por antigo delegado,

Colocou todo o dinheiro

Sobre o terreno indicado.

A nobre dama, à distância,

Ficou serena, a contento,

Queria ver o desfecho

Do triste acontecimento.

Em hora escura da noite,

Um mascarado chegava,

Sem ver os homens atentos

Da guarda que o vigiava.

Quando tomou do pacote,

Eis que a polícia o esfacela...

Descobriu-se, então, que o morto

Era o próprio filho dela.

6

VIBRAÇÕES

Buscando maior proveito

Em nossas reuniões,

Falemos, mesmo de leve,

Na força das vibrações.

Quem desejar saúde

No mais seguro alicerce,

Tenha sempre a caridade

No que interfira ou converse.

Sentimento cria a idéia,

A idéia entra em questão,

Articulando a palavra

E o fato surge em ação.

Nas discussões e conflitos,

Se o nosso verbo injuria

Teremos logo conosco

Herpes, coceira, alergia...

Se reprovamos alguém

De forma infeliz e avessa,

Sofreremos, muitos dias,

Moleza e dor-de-cabeça.

Se a queixa é contra parentes,

Eis que essa queixa nos liga

À sombra da urucubaca,

Ao banzo e à dor-de-barriga.

Frase, atitude e expressão

Que se irradiem da gente,

De imediato, produzem

Vibração correspondente.

Palavra de luz e treva

Tem esta nota sensata:

A vibração nos eleva,

Mas vibração também mata.

7

RECADO

Você que deseja a paz,

Receba esta nota amiga:

Conserve muito cuidado

Em tudo o que você diga.

Procure evitar presença

Em queixume ou desacato,

Despeje silêncio e prece

Sobre o fogo do boato.

O trabalho é obrigação,

A caridade é dever.

A falar, buscando o mal,

É melhor nada dizer.

Se alguém, porventura, afirma

Que a fofoca está na onda,

Faça um sorriso fraterno

No entanto, nada responda.

As praças estão repletas

E há muita conversa oca.

Recorde: peixe no anzol

Acha a morte pela boca.

8

BARRAS

Noutras épocas, a barra

Era armação de metal

Para exercícios de força

Ou peça de tribunal;

Também a barra de saia

É indagação permanente

Criando complicações

Que enlouquecem muita gente.

A barra, porém, agora

Alcançou nova expressão:

Vem a ser “peso-pesado”

Na vida ou no coração;

Temos a barra do emprego

Quando o salário balança,

A barra da violência

E a barra da insegurança;

Vemos a barra da carga

Dos conflitos atuais;

A barra do sofrimento

Que avança cada vez mais;

A barra dos namorados

É a mais pesada de todas,

Porque muitos querem filhos

Antes do tempo das bodas;

Pela barra dos protestos,

Que se ampliam, de hora em hora,

É que aparecem problemas

E o trabalho vai-se embora.

Em meio de tantas barras,

Vivamos fazendo o bem,

Assim, não seremos barras

Para atrasar a ninguém.

9

ENCABULADO

Você me pergunta em carta,

Meu caro Antônio Garcia,

Sobre o amor livre na Terra,

No sexo de hoje em dia.

O que dizer, meu irmão?

Eis neste assunto o que sei:

O sexo sem controle

Inventa o amor sem lei.

Recorde o antigo provérbio:

“Na casa em que não há pão,

Todos reclamam comida

E se agitam sem razão.”

Exalta-se em toda parte

O corpo por nobre centro

Com muito sexo por fora

E muito chulé por dentro.

Tanto o homem pulou cercas,

Nas cercas em derredor,

Que a mulher quis imitá-lo

E a luta ficou pior.

Tanto a mulher se descobre,

Que o homem fica a pensar,

Se deseja estar na rua

Ou mesmo se quer um lar.

Sexo livre? Amor livre?

Garcia, não falarei,

Diga aos nossos que sou morto

E por isso nada sei.

10

O CASO LIBÓRIO

Libório, depois da festa,

Chegou, reclamando em casa,

Cambaleava e gemia,

Mostrando os olhos em brasa...

Despejou-se numa cama,

Desvestiu-se sem cautela

E passou a vomitar

Saliva grossa e amarela.

Gritava com dor no ventre,

Dizia-se com tonteira,

O coração disparava

Com tremenda batedeira.

Excedeu-se na festa,

Devorando peixe assado,

Com batida de limão

Num grande copo de lado.

Depois comera cabrito,

Torresmo, chouriço e frango,

Sentindo-se entusiasmado,

Caiu, feliz, no fandango.

Cantou, danço, batucou,

Tocando antiga viola,

Que trouxera resguardada

Por dentro de uma sacola...

Agora, clamava aos berros,

Ele, o touro e amigo forte,

Que não agüentava as dores,

Que via, de perto, a morte...

À noite, foi à sessão

Com apoio de enfermeiro,

Queria ouvir o Irmão Júlio,

Seu guia e seu companheiro.

No momento da consulta

Disse o Libório: “Ah! Irmão,

A doença me apanhou,

Vivo agora em provação...

Que diz o meu caro Guia?

Pois creio em sua virtude,

Necessito, quanto antes,

Retomar minha saúde!...”

O Amigo Espiritual

Respondeu com gentileza:

-“Vi você, ontem, na festa,

Gostei de sua destreza.

Tenha calma, irmão Libório,

Guarde a Fé, pense no Bem,

Deus é um Pai que nunca dorme,

Nem abandona a ninguém.

Mas escute este rifão

Que ofereço ao seu amparo:

Quem a paca caro compra,

Pagará a paca caro.”

11

LIÇÃO IMPREVISTA

O irmão Joaquim Benevente

Justamente nesse dia,

Amanhecera, animado,

Mostrando grande alegria.

Finalmente, ia encontrar

O prezado benfeitor

Que lhe escrevia, de longe,

Renovando-lhe o vigor.

Estava fazendo um lar

Que desse a toda criança,

Sozinha ou desamparada,

Paz, amor e segurança.

Pois, esse amigo distante

Faria do longe o perto;

Prometera visitá-lo

Em data e horário certo.

Além disso, o benfeitor,

Sempre ativo e sempre irmão,

Dissera-lhe em carta amiga

Que lhe traria um bilhão;

Um bilhão que o amparasse,

No serviço em andamento,

E Joaquim se organizara

Para abraçá-lo, a contento.

De ônibus, ia às compras...

Sentou-se, notando ao lado

Um homem de grande porte,

Idoso, forte e pesado.

Após minutos de calma,

Em aspirando o rapé,

O companheiro de banco,

Sem querer, pisou-lhe o pé...

Mas Joaquim trazia um calo

Com minguada paciência,

Um calo que lhe amargurava

Cada dia da existência.

Ao sentir-se machucado,

Entregou-se à irritação

E gritou, atarantado:

-“Tire o pé, “seu” gordalhão!...

Infeliz, saia daqui,

Saia e vá adiante,

Não quero ter, ao meu lado,

O seu corpo de elefante...”

O homem rogou desculpas

E afastou-se, incontinenti,

Cambaleou e seguiu,

Sentando-se mais à frente.

Joaquim comprou doces finos

Em nobre confeitaria,

Aguardando o benfeitor

Que, logo, o visitaria...

No horário, alguém bate à porta;

Joaquim corre a ver quem é...

Era o homem alto e forte

Que lhe pisara no pé.

O visitante sorriu,

Joaquim pediu-lhe perdão

Recebendo, envergonhado

A dádiva de um bilhão.

Mantendo nas próprias mãos

O cheque pleno de ensinos,

Pensava no grande ensejo

De serviço aos pequeninos.

Moral da historia: quem queira

Obras de amor e valia,

Que cultive a tolerância

E cuide da cortesia.

12

O COFRE

A viúva Dona Adélia

Fora linda e muito rica,

Ajaezada de jóias

Na Fazenda de Benfica.

Mas tudo via em mudanças,

Desde a morte do marido,

Fazendas, granjas e terras,

Tudo ela havia perdido.

Tinha dois filhos adultos,

Liberato e Consentino,

O primeiro - jogador,

O segundo - libertino.

Gastavam dinheiro, a rodos,

Sob avais e mais avais;

Quando a viúva acordou,

Tinha assinado demais.

Perdera fazenda e terras,

As jóias que possuía,

Todo o credito bancário,

E a casa de moradia...

Os dois filhos lhe arranjaram

Duas estreitas salinhas,

Onde moravam com ela

Um gato e duas galinhas.

Comiam do que lhes dessem,

Por simpatia e bondade,

As pessoas de visita,

Em nome da caridade.

Os filhos, porém, notaram

Que ela guardava com gosto,

Um cofre, sob disfarce,

Num travesseiro bem posto.

Certo dia, com malícia,

Perguntou-lhe o Liberato:

-“Mãezinha, o que há no cofre,

Que recebe tanto trato?”

Ela apenas respondeu,

Mostrando certo cuidado,

-“Neste cofre, tenho o resto

Do meu dinheiro guardado”.

Desde esse dia, a viúva

Teve os filhos, ao redor,

Ela, as galinhas e o gato

Comeram muito melhor.

Vários anos se passaram

Com melhoria e regalo:

Os filhos, olhando o cofre

E ela sempre a resguardá-lo.

Em luminosa manhã,

Os moços, abrindo a porta,

Estremeceram de susto,

Dona Adélia estava morta.

Guardaram o cofre, às pressas,

Trouxeram médico e gente...

E ao fim do dia lhe deram

Funeral sóbrio e decente.

Ambos sozinhos, à noite,

Abriram o cofre, enfim...

O cofre só tinha conchas

E um bilhete escrito assim:

-“Filhos do meu coração,

Meus filhos que tanto amei,

Perdoem se nada tenho...

Tudo o que eu tinha, eu lhes dei...

Mas, agora, se desejam

Ouro e mais ouro a rolar,

Aceitem o meu conselho:

Cada um vá trabalhar!...”

13

PEQUENA HISTÓRIA DE JOAQUIM

Curado em pequeno grupo

Pela bondade de um Guia,

Fez-se mudado e contente

O amigo Joaquim Faria.

Negociante otimista,

Sempre afável, prazenteiro,

Prometeu servir aos pobres,

Se Deus lhe desse dinheiro...

O dinheiro desejado,

Em certa hora, o alcança,

Era agora um homem rico,

Através de enorme herança.

Desencarnado, um avô

Deixara-lhe grandes rendas,

Apólices e seguros,

Minerações e fazendas.

Falou Joaquim que ergueria

O amparo aos necessitados,

Num lar de paz e conforto,

Em muitos metros quadrados.

Parou nisso muito tempo,

Depois, tornou-se notório,

Que em vez de lar, alçaria

Majestoso ambulatório.

Montava esquemas e esquemas,

Dizia reter os cobres

Para a assistência precisa

A muitos enfermos pobres.

Os janeiros se ajuntavam...

Joaquim, com espalhafato,

Da idéia de ambulatório

Passou para a de orfanato.

No entanto, tempos após,

Disse o grande gabarola,

Que não queria orfanato,

Queria uma linda escola.

De plano em plano, Joaquim

Viveu e gozou, em suma,

Caminhando em vida mansa,

Sem construir obra alguma.

Desencarnado, por fim,

Dormiu, dormiu e, depois,

Notou junto dele, um anjo,

Estavam, a sós, os dois...

Joaquim pergunta: “anjo amigo,

Você sempre me acompanha...

Decerto, sabe o meu nome

Ante a vida escura e estranha?...”

Disse o anjo: “ andei consigo,

Dia a dia e mês e mês...

Você é o Joaquim Faria,

Que faria, mas não fez.”

14

TIA E SOBRINHO

Eis-me a trazer-vos a história,

Estranha como se diz,

Do fato que sucedeu

A um amigo- o Téo Muniz.

Ele chegara aos quarenta...

Morava com garbo e graça

Com velha tia, contando

Noventa e lá vai fumaça.

Ela, viúva, fizera

Testamento em pergaminho,

Sem outros quaisquer parentes,

Deixara tudo ao sobrinho.

O moço, olhando o futuro

Pela ambição desmedida,

Dava-lha os nomes mais ternos:

- “Meu tesouro”, “mãe querida...”

Ele adulava a velhinha,

Ela adorava o rapaz,

Unidos, constantemente,

Viviam em doce paz.

Mas veio um dia difícil...

A tia surgiu doente,

O rapaz fez-se-lhe apoio

No carinho permanente.

Exames. Medicamentos.

Inquietações. Agonias.

Problemas multiplicados

Chegavam, todos os dias.

A velhinha, certa noite,

Em silêncio, estremeceu...

Notando-o imóvel, de todo,

Disse a enfermeira: “morreu...”

O sobrinho desolado

Debruçou-se sobre a tia;

Chorando, viu-a parada,

O coração não batia.

Veio o médico. No exame,

Faz testes, explica, exorta...

Num colapso profundo

A doente estava morta.

Entretanto, quis mais provas,

Um companheiro traria;

Então, daria o atestado

De óbito no outro dia...

A casa, de imediato,

Transformou-se num velório,

Testemunhos de pesar,

Condolências. Falatório.

Téo chorava na aparência,

Pois, ganhando o paparico

De quantos vinham a ele,

]sabia-se muito rico.

A herança era muito grande.

A tia deixava rendas,

Muitas lojas de aluguel,

Terras, galpões e fazendas.

Entretanto, ao dia claro,

A morta estava a mexer,

Aquele corpo cansado

Começara a reviver.

Veio médico. Auscultou-a,

Dizendo com alegria

Que ela somente sofrera,

Grave catalepsia.

Desiludido e assustado,

Téo caiu, em desconforto...

Dando entrada no hospital,

O coitado estava morto.

15

PEDACINHO

Uma queixa descabida,

Uma fofoca qualquer,

Seja nascida de homem,

Seja feita por mulher;

Uma frase de ironia,

Uma anedota travessa

Que ponha o ouvinte aloprado,

Com minhocas na cabeça;

Um grito disparatado,

Um gemido sem razão;

Uma conversa comprida

Para dizer “sim” ou “não”;

Uma resposta infeliz,

Um gesto de desacato,

Uma nota de azedume,

O gosto pelo boato...

Tudo isso é um pedacinho

Da treva posta em ação,

Provocando a nossa queda

Nas tramas da obsessão.

16

O PRESENTE

Já se fizera mania

Em Joaquim Serapião...

Vivia rogando auxílio

Em toda reunião.

Na sessão de voz direta,

Usando calma sem fim,

A entidade na cabine

Reconfortava Joaquim.

O irmão Quintino Elentério,

Ali materializado,

Estava sempre disposto

Para incessante recado.

A declarar-se doente,

Embora a mostrar-se forte,

O moço pedia amparo,

Guardando o medo da morte.

Queixava-se de bronquite,

De tosse e inchaço na goela,

De desânimo e tontura,

Batedeira e erisipela...

Em cada reunião,

Lá se encontrava Joaquim,

Acabrunhado e choroso,

Dizendo-se assim, assim...

Passados mais de oito anos,

Depois de curta oração,

O irmão Quintino Elentério,

Avisou ao pedinchão:

-“ Joaquim, agora é que eu trouxe,

Com minha grande alegria,

O seu remédio seguro,

Para uso, dia-a-dia.

Deixarei nesta cabine

O meu singelo presente,

Não quero vê-lo abatido,

Nem cansado, nem doente...”

Finda a sessão, eis que surge

A cabine iluminada...

Joaquim correu ao remédio

E achou uma linda enxada.

17

O IRMÃO CONSELHEIRO

Servindo de auxiliar

Para um mentor enfermeiro,

Entrei no lar confortável

Do irmão Genésio Pinheiro.

O instrutor que me levava

É um prestimoso atendente

Que declarava Pinheiro

Necessitado e doente.

Qual não foi o meu espanto,

Ao notar no visitado

Um quarentão alto e forte,

Notavelmente trajado.

O mentor recomendou-me

Silêncio, calma e atenção...

Sentado, o dono da casa

Escrevia ao próprio irmão.

Postados à retaguarda,

Sem querer, eu mesmo lia

Tudo aquilo que Pinheiro

Fraternalmente escrevia:

-“Prezado mano Jojota

-dizia, na carta amiga-

Conforme os tempos de hoje,

É preciso que eu lhe diga...

Para guardar a saúde,

Você, que é moço educado,

Conserve os nossos princípios

E tenha muito cuidado.

Durma cedo. Evite farras.

Não busque dor-de-cabeça,

Nem procure a companhia

De moças que não conheça.

Nada de álcool na boca,

Nem mesmo vinho ou licor,

Fuja do ar poluído

De qualquer rua a transpor.

Não fume, porque o cigarro

Parece trama ou feitiço,

A pessoa quer deixá-lo,

Depois não pensa mais nisso.

Não coma carne de porco,

Nem beba água qualquer...

Lembre sempre os três perigos:

Fumo bebida e mulher...”

Nesse tópico da carta,

Pôs-se a ler o texto feito,

Mas sentiu, desconcertado,

Uma forte dor no peito.

Fitando a carta na mesa,

Sob enorme desconforto,

Ergueu-se e saiu gritando...

Em seguida, estava morto.

18

DINHEIRO TEM MUITAS FACES

Recebi seu questionário,

Meu prezado companheiro.

Você quer saber, ao certo,

O que penso do dinheiro.

O assunto é muito difícil,

Porquanto, falando as claras,

Em qualquer parte do mundo

Dinheiro tem muitas caras.

Dinheiro ganho em trabalho,

No suor de cada dia,

Para quem cumpre o dever

E uma fonte de harmonia.

Entre amigos generosos,

Dinheiro que se arrecade,

Para socorro aos que sofrem,

É uma luz de felicidade.

Dinheiro distribuído,

Em forma de ensino e pão,

É musica de alegria

Por dentro do coração.

Mas dinheiro para o mal,

É um tema que não governo,

Porque vira passaporte

Para as jogadas do inferno.

19

PROMESSAS

O homem desencarnado

Apareceu abatido...

Queria o nosso mentor

Para fazer-lhe um pedido.

O pobre recém- chegado,

Começou dizendo assim;

- Ampare-me, nobre amigo,

Tenha piedade de mim...

Sei que já fui afastado

De meu corpo deprimente,

Mas vivo de déu-em-déu

Vagando, constantemente.

É que ando preso aos cuidados

De uma promessa que fiz,

Promessa que não paguei,

O que me faz infeliz.

Fui rico... Tive fortuna,

Hoje invadida de herdeiros...

Mas fiquei devendo aos pobres

Setecentos mil cruzeiros.

São pobres de Santo Antônio

Que os protege das Alturas...

Viúvas abandonadas

Em choças tristes e escuras...

Que devo fazer agora,

Em meu remorso insistente.

Se meu dinheiro não vale

No câmbio aqui diferente?

O mentor se resguardava,

Em silêncio singular,

E o homem continuou

Em lágrimas de pasmar...

Por fim, o mentor falou

Em voz amiga e pausada:

-Meu amigo, sinto muito

A sua conta atrasada...

Aquilo que se promete

À caridade de alguém

Tem força de promissória

Na Terra e no Mais Além...

O Bem é negócio urgente,

Não se entristeça, entretanto,

Volte ao mundo, volte e sirva

Aos protegidos do Santo.

E o meu débito, em dinheiro?

Necessito de ação pronta.

Posso assinar promissória,

A fim de pagar a conta?

Disse o mentor: “meu amigo,

Escute com atenção:

O seu resgate, em dinheiro,

Só em outra encarnação...”

20

VIVER EM PAZ

Se queres viver em paz,

Segue os princípios do bem.

Atende ao próprio caminho,

Não penses mal de ninguém.

Ama a tarefa que tens

E o dever que ela te aponta;

Sobre os problemas dos outros,

Não formam em nossa conta.

Não guardes idéias tristes

Entre as lembranças que levas,

O Sol atravessa a noite

Sem alterar-se nas trevas.

Se alguém te ofende, perdoa,

Seja na rua ou no lar,

Todos nós, perante a vida,

Somos capazes de errar.

Quanto ao mais, confia em Deus

E anota esta lei segura:

Cada pessoa se vira

Sob aquilo que procura.